19 abril 2012

A tradutora não traduziu


Se problemas de idioma são recorrentes a toda a sociedade, é claro, eles também ocorrem, deve ser dito, com tradutores.
Digo-o porque a experiência de ver a palestra de Goran Therbonr traduzida, na sexta-feira passada, por uma profissional do ramo, foi aterradora.
Foi dramática. A moça, em vez de traduzir o que o cientista falava, se contentava em resumir cada bloco de sua fala. E pior: sem nenhuma noção dos termos utilizados pelo palestrante. Ela não tinha a menor noção de conceitos próprios do vocabulário marxista, um vocabulário compreendido, certamente, pela grande maioria da platéia.
Foi uma experiência vexatória. A tradutora não traduziu conceitos elementares e absolutamente necessários para contextualizar a fala de Therborn. Coisas como mais-valia, terceiro setor, alienação, estruturalismo, anodinação, e outros.
E não foi só: além de não traduzir, ela também traduziu errado.
Traduziu “a esquerda árabe teve um papel importante na deposição do Xá” por “os árabes participaram de uma festa do Chá”.
Ridículo, não? É... E querem outra? Uma pior?
Ela tradutora traduziu “Marx não era marxista e vai continuar além do pós-marxismo” por um ridículo “enfim, eu não sou marxista”.
Percebi o burburinho na platéia. A tradutora acabava de por abaixo a expectativa de pelo menos metade das 350 pessoas que estavam presentes no auditório.
Olhem, tenho consciência de que vir aqui partilhar com vocês esses problemas pode ter o efeito de incentivar o disse-me-disse mesquinho das disputas internas na UFPA.
Mas, se o faço, é em respeito ao projeto de uma academia séria e, enfim, em respeito a todos os que se deslocaram para ouvir o Therborn.
Uma academia séria como a iniciativa das pró-reitorias de Relações Internacionais e de Pesquisa e Pós-graduação, que se uniram para trazer a Belém um dos grandes autores da atualidade.
A culpa dessa tradução pífia é somente da tradutora, é claro.
Trata-se de um serviço licitado. E toda licitação pública obedece à equação do menor preço.
O problema é que para questões como essa, menor preço é, geralmente, garantia de um serviço de má qualidade.
O que tenho a dizer publicamente é que o serviço de tradução que atende a UFPA é muito, muito ruim.
Muito incompetente.
Para traduzir uma palestra com conteúdo científico é necessário uma competência que não é somente lingüística, mas também cultural.
Sobretudo nas áreas das ciências humanas e sociais.
É preciso leitura, conhecimento do vocabulário e, sobretudo, disposição em prestar um serviço adequado.

2 comentários:

Marise Rocha Morbach disse...

Que pena Fábio, a platéia perdeu muito.

Anônimo disse...

Estava presente e também fiquei indignado com a tradução. Pior mesmo para quem nem conseguiu se indignar, por não compreender o inglês. Um desrespeito ao público. Você não poderia ter pedido licença, com educação, e feito as correções necessárias? Antes a tradutora se sentir preterida que o público enganado.