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Alguns comentários sobre os resultados das eleições no Pará

Seguem alguns comentários sobre a conjuntura política paraense, após o 1o turno:

1. Primeiramente é preciso considerar que o espectro político no Pará, atualmente, é mais rude que o brasileiro, tem menos nuances: 

 • a extrema direita se funde à direita liberal tradicional; 

 • partidos que nacionalmente estariam no campo progressista se brutalizam e transformam-se em legendas capturadas pela direita e 

 • setores do campo da esquerda aderem a projetos políticos tradicionais e conservadores numa dinâmica de oportunismo eleitoral. 

1.1 Nesse sentido, conceitos como centro-direita e centro-esquerda são, na vivência política do Pará, na conjuntura, apenas elementos retóricos que não merecem ser considerados. 

 • A direita inclui o “centro”. 

 • O centro-esquerda - que no Brasil vira centro - no Pará se torna direita. 

 • E a esquerda assim resta, com ambiguidades e nuances, agenciada ora por nuances ideológicas, ora por compromissos históricos, ora por conveniências eleitorais. 

 1.2 Do meu ponto de vista, em consequência disso, dá para ver a política paraense como uma grande mancha turva conservadora-liberal e uma pequena mancha progressista, relativamente mais nítida em seu perfil partidário mas pouco perceptível à maioria da população. 

1.2 Por mancha turva conservadora-liberal compreendo a seguinte fusão de horizontes políticos: partidos, sindicatos e associações capturados por elites tradicionais conservadoras (MDB, por exemplo) ou liberais (PSDB e DEM, por exemplo), associados a blocos pontuais de poder, que capturam os demais partidos de direita (PSD, PL, PP, PV, PSC, PFL, Podemos, Patriotas, etc) e os demais partidos “de centro” (PSB, PDT, PTB). 

 • Em seu conjunto, essa mancha turva conservadora-liberal agencia uma imensa massa populacional com pouco acesso à informação e capacidade organizacional restringida, justamente, por esse agenciamento. 

1.3 Por pequena mancha progressista compreendo os blocos partidários que mantém, com maior ou menor esforço, uma coerência com a defesa dos trabalhadores e dos excluídos sociais e que, relaciono aqui a partir das legendas que obtiveram resultados mais expressivo no processo eleitoral estadual – PSOL, PT e PCdoB – embora haja outras. 

 2. O poder do bloco conservador-liberal. 

 • Seguindo essa equação, percebe-se a mesma tendência conservadora observada no cenário brasileiro e que mencionei em post anterior. 

2.1 Na mancha conservadora-liberal o MDB conquistou, nestas eleições, no Pará, as prefeituras de 52 municípios, PSD 18, PL 15, PSDB 13, PSC 5, PTB 5, DEM 4, Podemos e PSB 4, PDT 2 e Avante 1. 

2.2 Se olharmos para o eleitorado em termos de votos obtidos pelos partidos, a magnitude do campo conservador-liberal é igualmente impressionante: 1,3 milhão de votos no MDB; 460 mil para o PSD; 413 mil para o PL; 302 mil para o PSDB e198 mil para o Patriotas. 

2.3 Convertidos os dados eleitorais ao quantitativo geral da população paraense que será governada por cada partido – cabendo antes considerar que os resultados do 2o turno em Belém e Santarém alterarão, eventualmente, bastante desse quadro – podemos perceber que, considerando a gestão municipal, o MDB governará 37% dos paraenses, o PSD 12%, o PL 7% e o PSDB 7%, com várias outras legendas dividindo o restante. 

2.4 Em termos de ganhos e perdas de cabeças municipais vê-se um forte avanço do campo conservador-liberal: o MDB, que governava 41 municípios, passará a governar 58. Em termos de vereadores, tinha 204 e passará a ter 359. 

3. O poder do bloco progressista. 

 3.1 O No espectro da esquerda, o PT conquistou apenas duas prefeituras e teremos segundo turno em Belém e em Santarém, ambas com eleições polarizadas, como se sabe, entre o bloco conservador e o bloco progressista. Se PSOL e PT vencerem, o campo progressista terá outra dimensão – consideradas as populações e importância econômica dessas cidades. 

3.2 Os votos obtidos pelos partidos do bloco são expressivamente menor, em relação à mancha turva conservadora-liberal: 289 mil o PSOL; 182 mil o PT; 4.691 o PCdoB. 475.691 votos. Contra 2.7 milhões obtidos apenas pelos cinco maiores partidos do campo progressista. 

• Ou seja, para cada voto progressista há 4 votos conservadores-liberais. De imediato isso indica que a estratégia no campo progressista não deve ser, simplesmente, “vencer eleições”, mas sim se fazer presente no “mundo da vida” (o conceito é fenomenológico, mas minha análise é política). 

3.3 Em relação ao quantitativo geral da população paraense que será governada por cada partido, caberá ao PT, não considerando Santarém, governará apenas 1,11% dos paraenses. É tudo o que o campo progressista governará, a depender dos resultados do 2o turno em Belém e Santarém. 

3.4 Em termos de ganhos e perdas de cabeças municipais, o campo progressista perde bastante: o PT governava 7 municípios paraenses e passa a governar apenas 2 (3, caso Maria do Carmo vença em Santarém). Em termos de cadeira na vereança, o PT tinha 111 cadeiras e passou a 81. O PCdoB tinha 25 e passou a 10. O PSOL tinha 5 e passou a 6. 

• Compreendo o ímpeto defensivo de muitos colegas do campo progressista ao apresentarem dados que percebem proporcionalidades comparativas por meio das quais se pode relativizar fracassos e vitórias, mas meu caminho é realista e pragmático e meu lugar de inflexão (não de fala), é pensar sobre o caminho a tomar para, efetivamente, alcançar uma sociedade mais justa, democrática e socialista... 

4. Tomando por mostra os 10 maiores municípios paraenses (em população) – Belém, Ananindeua, Santarém, Marabá, Parauapebas, Castanhal, Abaetetuba, Cametá, Barcarena, Altamira, nessa ordem – vemos uma cena onde predomina o bloco conservador-liberal. 

• O MDB governará 4 desses municípios (Ananindeua, Parauapebas, Castanhal e Cametá) e terá o maior número de vereadores em 6 municípios (Belém, Ananindeua, Santarém, Marabá, Castanhal e Abaetetuba – percebam que, dentre eles, os quatro municípios mais populosos). 

• Outros 4 municípios serão governados pelo PSD (Marabá), PSDB (Abaetetuba), Barcarena (PL) e Altamira (PSD). 

• Resta o 2o turno a definir em Belém e Santarém, que, como disse, farão toda a diferença na cena estadual. 4.1 A totalidade das Câmaras municipais eleitas expressa a fragmentação do sistema partidário brasileiro e tem uma estrutura que pode ser compreendida em dois níveis: os partidos que possuem em 3 e 4 vereadores e os que possuem 1 ou 2. Claro que há os que elegeram mais de 4 vereadores, mas isso é raro. Considerando os 10 maiores municípios paraenses, o único caso é o MDB em Ananindeua, que elegeu 6 vereadores. Nos demais, o primeiro desses estratos costuma ter dois ou três partidos. 

• Na cena legislativa de Belém, o “primeiro estrato” é ocupado por 3 partidos: MDB, com 4 vereadores, PSOL 3 e Republicanos 3. O “segundo estrato” comporta 18 outros partidos, uns com 2 vereadores eleitos (PL, PSDB, Podemos, PSB, PT, Patriota e PROS) e outros com 1 vereador eleito (Cidadania, DEM, PTB, PSD, Avante, PSC, PTC, PCdoB, PP, Solidariedade, PDT). 

• A cena legislativa de Ananindeua tem um “primeiro estrato” litigante, com 6 MDB e 4 PSDB, num município em que o candidato do MDB foi consagrado por forte maioria dos votos e um “segundo estrato” partilhado entre dez partidos, uns com dois vereadores (PSB, Republicanos, PSC, Avante e PROS) e outros com um vereador (DEM, PV, PL, PDT e Podemos). 

• Em Santarém tem-se uma Câmara altamente conservadora, que garante a hegemonia de Nélio Aguiar (DEM), caso vença Maria, do PT, no 2o turno. No “primeiro estrato” o MDB tem 4 vereadores do MDB e o DEM possui 3. Já o “segundo estrato” reúne o PT, o PL e o PSC com 2 vereadores e dez outros partidos com um vereador (PSDB, PSD, PV, PSL, PSC, PT, PP, PSB, Avante e Republicanos) 

• Já em Marabá, Tião Miranda (PSD) governará com uma Câmara menos variada. No “primeiro estrato” há o MDB e o Solidariedade, cada um com 3 vereadores e, no “segundo estrato”, “apenas” sete partidos, cada um deles com um vereador (Cidadania, PSC, PT, DEM, PSDB, PL, PSL). 

 • Parauapebas terá, por sua vez, uma cena legislativa bastante alinhada ao bloco conservador-liberal. A imensa coligação que elegeu o gaúcho Darci Lermen (MDB), que, pateticamente, vai do PT ao DEM, dominará o município dando condições de governabilidade acima da média. O PROS, com 4 vereadores e o MDB, com 3, se unem ao “segundo estrato” mesclado ao primeiro que agrega PP e PDT (com 2 vereadores cada) e PSD, PT, PSB e Republicanos (com 1 vereador cada). 

 • Castanhal, velho reduto liberal, segue no mesmo rumo que Parauapebas, com um “primeiro estrato” formado por MDB e PSD, cada um com 3 vereadores e um “segundo estrato” composto por PDT, Cidadania, PSDB e PV ( 2 vereadores) e DEM, PL, PSC, PTB, PP e Republicanos (1 vereador cada) • Abaetetuba, que elegeu Francinete Carvalho, do PSDB, perfez um legislativo centrado nesse partido e no inimigo MDB (cada um com 3 vereadores). PL e PSD fizeram 1 vereador e PV, PDT, PT, PSOL e Republicanos fizeram, cada um 1 vereador. 

• Por sua vez, Cametá, onde Victor Cassiana (MDB) derrotou Cleidinho (PT) em tradicional reduto petista, viverá, como sempre, uma cena polarizada. O PT foi o partido que obteve mais votos, fazeno 3 vereadores – juntamente com PSC e MDB. No “segundo estrato”, PSDB fez 2 e PSB, Podemos e PCdoB fizeram um. 

• Barcarena, cidade complexa, elegeu Renato Ogawa, do PL, e fez do filho desse cidadão, Junior Ogawa, o candidato mais votado para a Câmara Municipal. O PL e o Avante fizeram 3 vereadores cada. No “segundo estrato”, MDB e PSC fizeram 2 veredores e Avante, MDB, PSC, Republicanos, Podemos, PTC, PSDB, PV fizeram apenas 1 vereador. Uma cena aparentemente fragmentada, mas que tende a se alinhar fortemente ao bloco conservador-liberal. 

• Por fim, em Altamira, conquistada pelo PSB de Altamiro Gomes, seu partido e o PTB terão 3 vereadores o “segundo estrato” agregará MDB, PL e PSD com 2 cadeiras e PSC, PSDB e Avante com uma. 5. Algumas observações ressonantes. 

• Os votos brancos e nulos crescem no Pará: 20,6% em 2004; 22,7% em 2008; 25,5% em 2012; 27,8% em 2016; 30,6% em 2020. Precisamos falar sobre Kelvin ou ao menos sobre isso. 

• Apenas 21,1% de mulheres governarão os municípios paraenses. Ridículo, por pouco, não? Como mudar isso? 

Prof. Fábio Fonseca de Castro, UFPA (Naea e Comunicação).

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