Ocorre que o tema do amor é tradicionalmente descrito como um mal – apesar de sua cantada simplicidade. Não chegaremos, metafísicos que somos, jamais, a Shakespeare, para quem o amor tem, sempre, um frescor juvenil de maneira alguma dramático – não obstante seu entorno se constituir, eventualmente, como uma situação problemática. Não chegaremos. Nossa metafísica decorre desse pensamento grego fundador, no qual o amor é um delírio, um tremor, um luxo. Dizendo de outra maneira, algo supérfluo. A receita do latino Lucrécio para curar os males do amor é bem conhecida: sangrar a úlcera amorosa, por dolorido que seja. Daí sua recomendação em procurar os cuidados de uma “Vênus vagabunda” para o fazer. Por tal entenda-se uma prostituto, é lógico. Ali, desde sempre, se encontrou o acosto do supérfluo na sua mais pura face. A máscara calçada pela prostituta é, toda ela, uma máscara supérflua, feita por atos, posturas, práticas, maquiagens e vestimentas que transpassam a normalidade humana. Ora, segundo Lucrécio, o ato sexual com a prostituta (leia-se, no mundo contemporâneo, com a amante casual ou com qualquer outra criatura que não seja aquela que recebe os melhores afetos do amador) é um ato dos mais razoáveis, porque retira do amante a circunstância da paixão, do desvairio, lançando-o de novo na normalidade da carne, que é, ela toda, o furor do presente, do real e, assim, do verdadeiro. Portanto, a verdade amorosa estaria nessa dimensão tangencial da carne, na fantasia da carne. No sangramente da úlcera amorosa. Na simetheia, que, em grego antigo, quer dizer “comércio amoroso”. A verdade da carne estaria no supérfluo da carne, que, paradoxalmente, consiste na carne propriamente dita, no corpo. Portanto, aprendemos, com os antigos gregos, que é preciso esquecer essas bobagens românticas que catalizaram a compreensão dezenoviana do ato amoroso. É preciso esquecê-las e superar, ao mesmo tempo, a crença platônica de que o amor é um privilégio dos espíritos elevados. A carne grita em todos os corpos, e não apenas de fome. O amor é um reflexo ejaculatório, necessariamente e o supérfluo amoroso é, necessaramente, um receptáculo gozoso.
O mundo está estarrecido com com o genocídio Yanomami. As imagens chocantes atravessam o planeta e atestam o que todos já sabiam: houve genocídio. E não há como Jair Bolsonaro não ser imputado por esse crime. Dados obtidos pela plataforma SUMAÚMA mostram que, durante o governo Bolsonaro, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% no território Yanomami. Foram 570 crianças mortas, em 4 anos, por doenças que têm tratamento. E isso pode não ser tudo, porque o conjunto das terras indígenas em território brasileiro sofreu, ainda de acordo com o Suamúma, um verdadeiro apagão estatístico durante o governo de extrema direita. O legado de Bolsonaro é um dos mais aviltantes da história do Brasil. Não é de hoje que as terras Yanomami, onde vivem quase 30 mil pessoas indígenas, são agredidas pela especulação do garimpo ilegal, da pecuária ou da cultura do arroz, mas nunca se viu um apoio tão grande do Estado brasileiro a essas atividades....
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