23 dezembro 2015

Sobre o recital Lima & Velasco

Assisti na segunda-feira, dia 20, a uma simpática apresentação de dois jovens pianistas paraenses que estudam, presentemente, na École Normale de Musique de Paris. O recital ocorreu na Sala Ettore Bosio, da Fundação Carlos Gomes e os pianistas se chamam Ariel Lima e Gustavo Velasco. Todas as peças foram feitas para piano a quatro mãos – desafio sempre instigante, que cria certa expectativa no público.

O recital começou um pouco tenso – por parte dos pianista e da plateia. Eles certamente trabalharam muito para a apresentação, estavam bem sintonizados, mas fizeram o prelúdio da peça de abertura – a Sonata, de Poluenc, em 3 movimentos – de uma maneira tão nervosa que, mal terminado esse primeiro movimento, a plateia não se conteve e explodiu em palmas. Os dois jovens pareciam aliviados, e a plateia também.

O movimento seguinte consegiu enquadrar todo mundo. Era um movimento que permitia um pouco de encenação, e nada como uma boa encenação para botar todo mundo no controle do próprio espírito. Os dois encenaram, aí, o tema central dessa peça, o naïf, o ingênuo, o campestre. E se saíram muito bem, partindo para o terceiro movimento sem hesitações.

Veio depois a Dança Macabra, de Saes-Saenz, na versão para 4 mãos de Ernest Guiraud. A música é bela, bem conhecida e instigante. Perfeita para jovens pianistas destemidos. E os dois foram competentes. Não apenas executaram uma obra difícil como também lhe conferiram dramaticidade. Até fizeram umas caretas. Para mim, foi o ponto alto do recital. Aliás, acho que não só para mim, porque alguns “bravos” ecoaram na plateia.

A terceira peça da noite, a opus 56, Dolly, de Fauré, talvez pedisse, aos dois rapazes, um pouco mais de ousadia – afinal, é uma história para crianças, que precisa ser “contada” como se contam histórias a crianças, com inventividade, um pouco de suspense, rastros e enigmas. É o tipo de música que pede narrativa e que, por isso, tem que fugir da simples “boa execução”.

Depois do intervalo veio Rachmaninov, opus 11. Boa escolha. Depois de Dolly estávamos à caminho de Ma Mère l’Oye, de Ravel, sabiamente evitado. Muito bom. Deu grande prazer em escutar. Os garotos trabalham duro e bem. Nós, na plateia, pudemos seguir o jogo de diálogo e complemento das quarto mãos com clareza. Hoje vi na internet outras três apresentações da mesma música (como é bom ter um tempo para fazer isso!). Vi e revi o 4o movimento, a Valsa, que foi o que mais gostei na apresentação deles. Se forem atrás não percam a apresentação de Martha Argerich com Khatia Buniatishvili desse 4o movimento, que é impressionante. Dá para seguir as paisagens russas.

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