19 dezembro 2011

Sobre Melancholia, de Lars von Trier


Domigo aproveitei ter ido ao lançamento do livro do amigo Rodrigo Barata e aproveitei para, estando ali na Estação das Docas, assistir  Melancholia, o ultimo filme de Lars von Trier, sobre o qual, como sempre, muito se tem falado.

Gostei muito de vê-lo, e por muitos motivos. Acho que dá para dizê-lo um belo filme sobre o fim do mundo, equilibrado pela metáfora da depressão ou como, justamente, o contrario disso: um belo filme sobre a depressão, equilibrado pela metáfora do fim do mundo. A divisão da narrativa em duas partes evoca esse duplo referencial.

A respeito do filme, pode-se falar, acho, que bem de tudo: do roteiro à fotografia, passando pela edição, edição de som e pela direção e chegando à interpretação. Todos estão bem, muito bem - John Hurt  como o boa praça pai, Charlotte Rampling como a amarga mãe e Kiefer Sutherland, como o marido de Claire, um racional astrônomo amador cujo desequilíbrio repentino tem o feito de nos lançar no pânico. Mas o destaque vai para as duas irmãs, as duas personagens centrais: Justine, vivida por Kristen Dunst, e Claire, por Charlotte Gainsbourg.

Da primeira à segunda parte, Claire passa de uma esposa segura e equilibrada para uma mulher ansiosa e frágil, aterrorizada diante da iminência do fim do mundo. E Justine, por sua vez, passa da melancolia e do não-ver sentido em nada para a depressão profunda e, daí, diante do inevitável choque de outro planeta com a Terra, para uma incrível placidez e tranquilidade.

Como em uma gangorra. Uma das irmãs encontra o sentido na vida, e a outra na catástrofe. Duas coisas que vão-se compondo, mutuamente, o tempo inteiro.

O filme é cheio de cenas marcantes: do triunfal começo, com a reprodução completa da abertura de Tristão e Isolda, de Wagner, com belíssimas imagens de câmera lentíssima, ao final, absolutamente arrebatador. A cena de Dunst nua, recebendo as luzes noturnas de Melancholia, o “planeta” que está para se chocar com a Terra, é antológica.

Von Trier brinca com a sensação do pânico. Sem recorrer a nenhum dos velhos clichês de Hollywood, como populações inteiras correndo apavoradas, hippies em rituais de paz universal, engarrafamentos gigantescos, etc. Seu pânico é silencioso, lento e incrivelmente denso. A partir da cena em que Claire encontra o marido morto, nós também nos encontramos com nosso sentimento de trágico: ficamos tensos e assustados, tudo se torna previsível, mas nada é apressado, vai ocorrendo no ritmo próprio do tempo aterrador. Perdemos a fé na ciência e em toda forma de salvação, mas o caminho que resta a percorrer é lento e, ainda, gradativo.

Essa circunstância é a reprodução perfeita da ideia do trágico: sabemos que o final será aterrador, não há surpresa quanto a isso e vamos seguindo a narrativa, esperando o inevitável desfecho.

Como em toda tragédia, Melancholia é uma narrativa a respeito da experiência: a respeito da aterradora similitude da experiência que une o outro a nós mesmos.

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