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Heranças à esquerda 2

1968 (1)

A última campanha presidencial da França dá exatamente o tom do que estou querendo dizer. Nicolas Sarkozy, o candidato da direita, anunciou, no início do pleito, que aquela seria a campanha da “grande ruptura”. Repetiu isso várias vezes ao longo da disputa, mas nunca revelava qual seria a tal “grande ruptura”. A resposta veio num de seus últimos comícios: a ruptura seria com “a herança de maio de 68”.

“Nesta eleição”, disse ele, “se trata de saber se a herança de maio de 68 deve ser perpetuada ou liquidada de uma vez por todas. Eu quero virar a página de maio de 68”. Mais tarde, esclareceu qual seria a culpa de maio de 68: ter imposto o “relativismo cultural e moral”, por meio do qual todas as coisas se equivalem.

A sugestão do Sr. Sarkozy, sub-reptícia, era de que a política da esquerda peca pela tolerância e pelo relativismo. Como se não fosse a própria dinâmica do capitalismo, por meio da qual tudo se compra e tudo se vende, que estaria na origem do “relativismo cultural e moral” de que ele fala.

Seus exemplos são todos rebatíveis. Num primeiro exemplo, disse que 68 “liquidou a escola de Jules Ferry” – o modelo de escola francesa, laica, universal e republicana. Isso não é verdade, porque se, de fato, a escola francesa se tornou, nas últimas décadas, um modelo de discriminação social, feita por segregação espacial, religiosa e cultural, isso foi herança, na verdade, da política de descentralização e de privatização da educação pública formulada pela aliança dos governos direitistas e socialistas.

Em outro exemplo afirmou que “68 introduziu o cinismo na sociedade e na política”. Como se a deriva do capitalismo financeiro, muito clara na França de Jacques Chirac, não tivesse gerado, incessantemente, escândalos bancários e patronais. Ademais, é preciso dizer que a política de François Mitterand – presidente socialista que, não por acaso, repudiou publicamente o movimento de maio de 68, também constituiu um exemplo traumatizante de cinismo na política.

A verdade é que o discurso pronunciado por Sarkozy, naquele 29 de abril de 2007, foi um espetacular golpe de marketing político. Ele ocorreu no contexto do crescimento da candidatura socialista de Ségolène Royal e teve o efeito imediato de reverter esse quadro. Explica-se: a candidata socialista vinha tendo, durante a campanha, um comportamento dúbio, marcado pelo desejo de agradar a gregos e a troianos. Essa estratégia se radicalizou quando, após o primeiro turno, ela recebeu o apoio de um dos candidatos derrotados, François Bayrou, expoente de uma direita gaulista não alinhada a Chirac e a Sarkozy. Então, marcar um posicionamento firme, denominando com clareza ao que se opunha (mesmo que essa fosse uma falsa oposição), teve o efeito de acentuar a volatilidade e, consequentemente, a falta de conteúdo e, em última instância, a fraqueza, de sua oponente.

A estratégia de marketing da campanha de Sarkozy esteve centrada em criar essa falso inimigo: a herança de maio de 68, para isso explorando a própria futilidade de uma esquerda que deixou de fazer a teoria da sua prática. Uma esquerda que perdeu seus referenciais e, portanto, a sua identidade de esquerda.

No entanto, podemos nos perguntar: que é essa herança, que Sarkozy atribui a maio de 68? Que tem ela a haver com a esquerda? Podemos e devemos reivindicá-la? E o que, dela, exatamente, devemos reivindicar?

Comentários

Anonymous disse…
Fábio,

Pegando carona em suas reflexões sobre as heranças à esquerda... Qual sua percepção sobre o conceito de relativismo? Este não lhe parece, hoje em dia, um conceito polissêmico demais!!?

Tenho trabalhado a algum tempo em torno desse tema... Não sei, mas, tenho dificuldade em concordar com alguns críticos de esquerda que me parecem confundir a instrumentalização de determinados conceitos (como sustentabilidade, democracia, relativismo) com seu sentido original e mais profícuo...

A crítica que a direita francesa direciona à maio de 68, também toma eco (por outros motivos é claro), na esquerda... No Brasil, esse debate parece ter se cristalizado com uma certa polaridade em torno do conceito de pós-modernidade; entendida por boa parte da esquerda tradicional como sinônimo de relativismo cultural, ou como uma espécie de forma ideológica contemporânea que sustenta movimentos em prol da globalização e dos interesses de mercado... O que seria, para mim, tomar o conceito por seu uso!! O que é perigoso também!!

O problema, é que por esse mesmo raciocínio, muitos passaram a recuperar como legítimas estratégias lininistas de captura do Estado, rechaçando os valores democráticos mais fundamentais da esquerda (tomando-os como sinônimo de relativismo, globalização ou "papo de igreja", ética udnista, etc..). É assim que tenho lido os últimos acontecimentos que tem virado moda na política brasileira em suas mais diferentes escalas... O que tu achas??

Abs.
Danilo

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