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A crise não foi para todos os bolsos

Segue o artigo que publiquei sábado passado no Diário do Pará. Fala sobre as diferentes perspectivas tidas sobre a crise econômica.

A crise não foi para todos os bolsos

Fábio Fonseca de Castro

A revista Forbes publicou, na mesma semana em que a crise econômica completou um ano, a relação dos bilionários do planeta. Não foi de propósito, mas podemos tirar conclusões interessantes se compararmos com a lista dos bilionários de 2008. Por exemplo: Em 2008 havia 1.125 bilionários no planeta. Este ano eles foram, apenas, 793. O que explica o fato de que 332 pessoas deixaram de possuir, na sua riqueza pessoal, mais do que 1 bilhão de dólares? A crise.

332 pessoas. Um drama que foi acentuado na Rússia. Se compararmos a relação da Forbes nos dois anos perceberemos que a Rússia perdeu 2/3 dos seus bilionários. Se lemos a lista levando em conta os “dramas” pessoais envolvidos, sempre comparando as listas, percebemos que Lakshimi Mittal, nascido na Índia mas cidadão inglês, aliás, “rei do aço” nesse país, perdeu 61% da sua fortuna, o infeliz. Embora mesmo assim continue sendo o homem mais rico do país, com os 12 bilhões de libras que lhe sobraram, algo como 35 bilhões de reais.

O segundo homem mais rico da Inglaterra, o russo Roman Abramovitch – aliás, dono do Chelsea - perdeu, sozinho, o equivalente a 15,5 bilhões de reais. O terceiro bilionário inglês em ordem de grandeza, que porta o título de duque de Westmister, só perdeu 7% do seu patrimônio, algo como 1,5 bilhão de reais. E quanto à rainha, bom, ela também amargou uma perda, mas nem merece ser considerada, porque seu patrimônio total é de, apenas, 375 milhões de libras (cerca de 1,1 bilhão de reais), o que a coloca na humilhante posição de 250ª mulher mais rica da Grã-Bretanha.

As vinte famílias alemãs mais ricas perderam, juntas, 20 bilhões de euros. Os 300 suíços mais aquinhoados perderam 40 bilhões. Na França, alguns cidadãos tiveram que ver seus salários diminuídos. O pobre Baudouin Prot, presidente do banco BNP-Paribas, teve uma baixa de 70% em seu salário e passou a ganhar somente 78.819,41 euros por mês (uns 208 mil reais).

O mercado mundial de luxo, que movimenta anualmente cerca de 180 bilhões de euros, teve uma diminuição de 7% entre 2008 e 2009. Muito pouco, o que quer dizer que, apesar de tudo, os pobres bilionários do planeta ainda ficaram com um pouco de manteiga para barrar ao pão. Ainda bem – para eles – porque o preço do caviar teve uma alta, no último ano, de 233%, segundo a empresa Stonehage, que aceita atender, apenas, aos 1.101 mais ricos do mundo. Para melhor dizer a essa gente quanto vale o dinheiro delas, essa empresa criou um incide verdadeiramente infame: o índice SALLI, que quer dizer Stonehage Affluent Luxury Living Index. Um índice que mede a flutuação dos preços de coisas como uma Ferrari, uma garrafa de não-sei-quê ou um par de sapatos não-sei-lá.

De tudo isso se deduz o seguinte: o que toda essa gente perdeu não inviabiliza sua riqueza. E quanto a você? Quanto perdeu com a crise? Eu sei quanto perdi, centavo a centavo, porque fiz uma aplicação num fundo de ações três meses antes da crise começar. Perdi 55% do que investi e ainda não recuperei. Podem rir. Não era muito, de qualquer forma, e não inviabiliza minha colocação na gloriosa classe média paraense. Mas é uma perda.

Agora imagine quanto perdeu um indivíduo que, não fazendo parte da lista da Forbes e nem, tampouco, tendo sua posição garantida na gloriosa classe média paraense, perdeu não o seu investimento, mas o seu emprego. Não a sua poupança, mas a sua subsistência.

A economia tem razões, como se sabe, que a própria razão desconhece. Agora me diga: por meio de que cálculo você avalia a crise? Imagine você que há gente que a avalia por meio do tal índice SALLI. E que há gente que, simplesmente, não a avalia, pela simples razão de que, mesmo havendo perdido o emprego – e a subsistência – não “compreende” que a crise é algo que começou, digamos assim, há um ano apenas.

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