09 outubro 2009

As visagens da direita 1

A entrevista do Puty


A entrevista do chefe da Casa Civil do governo do Pará, Cláudio Puty, à jornalista Ana Célia Pinheiro, veiculada ontem no blog “A Perereca da Vizinha” mostra, principalmente, a distância ideológica entre uma representação elitista da política e uma representação que se pretende mais democrática. O problema não é a jornalista, mas o imaginário que ela reporta, com sua carga ideológica e, deve-se dizer, preconceituosa.
Essa carga está presente tanto numa elite, acostumada a ter na política (e no Estado) uma ferramenta para o benefício próprio, como em amplos setores da classe média, que não se beneficiam diretamente com essas ferramentas mas que, na ausência de todo espírito crítico, reproduzem o mesmo imaginário.
Um imaginário pobre de espírito e inculto, que se move com os signos do mesquinho, do ressentido e do rasteiro. Se decompormos a entrevista do Puty vamos ver que toda ela girou em torno de mitos: Como sempre, faltou o questionamento propositivo. Tudo girou em torno do boato, da tentativa de corroborar o imaginário constituído. Em vez de esclarecer, mais sombras. Como se o papel da imprensa fosse alimentar o disse-me-disse, requentar as sobras.
Podemos até fazer uma lista desses mitos, que as elites do Pará, muitas vezes com seus veículos de comunicação, mascam que nem goma e depois repassam para seus súditos continuarem a mascar (e assim passam a vida toda). Por exemplo, um mito sobre a DS e sua influência no governo, outro sobre o centrismo e o autoritarismo do secretário e outros ainda: expurgos, arrivismo petista, manipulação, ausência de obras, etc.
E estou usando a palavra mito não no sentido de “inverdade”, mas no seu sentido correto, que é o de mitificação, ou seja, ideologização de processos naturais do poder,  esteja ele em sua forma política, econômica, cultural, etc.
Na verdade, a repetição, pela entrevistadora, de termos próprios ao derrisório stalinista (Rasputin eu nunca tinha ouvido; foi ótimo), pareciam enunciar um desejo de corroborar esse imaginário. Talvez, um fervor místico, ou talvez um frenesi... político. Mas outra vez repito: a voz que entrevistava Cláudio Puty não era a voz da jornalista: era uma voz coletiva, a voz que teme o poder das esquerdas, das massas, do esclarecimento, das políticas sociais, da justiça social. A oração que as direitas sempre rezam, às suas visagens, sempre mistificam a própria assombração.
Vou fazer o seguinte: vou falar aqui sobre cada um desses mitos, presentes na entrevista que Puty deu à Ana Célia, tentando esclarecer um pouco da irracionalidade que neles está presente. Vamos aos poucos, um ou dois desses mitos por dia.

8 comentários:

Anonymous disse...

Fábio, a imprensa, especialmente a local, não está mesmo acostumada a abrir grandes debates de idéias. Fica na superfície, que tem lá suas funções, mas não deve ser tida como última instância. Puty já demonstrou que é qualificado para isso e a jornalista, que até teria fôlego pra isso, poderia ter aproveitado o feito inédito. Sim, porque Puty ainda se põe pouco acessível aos "coleguinhas". Não deveria ser assim, primeiro porque é um "homem público", depois porque tem capacidade para dar conta do recado, mesmo que com pequenos "ajustes".
O mundo virtual ocupa esta lacuna que a imprensa tradicional deixa. Que bom que você aproveita este espaço e nos brinda com suas análises.

Anonymous disse...

Legal, mas será que o teu PT e o governo da Ana Júlia também não seus mitos?

Anonymous disse...

Excelente análise Fábio!! Nos resta avaliar agora quais das "mitificações" (como vc diz:"ideologiazação dos processos naturais do poder") são justas e quais não os são!? Ou seja, quais "usos" ideológicos se fundamentam apenas em preconceitos e na visão conservadora de nossas elites, e quais apresentam componentes de "verdade" que de alguma forma justificam uma crítica honesta e justa sobre um processo de instrumentalização excessiva e banal das instâncias políticas com o foco em um horizonte de poder imediato, e que, por isso, se justifique mesmo que esse sentido "superior" não seja exatamente a intenção de quem se utiliza corriqueiramente destas armas??. Acredito que uma diferença e, ao mesmo tempo uma sobreposição, exista entre estes dois sentidos da construção dos discursos ideológicos conservadores a que vc se refere.
Nos interessa, no entanto, enquanto "homens críticos", creio eu, a separação clara destes dois componentes; o que só pode ser feito, a meu ver, a partir de uma análise fria e honesta destes discursos (como acredito ser sua intenção)!! O receio que tenho quando se trata de análise de ideologias, no entanto, é o de incorrer no erro de "mitificar" a "mitificação" que se apresenta enquanto crítica, encobrindo o que de "fogo" possa existir por detrás da fumaça ideológica conservadora que nos cerca!!?? Creio que a instrumentalização excessiva deste debate é algo que devemos combater também enquanto defensores ardorosos e irrestritos da ampliação dos espaços da "esfera pública" em nossa sociedade....
Aguardo com expectativa as próximas postagens sobre as "mitificações" "uma a uma".... Parabéns mais uma vez pela análise!!
Abs.
Danilo

Anonymous disse...

Olá Fabio,
Parabéns por mais este texto. O Cláudio Puty tem sorte de ter um amigo como você. E todos nós temos sorte de podermos ler o seu blog.
Márcia Leite

Anonymous disse...

Análise muito interessante, mas ao se referir a mitificações e símbolos, me parece que são elementos inevitáveis e que sempre interessarão à uma mídia rasteira, que se retroalimenta de (des)informações curtas, repleta de frases feitas, com o intuito de causar impacto, mecanismo usual , para chegar à massa- e garantir rentabilidade. Sim, concordo que a repórter perdeu uma grande oportunidade de se diferenciar (até pelo espaço que ela dispõe), de fazer não apenas mais uma entrevista, mas suscitar um debate profundo, inclusive do ponto de vista ideológico, onde o PT e o governo expõe de maneira mais evidente suas fragilidades. Do lado do Puty, os recados foram dados, a aliança com o PMDB, parece apenas questão de repactuação, mas quanto à afirmativa de que é para o bem do Pará (?) e de que o eleitor do PT votará em Jader Barbalho (?) Me parece que de fato e do ponto de vista do jogo político é o mais sensato, i.é, único antídoto contra o veneno Psdbem, mas quão amargo, e a que preço? Aguardo para ver como será negociar com a militância petista a necessidade de engolir este sapo, principalmente depois da desastrosa particiapação do PMDB na gestão petista e o efeito Sarney. Uma sinuca de bico que Puty parece estar administrando com muita habilidade e sobriedade,mas daí chamá-lo de Rasputin(?!?) Só mesmo uma percepção míope e tacanha pra parir uma idiotice dessas.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Oi Danilo,
Dizer quais delas são justas e quais não o são gera um grande problema, porque atribuir o valor do justo, em se tratando do fato político, gera sempre uma contradição que desmente esse valor. Em outras palavras: não vá você, caro Danilo, me meter numa sinuca de bico... Atenhamo-nos ao fato e deixemos que os demais avaliem se justos ou não são esses mitos. Por parte das elites, não teremos nenhuma avaliação, porque elas não tem instrumentos para isso. Seremos xingado e enxovalhados, mas é só. Mergulharemos ou não no vazio e no silêncio deles. Nossa elite não tem pensadores, quando muito, são sujeitos setorizados em suas áreas. Antes havia, e dos grandes, como Octávio Mendonça, Orlando Bittar e outros, mas a geração deles morreu e não deixou herdeiros. Então, Danilo, façamos a nossa análise fria e honesta, como você propõe. Inclusive de nossa própria análise.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Anônimo das 10:50,
Concordo quando vc diz que, do lado do Puty, as mensagens foram passadas. E também acho que a habilidade dele vai ser colocada à prova, na verdade, nessa grande tarefa, que vai ser dialogar com a militância (e não, necessariamente, com o PT ou o governo) a respeito da aliança com o PMDB.
Por outro lado, também acho que mitificações e símbolos são inevitáveis e que eles sempre estarão presentes nos discursos midiáticos e em todos os outros. Inclusive nos discursos de esclarecimento, de ponderação, de racionalização e de objetivação. Qualquer coisa que eu mesmo venha a falar aqui, sobre isso, será, necessariamente, assombrado pelos fantasmas que a "esquerda" vê na direita. Porém, isso não nos impede de procurar um ponto de equilíbrio.

Fabio Fonseca de Castro disse...

Não, não deixaram, produziram pouquíssimo. Porém, foram pessoas com grande capital social e cultural, e suas posições foram reconhecidas, socialmente, ajudando a formar um núcleo passivo de pensamento.