24 junho 2016

6 notas rápidas para entender o Brexit

1.
Vários motivos fundamentam o Brexit. Em primeiro lugar o espírito conservador, que grassa no ocidente de maneira assustadora e que engendrou o populismo britânico atual – agente central do Brexit. Mas esse populismo conservador não é sem razão. A União Europeia tem dado motivos para muita gente querer sair dela. Dentre esses motivos, é central a arrogância da Alemanha, personificada na figura do seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, que vem impedindo até mesmo a discussão de um plano de recuperação econômica por meio de Eurobonds. Essa possibilidade dinamizaria as economias da França e do Reino Unido e salvaria Portugal, Espanha e Itália, mas não é de interesse alemão.  A injeção de Eurobonds emitidos por governos dos estados europeus no mercado mundial ajudaria a reciclar os excedentes globais e, em consequência, geraria o crescimento do consumo e do emprego no continente.

2.
Dentre os resultados do Brexit, há algumas questões geopolíticas a considerar. A primeira delas diz respeito ao próprio espaço interno do Reino Unido, porque Escócia e Irlanda do Norte, que votaram massivamente contra a saída da União Europeia podem retomar, agora com motivos estratégicos, a própria saída do Reino Unido para poderem voltar a fazer parte da UE. No caso da Irlanda do Norte, essa situação pode fortalecer a velha ideia de unificação com a Irlanda.
A segunda questão, de impacto imenso no planeta, é a questão da imigração e do êxodo de refugiados para o Reino Unido. Fato é que a UE constitui hoje, por meio de seus acordos sobre a imigração, a principal proteção do Reino Unido contra o crescimento desordenado da imigração não planejada. Com sua saída da UE, esse fluxo tende a ficar descontrolado e a aumentar. O ministro do interior da França, Emmanuel Macron, afirmou que, em caso de Brexit, se torna sem efeito o acordo de Calais, por meio do qual a França retém imigrantes ilegais que se destinavam ao Reino Unido.
A ironia é que um dos grandes argumentos para o Brexit é diminuir o numero de europeus e de imigrantes vivendo no Reino Unido...

3.
O Brexit tem dois argumentos populistas e conversadores: o que acabei de citar (a diminuição de estrangeiros no país) e a economia de 325 milhões de euros por semana, que é a quantia de dinheiro que, a cada sete dias, o Reino Unido repassa para a UE.
Os dois argumentos são falaciosos. Isso porque, de acordo com dados do Office for National Statistics (ONS) – o IBGE deles – há, entre os 63 milhões de habitantes do Reino Unido, 3 milhões de pessoas vindas de outros países da UE e 5 milhões de estrangeiros provenientes de outras nações. Não há como esses 3 milhões de europeus comprometerem o sistema previdenciário do país (alegação central do Brexit), mesmo porque 78% deles têm emprego – contra 74% dos cidadãos britânicos – e porque apenas 2,2% deles recebem seguro desemprego – contra, por exemplo, 7,7% das pessoas vindas do resto do mundo, que vão continuar existindo com ou sem Brexit.
Em relação aos 325 milhões de euros, o problema é que isso retorna para o Reino Unido em termos de políticas de proteção social de alto impacto, que vão da segurança alimentar ao programa aeroespacial europeu. É muito dinheiro apenas quando não se leva em conta esse ganho.

4.
Um efeito importante do Brexit se dá na correlação de forças entre os blocos políticos da UE. O “bloco liberal”, que era formado pela Grã-Bretanha, Holanda e República Tcheca, passa de 25% a 15% da população do continente, e isso prejudica indiretamente a Alemanha, que, embora não faça parte desse bloco se unia a ele com frequência para vetar decisões socialistas. Nessa situação, o diálogo França / Alemanha ganha contornos dramáticos, porque a Grã-Bretanha servia de contrapeso hora aos interesses de um ou de outro, conforme a questão. Sem ela, mudam as estratégias políticas e diplomáticas dos dois “grandes”.

5.
Quanto às conseqüências do Brexit para a vida quotidiana e para as finanças pessoais das pessoas, devem se produzir cenários de majoração no custo de vida. Para o homem comum europeu a consequência imediata é que os produtos britânicos se tornarão caros, porque serão tarifados à alta. O mesmo para o cidadão britânico.
A London School of Economics produziu alguns dados que indicam essa situação: se a saída da UE se faz com amplas negociações e a construção de acordos bilaterais – a melhor das hipóteses – a renda per capta do Reino Unido cairá 1,3%. No cenário pessimista – se não se fazem os acordos bilaterais – a renda per capta cairá para 2,6%.
Também deve rolar uma perda do poder de compra da libra esterlina. A LSofE estima que os 10% mais pobres perderão entre 1,7% e 3,6% de seu poder de compra no curto prazo e entre 5,7% e 12,5% no longo prazo. Para os 10% mais ricos essa perda pode chegar a 3,9% a curto prazo e a 13,4% a longo prazo.
O custo dos transportes devem subir até 7,5%, da alimentação até 5% e do vestuário até 4%. E tudo isso deverá produzir novos impactos negativos sobre a economia do pais: dos mercados financeiros à indústria.

6.
Com o Brexit todos perdem. Mas a racionalidade não explica o jogo político. Nem aqui no Brasil e nem por lá. Por lá, o Brexit se faz por causa da ideologia populista e nacionalista da direita irracional. Por aqui, o golpe e o desmonte do estado social que vinha sendo construído pelo PT também se faz com ideologia populista e com irracionalidade – mas sem nacionalismos...

Fábio Fonseca de Castro

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