Dois episódios chocantes pelo preconceito na última semana: a fala de Caetano Veloso sobre o Lula e a expulsão da aluna da Uniban por “postura indecorosa”. Somente uma sucessão de qualificativos podem descrever esses casos: preconceito, racismo, arrogância, ignorância, desrespeito. A eles acrescente-se, embora seja um caso menos chocante, o artigo do FHC, publicado na Folha de São Paulo. Menos chocante, bem entendido, porque dele já se esperava isso.
A fala de Caetano foi de uma grosseria inesperada. Não se chama ninguém de analfabeto, nem em público e nem em privado. Fazer isso é um desrespeito absurdo, para dizer o mínimo. Porque mais do que um absurdo, é uma canalhice. As condições sociais que levam alguém a ter menos estudos do que seria o desejável, para o senso comum, são condições sociais que estão, necessariamente, acima das pessoas. Há coisas que não se faz. E que, se foram feitas, não são explicáveis.
O que está ao fundo dessa fala do Caetano Veloso é o mesmo rancor das elites que não admitem que o país seja governado por um operário. E, o que é pior: que o país esteja sendo bem governado. A fala de CV traduz esse preconceito com toda a sua arrogância, com a mesma violência simbólica que só podia ter surgido numa sociedade violenta como a brasileira, com a mesma violência simbólica que resulta da escravidão e que não será resolvida, jamais, por ninguém, ou nenhum partido, que governe com o ponto de vista dessas elites.
Nelas, a ignorância é um estigma. O racismo é um atavisto. Não há chance, infelizmente, e é preciso lembrar que a essência do Brasil é, exatamente, o oposto daquela sociologia mítica e deslumbrada que apostava num povo mestiço, amoroso e cordial como a base de uma “civilização”. Crença tropicalista ingênua. Tecida para perpetuar a reprodução do sistema social brasileiro tal como ele de fato é: preconceituoso, racista, arrogante, ignorante e desrespeitoso.
Caetano Veloso traduz essa violência simbólica. Justo dizer que ele é a alma do Brasil.
Comentários
sou fã de Caetano há muitíssimos anos, fiquei estarrecida, mas o próprio Lula respondeu com a inteligência que o faz ser o que é, sem precisar de canudo algum: "é duro para as elites assistirem um operário que só tem o primário receber prêmios, que os intelectuais, por burrice (e, acrescento: por serem subalternos) nem sonharam sequer em conquistar".
Um forte abraço,
Valéria Nascimento.
Caetano é "neguinha"
SÃO PAULO - "Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro." Diante da ira que provocou nos companheiros, Caetano Veloso voltou ontem às páginas de "O Estado de S. Paulo" para comentar esse trecho da entrevista que havia concedido.
O compositor lembrou que o próprio Lula se vangloria da sua fala pouco instruída e que é forte inclusive por isso. E avisou aos petistas: "Dizer que FH era mau governante e Lula é bom é maluquice. Ambos foram conquistas brasileiras importantes. Marina seria um passo à frente". Sobre esse último ponto, podemos brincar: "menas, menas".
De resto, os embates entre Caetano e a esquerda remontam aos anos febris do tropicalismo. É duvidoso que o lulismo seja de esquerda, mas Caetano, de novo, se põe à esquerda da esquerda, dando mais um nó no coro dos "progressistas": "Detesto essa mania de que nada se pode dizer que não seja adulação a Lula".
Quem teve a felicidade de ver seu show no fim de semana pôde presenciar a homenagem a Neguinho do Samba, negro semianalfabeto, um dos fundadores do Olodum na Bahia, morto há poucos dias: "Influenciou mais a mim e provavelmente a vocês da plateia do que a obra inteira de Lévi-Strauss. Isso é o que eu teria a dizer aqui sobre analfabetismo e preconceito".
O ápice, porém, foi a interpretação de "Eu Sou Neguinha?" -acompanhada no palco por uma gestualidade que valorizava de maneira ostensiva e lúdica a interrogação sobre a identidade sexual do cantor.
Caetano é um dos maiores artistas brasileiros -isso já é sabido. Mas é também um espírito livre e um intelectual incomum num sentido muito preciso (e talvez o único verdadeiramente precioso): sempre está no debate público de sua época sem subordinar convicções e ideias a cálculos táticos ou conveniências políticas. Ousar pensar pela própria cabeça, sem a tutela do grupo ou medo da patrulha da maioria: por que não? Por que não?