28 janeiro 2016

Sobre Christiane Taubira

“As vezes, resistir significa ficar. E as vezes significa partir. Por fidelidade a si mesmo”. Foi com esse tweet que Christiane Taubira, ministra da justiça da França, anunciou que saia do governo, que deixava o gabinete do primeiro-ministro Manuel Vals e, portanto, o governo Hollande.

Taubira era a fiadora do governo Hollande. A caução socialista de um governo que prometeu ser socialista e não saiu do centro. Somente por causa dela, moralmente falando, o governo Hollande continuava sendo de esquerda.

Sou seu fã. Mais um, porque há muitos. Acompanhei seu ministério com curiosidade e até mesmo com encantamento. É raro fazer política como ela faz: com extrema sinceridade e simplicidade. E evidentemente com fidelidade, tal como ela coloca no tweet.

Nascida na Guiana Francesa, aqui ao lado, foi eleita para a Assembleia Nacional francesa, pelo Partido Socialista em 1993 e, em seguida, deputada ao Parlamento Europeu. Sem que a pauta estivesse combinada com ninguém, iniciou uma campanha para fazer a Europa reconhecer a escravidão, que perpetrou durante séculos, como crime contra a Humanidade. A proposta estava destinada ao fracasso, em meio a um parlamento conservador e à acusação de proselitismo politico feita pela grande mídia, mas a opinião pública de todo o continente se mobilizou a seu favor – sobretudo nos países que mais escravizaram, inclusive Portugal - e o resultado foi histórico: sua moção acabou sendo aprovada, levando a uma enxurrada de reconhecimentos de responsabilidade por países, governos e instituições. 

Sempre cobrando, à esquerda, a fidelidade a seus compromissos históricos, acabou sendo acusada de ser a responsável pela derrota de François Jospin nas presidenciais de 2002, mas se tornou um dos braços fortes da campanha de Ségolèlene Royal na campanha de 2007. Foi nomeada ministra da justiça de François Hollande – ou  melhor, Garde des Sceaux, como esse cargo é tratado na linguagem quotidiana – e acabou se tornando a melhor face do seu governo. Foi a autora e a defensora do projeto de lei do casamento homosexual (ou, como ela mesma colocou, provando sua capacidade de simpliciar as coisas, o “casamento para todos”), que acabou se tornando a principal marca do governo Hollande. Nessa batalha, houve momentos memoráveis na forma de debates parlamentares, sempre marcados pela coragem e pelo bom humor.

O que a fez demitir-se foi o confronto de longa duração com o atual primeiro ministro, Manuel Vals, provável candidato socialista nas próximas eleições e que pode ser tudo, menos, de fato, um socialista. A gota d’água é o debate em curso em torno da lei que prevê a “perda de nacionalidade”, uma bizarrice ridícula que, inconcebivelmente, os socialistas de Vals tentam aprovar no Congresso.

Ninguém com bom senso pode ser favorável a uma lei que prevê a “perda de nacionalidade” e a coisa, com efeito, soa ainda mais bizarra num governo que tem uma pessoa do porte de Christiane Taubira como ministra “da justiça”.


Reproduzo alguns videos de Taubira no parlamento, sempre com suas marcas: coragem, bom humor, ironia, empatia:






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