22 agosto 2009

Heranças à esquerda 12

O marxismo soviético: O substitucionismo, herança fatal

Com o fracasso da NEP, reforçou-se novamente a pulsão centralizadora, travestida, agora, pela doutrina do “substitucionismo”.

Para o marxismo clássico o estado é, simplesmente, um organismo para exercer o controle e a dominação, um comitê gestor dos interesses “burgueses”. Em escala histórica, com a supressão da propriedade privada e da exploração do trabalho, o estado se tornaria, simplesmente, desnecessário.

Ora, a experiência histórica bolchevique demonstrou que isso era impossível. Para além da experiência russa, Rudolf Bahro, numa abalizada crítica do marxismo clássico, destaca a “função civilizadora desempenhada pelo estado em toda a história da humanidade”.

Não obstante o acerto de Bahro a esse respeito, a decisão dos bolcheviques em manterem o estado não se deveu a um arroubo civilizatório, mas à premente necessidade de defender e reconstruir o país, devastado pela revolução, pela guerra civil e pela guerra européia, tudo ao mesmo tempo.

Em “O Estado e a Revolução” Lênin teoriza sobre essa superação do marxismo clássico. Diante da ausência de uma cumulação “burguesa”, se faz necessário instaurar um estado capaz de liderar a economia e a cultura para, aceleradamente, construir a base material necessária ao socialismo. Esse processo ficou conhecido como a ditadura do proletariado.

Porém, aqui surge uma questão fundamental, com a qual os bolcheviques se depararam tão logo tomaram o poder: a quem caberia exercer essa liderança?, a quem caberia exercer o poder? A princípio, os sovietes, ou seja, a classe operária, através de um processo de auto-organização. Mas o que eram, nesse momento os sovietes? O escasso parque industrial estava em ruínas e, além disso, parte importante da classe operária foram consumida na guerra. Que fazer? Transferir o poder aos camponeses – ao contrário do operariado, totalmente despolitizado?

A solução de Lênin, na época compartilhada por Trotsky, foi a de transferir o poder para o partido. Essa decisão ficou conhecida como a tese do substitucionismo, a qual tornou-se uma doutrina que regeu o estado soviético em toda a sua história. Seu princípio básico é o de que o partido fora investido, pela situação histórica, do direito de substituir, no controle do poder e nas decisões de estado, a classe trabalhadora.

O substitucionismo levará ao aniquilamento do estado soviético 70 anos mais tarde. Não sem antes ser consolidado ao nível máximo da neurose através da ditadura de Stalin.

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