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Uma nota de leitura sobre Michel Foucault

Via site Trezentos, a seguinte nota, de Marcio L. M., sobre as publicações de Michel Foucault:

Em 1994, dez anos após a morte do escritor francês Michel Foucault (1926-1984), a editoraGallimard lançou uma coletânea de quatro volumes intitulada Dits et Écrits. Os volumes compilam gigantesco material bibliográfico, recolhido por interlocutores próximos ao filósofo (Daniel Defert, Jacques Lagrange e François Ewald) e cuidadosamente editado. 
Os textos compreendem artigos, manifestos, conferências e entrevistas televisivas ou radiofônicas, realizados entre 1954 (ano da publicação dos primeiros textos) e 1984. Eles compoem com os livros já publicados um rico material de pesquisa, importante para diversas “áreas” (filosofia, economia, história, medicina, biologia, demografia, ciências humanas, etc.). Material cujos resultados e efeitos ainda não foram inteiramente discutidos. 
Ewald, Defert e Lagrange manifestam os critérios editorais em uma pequena apresentação. Primeiramente, respeitando o testamento do autor, desconsideraram publicações póstumas (exceto as em curso no momento do falecimento, publicadas entre 1985 e 1988). Em segundo, descartaram os cursos apresentados no Collège de France, bem como entrevistas ou transcrições não revisadas e petições assinadas. Por último, o critério absoluto foi “intervenção mínima”, sem “ordenação por gênero ou tema”. Admitindo porém que no limite as intervenções são inevitáveis, os editores pretenderam oferecer ao público uma edição de referência, agrupando textos difíceis de encontrar de outro modo. 
Em 2001, a Gallimard condensou os quatro volumes em dois (coleção “Quarto Gallimard“). E desde o fim dos anos 90 a Forense Universitária tomou a iniciativa da edição brasileira. Apesar do empenho da organização e dos tradutores, ela não agrupou a totalidade da edição francesa, vertendo-a em cinco volumes temáticos. E os dois volumes da Gallimard, importados, custam menos do que os cinco da Forense Universitária. 
Desde então, diversos cursos inéditos no Collège de France foram também publicados em edições separadas. Em 2008, a editora Vrin publicou a igualmente inédita Tese Complementar, defendida em 1961 com História da Loucura (a tese principal, na época intitulada Folie et Déraison). A tese complementar consiste numa tradução ao francês daAntropologia de um ponto de vista pragmático, de Immanuel Kant, precedida de uma longa Introdução à Antropologia de Kant, com 128 páginas (no original). 
Daniel Defert, François Ewald e Frédéric Gros, os organizadores da edição da Tese Complementar, manifestam primeiramente que o documento original da Tese é público. Portanto, embora Foucault não tenha publicado a Introdução à Antropologia em vida (apenas a tradução saiu pela Vrin, em 1964), essa publicação posterior não contraria o testamento do autor (evitar “publicações póstumas”). E os editores acrescentam: trata-se de uma edição também “de referência”, pois “os erros de datilografia, as obscuridades ligadas à reprodução de correções manuscritas de Foucault induziram a numerosas confusões indefinidamente repercutidas”. Ou em outras palavras, organizou-se uma edição de referência para que o conteúdo da Tese, já muito pesquisada, não se altere com cada difusor. 
Nesse último caso, sabe-se que algumas edições “apócrifas” da Tese Complementar já circulavam na internet anteriormente ao livro impresso. Seria a publicação pela Vrin uma tentativa de conter tais versões “apócrifas”? Uma versão difundida, anteriormente divulgada no site oestrangeiro.net, após a revisão de Colin Gordon serviu de base tanto para a versão de Clare O´Farrell (do staff da revista Foucault Studies e do site michel-foucault.com) quanto para a tradução à língua inglesa por Arianna Bove. A tradução em inglês saiu pela Semiotexte por Robert Nigro, gerando discussão sobre possíveis influências do trabalho de Bove, convidada inicialmente para esse trabalho. Mesmo assim, outras transcrições também circulavam pela Rede (destacando a obtida por Osmyr Gabbi Jr., da Unicamp). 
Algumas das igualmente “edições de referência” dos cursos no Collège de France também saíram, por acaso ou não, junto com a divulgação de gravações de alguns cursos. Diversos arquivos em mp3 dos cursos circulam na internet, em programas de p2p (peer to peer), até mesmo desde antes da publicação dos impressos. 
Isso sem contar outras difusões de áudio e vídeo, mais ou menos inéditas. Em 2003 Philippe Calderon e François Ewald lançaram o documentário Michel Foucault par lui même (jádifundido), reunindo diversas imagens e comentários. Um outro documentário recentemente divulgado é uma entrevista realizada em 1966, Michel Foucault à propos du livre “Les mots et les choses”. Esse “inédito” se reune com alguns outros vídeos não conhecidos pelo público maior, dentre eles um vídeo sobre Bachelard e outra entrevista de 1965 recentemente difundida, Philosophie et Psychologie. 
Em áudio, Le corps, lieu d´utopies, uma conferência dada em 1966 ( parcialmente traduzida por Marcelo Coelho), trata da questão dos usos possíveis do corpo. Autoportrait, de 1971, é uma entrevista concedida à Radio Canada. A propose de Histoire de la Folie e Raymond Roussel, Écrivain, são outros arquivos em áudio que circulam nas redes informais de p2p. 
Isso para citar alguns arquivos. Esses ditos relativamente “inéditos”, porém igualmente públicos, são entrevistas ou falas públicas de Foucault, não comprometendo as prescrições do testamento da mesma forma que a difusão da Tese Complementar. Muito desse material público pode ainda aparecer, basta aguardar. 
Que novidades podem trazer essas novas mídias, em relação ao material já publicado? À primeira vista, parte desse material consiste em entrevistas já editadas e publicadas nos Ditos e Escritos. Mas nem tudo. E mesmo quanto ao material já publicado e editado, são notáveis em alguns momentos as diferenças entre o dito e o escrito. 
Um exemplo é a entrevista realizada em 1965, Philosophie et Psychologie, concedida a Alain Badiou. O texto encontrado nos Ditos e Escritos possui alguns tons diferentes da própria entrevista, como se da conjectura dita ao documento escrito mudassem as nuances das questões. No vídeo, Foucault comenta sobre o aparecimento das reflexões antropológicas a partir dos séculos XVIII e XIX. Tal aspecto, corrente nos textos de Foucault da época, também coloca outra questão, menos visível porém mais controversa: na entrevista, o pensamento antropológico é ilustrado pela pergunta sobre o Homem contida na Lógica de Kant. Seria Kant tributário das formas antropológicas de pensar, mote da crítica de Foucault à modernidade em As Palavras e as Coisas? Badiou reforça a pergunta: 
A.B.: Mas mesmo a Crítica da Razão Pura não é uma Antropologia. 
M. F.: Sim, mas eu o responderia pelo texto de Kant na Lógica. Quando Kant diz que as três questões – ‘O que posso conhecer?’ ‘O que devo saber?’ ‘O que me é permitido esperar?’ -, e as três questões se reportam a uma quarta questão, ‘Was ist der Mensch?’ (‘O que é o Homem?’), ele diz que a questão da Antropologia é a questão mais geral da filosofia. E nesse sentido, creio que se Kant não é o fundador, pelo menos é o descobridor desse novo campo filosófico que é a Antropologia (…) 
Nos Ditos e Escritos o texto impresso não contém tais elementos. Lá, Foucault se resume a comentar que “a partir de Kant” surge a “possibilidade – ou o perigo – de uma antropologia”. Ora, a ambiguidade é tão mais visível quando o leitor se depara, na agora publicada Tese Complementar, com uma perspectiva totalmente diferente. Alguns anos antes dessa entrevista, utilizando a Lógica e também a Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático,Foucault defende outra hipótese: tanto a antropologia pragmática, quanto a pergunta sobre o Homem contida na Lógica, não recairiam em prejuízos antropológicos (pelo menos segundo o mote crítico de Foucault desde então). Segundo a leitura de então, Foucault julgava encontrar a resposta sobre o homem numa filosofia não antropológica, cujas primeiras formulações constariam no Opus Postumum. 
A posição oscila também em As Palavras e as Coisas, texto mais próximo da entrevista com Badiou. No capítulo “O Homem e seus Duplos” (ítem “O Sono Antropológico”), a pergunta daLógica reaparece, percorrendo “o pensamento desde o século XIX”. Mas Kant, ao invés de descobrir, “mostrara” a “distinção” entre o empírico e o transcendental, elementos cuja confusão implica um novo sono, não mais dogmático mas agora “antropológico”. 
Levando em conta as breves passagens acima da entrevista de 1965 recentemente divulgada, o que se tem? Vê-se como, na disponibilidade pública desses novos conteúdos, aparecem novos elementos diante dos textos já publicados e novas questões cuja discussão ainda está somente no início.

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