15 dezembro 2015

Sobre as eleições na França

As eleições regionais francesas, que tiveram seu segundo turno ontem, à parte terem demonstrado um expressivo crescimento dos votos na ultra-direita, o Front National (FN), também demonstraram a capacidade das forças políticas locais se unirem, numa situação de risco, para combater esse grande mal.

O FN é o grande mal. É um partido facista, com posturas radicais e proposições racistas, mas que dissimula sua identidade por meio de uma máquina de comunicação. Como disse o jornal Le Monde, o mais importante do país, no dia seguinte ao primeiro turno, em seu editorial de capa, o Front National é “uma grande impostura”.

Eu estava em Paris no domingo retrasado, quando ocorreu o primeiro turno dessas eleições. Na França o 2o turno ocorre 7 dias apos o 1o turno. Vi o avanço do FN, que venceu o 1o turno em 6 das 13 regiões em disputa. Mas vi também, imediatamente, a mobilização dos agentes políticos para barrar esse avanço. Na região do Pas-de-Calais-Picardie, por exemplo, onde a candidata favorita era a própria presidenta do FN, Marine Le Pen (com 40,3% dos votos do 1o turno) o candidato socialista, que ficou em terceiro lugar, imediatamente abandonou a disputa pedindo que seus eleitores votassem no candidato da direita, para barrar a vitória da ultra-dirteita. Na França, com excessão das eleições presidenciais, 3 candidatos podem ir ao 2o turno. Resultado: o candidato da direita recebeu 57% dos votos e Marine Le Pen recebeu 42%.

Esquerda, direita e ultra-direita

É preciso contextualizar. Na França, o que se chama “direita” é uma direita em geral republicana. Com seus patifes e canalhas, é claro – como o ex-presidente Sarkozy, por exempo – mas também com alguns nomes dignos, que defendem causas nobres, inclusive "de esquerda". É uma direita que não receia se dizer direita. A “esquerda”, por sua vez, possui um espectro mais variado: os socialistas possuem um programa atualmente moderado, mas com grandes compromissos sociais; e há vários outros partidos, mais radicais.

Já o FN é execrável, inadimissível, do ponto de vista de quem pensa na política como diálogo. Razão pela qual todos se unem contra ele, em caso de risco imediato.

Porém, o FN cresce. Eu morava na França em 2002 quando ele surpreendeu a todos e foi para o 2o turno contra Jacques Chirac (que venceu), deixando para trás o candidato socialista Lionel Jospin. Vi o grande choque que isso provocou e fui para a Bastilha, com uns 2 milhões de pessoas, para protestar contra o FN.

De lá para cá o FN cresceu. Teve 17% dos votos nas últimas presidenciais. Fez mais deputados, se tornou uma presença constante na imprensa e passou a ser evocado nos debates públicos.

Por que o FN cresce tanto?

Um crescimento que não é sem razão. Numa sociedade em que a política é marcada pela ambivalência e por uma forte tendência de conversão ao centro – como é o caso de quase todo o Ocidente – direita e esquerda passam a medir excessivamente as palavras e evitam propostas claras e diretas em relação a grandes questões que incomodam o homem comum – como as questões da imigração, da identidade, da reserva de emprego, do policiamento e da punição de menores, por exemplo.

Já o FN se posiciona em relação a isso com muita clareza. E isso, associado a uma capacidade midiática pautada por messianismos e por mensagens icônicas de apelo direto (a Marselhesa, a bandeira francesa, Joana d’Arc, etc) acaba soando, para imensa parte do eleitorado, como sinceridade, verdade, coerência...

Por isso seu crescimento.

Comparando o FN com a direita brasileira

O FN é como a direita brasileira. A direita brasileira não é republicana, como a direita francesa. Ela evita dizer seu nome. Ela se dissimula no espectro político, tal como o FN.


Ela também evita debates e procura se apegar a essas questões simplórias que preocupam o homem comum e cujo maior efeito é produzir falsos problemas. Além disso, ela ainda se apóia em ícones messiâncos de facílima assimilação. O FN, tal como a direita brasileira, vive de chavões, explorando a ignorância política.

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