31 março 2010

Heranças à Esquerda 29

O marxismo ocidental 12: Pierre Bourdieu 2



Bourdieu oferece soluções para o problema do conflito social. Em Marx, como se sabe, o conflito social é um conflito de classes. Em Bourdieu é um conflito da prática. Qual a diferença? A seguinte: não apenas Bourdieu, mas a longa tradição do marxismo ocidental critica dois aspectos centrais da teoria marxista: seu determinismo inerente e a generalização da luta de classes como o mecanismo essencial de todo conflito social. Pode-se, com efeito, questionar a obra de Bourdieu em relação a seu desligamento quanto à dimensão determinista do marxismo; porém, os avanços que ele faz em relação ao problema do conflito social são marcantes. 

Diz Bourdieu que, para construir uma teoria do espaço social é necessário romper com quatro aspectos da teoria marxista. 

Em primeiro lugar, romper com a tendência de privilegiar as substâncias, o que equivale a romper com a idéia de que é possível definir nome, limites e membros do grupo social. Isso significa superar a metafísica marxista que, na verdade, está na mente do observador, do cientista, do crítico social, do militante, e não na vida prática. 

Em seguida, romper com a ilusão intelectualista que nos leva a considerar que a “classe”, ou seja, a classificação teórica adotada pelo sábio de esquerda, é uma classe real, um grupo efetivamente mobilizado. 

Em terceiro, a romper com o economicismo, que reduz o campo social ao campo econômico, ignorando as demais formas de capital que existem na sociedade, notadamente o capital social, o capital simbólico, o capital político, o capital cultural. 

Porfim, a romper com o objetivismo, também ele uma forma de intelectualismo, que ignora ou desvaloriza o papel das lutas simbólicas que se dão no corpo social. 

Promovidas essas superações, o espaço social pode ser compreendido como algo que tem muita dimensões, construídas, cada uma delas, por diferentes princípios de diferenciação. Dessa maneira, a posição que os diversos agentes sociais ocupam na vida prática, não pode ser reduzida a uma posição “de classe”, devendo ser observada em seus aspectos multirelacionais. Isso significa dizer que seria um simplismo inócuo reduzir a posição social de alguém à sua condição econômica, ignorando as demais formas, volumes e trajetórias do capital que envolvem aquela pessoa. 

Com isso, Bourdieu quer dizer que o real é também simbólico e que o simbólico é também real. Há dinâmicas de dominação que envolvem os que tem muito capital econômico e o sentido de, por exemplo, “ser patrão”, pode ser algo com bastante valor para uma pessoa, um produtor rural, por exemplo, que possua meios de produção modestos mas que assim seja considerado, num determinado contexto social. 

No marxismo ortodoxo e na maior parte do marxismo-leninismo prevalece a percepção de que há uma espécie de passagem de uma classe-em-si para uma espécie de classe-para-si, algo como uma promoção ontológica que dispõe que o proletariado possui uma existência real, objetiva, em-si, que, maturada pelo processo social, acabaria tomando consciência de sua materialidade objetiva e, por conta disso, acabaria se valorizando subjetivamente (o para-si da consciência), condição para a luta de classes. 

Ora, o que Bourdieu mostra – e a experiência histórica demonstra (veja-se por exemplo, o estranho fato de a primeira revolução ter-se dado num país periférico) - é que esse processo é, de fato, uma interpretação intelectualista da realidade social. 

O pensamento de Bourdieu é uma herança multidimensional à esquerda.

Veja aqui o texto anterior sobre Bourdieu.
E aqui e aqui os slidshares com as aulas do curso sobre Bourdieu que estou dando na UFPA.

7 comentários:

Anonymous disse...

Isso não pode ser chamado de marxismo... a impressão que tenho quando leio esses teóricos "de esquerda" é que eles teorizam pra justificar sua adaptação à sociedade capitalista, já que estão muito bem confortáveis em suas posições de "intelectuais", com apartamentos em bairros de classe média e enchendo a cara de whisky. Vá pegar numa enxada e fazer concreto e vc verá o que é uma "ilusão intelectualista"...

Anonymous disse...

Discordo do Anônimo das 11:12, porque há uma grande variação em relação às condições de produção existentes. Marx se referia a condições de classe que em geral não estão presentes no Brasil. Aliás, essas condições também não estavam presentes na Rússia, quando a Rússia fez a revolução, é isso que o Fábio aborda no final do artigo. Nem na Rússia e nem em outros países europeus, inclusive a Itália e a Dinamarca, por exemplo. Apesar desses países possuírem um processo de industrialização relativa, se tratava de uma industrialização desigual, que não chegava a conformar um proletariado capaz de "fazer a revolução". A análise de Marx não leva em conta essas diferenças locais, apenas generaliza, e é isso que Bourdieu disse, entendeu?

Ana Elisa Torres disse...

Eu também discordo do Anônimo das 11h12. Quem conhece Bourdieu sabe que ele não era um intelectual desse tipo que você descreve no seu comentário. Era um pesquisador sério e engajado. Seu esforço de compreensão do mundo foi muito grande e todos nós que, como o professor Fábio diz, temos heranças a esquerda a receber ou a transmitir deveríamos nos esforçar para também superar, como Bourdieu fez, os lugares comuns de uma militância que parou de ler, de estudar e de debater.
Ana Elisa.

Anonymous disse...

O problema de vocês intelectuais é que ficam isolados nas suas bibliotecas e não descem para ver o mundo. A realidade está correndo por fora, minha gente! Você, Fábio Castro, é um exemplo. Vá entender isso que você escreveu sobre o tal Bourdieu. Seu blog seria mais lido e teria mais audiência se você estivesse dando noticias sobre o governo ou falando coisas que as pessoas querem ouvir. Então, eu te pergunto: de que vale ser intelectual?

Fabio Fonseca de Castro disse...

Anônimo das 11h34...

UAU! Que cabeça maluca você tem! Em primeiro lugar, o meu trabalho tem uma linha teórica sim, o que é necessário para a ciência social e legítimo.

Em segundo lugar, essa linha teórica vai à campo, ou seja, resulta em pesquisa empírica, em coleta de dados, entrevistas, análise cooperativa, observação participante... Basta ler meus trabalhos para ver isso, é evidente.

Em terceiro lugar, não faço um blog para ter audiência... Que absurdo! Quer é ter qualidade de audiência! O meu lengh, ou seja, o tempo que as pessoas ficam lendo cada página do Hupomnemata é superior a 5 minutos. Isso é muito, basta ler qualquer análise sobre cultura digital para saber. E isso demonstra qualidade de leitura e de leitores. Estou satisfeitíssimo, portanto.

Em síntese, você também está cheio de preconceitos quanto a isso que vc chama de "ser intelectual". Tenho percebido o quanto há, em Belém, erro e ressentimento quanto a isso.

Você que diz que eu sou um "intelectual". Eu, se eu usar essa palavra, é para referir a maneira como eu trabalho e me sustento, com muita dignidade e muita honestidade.

Ah, e vá lamber sabão. Será mais instrutivo para você e, quem sabe, minora seu ressentimento.

Anonymous disse...

Parece-me que o 11:12 e o 11:35 é a mesma pessoal, o Equivocado. O Equivocado precisa de leitura de mundo, leitura de livros, para poder entender que ele também é resultado dessa falta de leitura. Infelizmente. Ele é o que chamamos de fruto da política do PSDM, DEM e outras direitas. O problema é que pela falta dessa leitura ele não enxerga. Que pena! Mas o problema maior é que essa massa que faz hoje a esquerda no Brasil é igualzinha a ele. Até andam para a frente, mas numa lentidão... Falta massa crítica, mas principalmente discernimento. Esse discernimento está retratado no nosso governo de esquerda aqui no Pará. Graças a Deus o Federal consegui escapar disso.
Luíza.

Regina Cunha disse...

Muito interessante a análise, professor. Obrigado por compartilhar seu conhecimento conosco.