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Umas palavras sobre o I Seminário “Dinâmica Agrária e Desenvolvimento Sustentável”, que aconteceu na semana passada


Na semana passada participei do I Seminário “Dinâmica Agrária e Desenvolvimento Sustentável”, organizado pelo Dadesa, o Grupo de Pesquisa Dinâmica Agrária e Desenvolvimento Sustentável (Dadesa), do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (Naea/UFPA), em torno do lançamento simultâneo, de seis livros do prof. Dr. Francisco de Assis Costa, seu coordenador. 

O evento foi pouco acompanhado pela sociedade local, pela inteligência local, pela UFPA em geral mas constituiu, certamente, um dos eventos científicos mais importantes dos últimos anos, e talvez de anos futuros, em toda a Amazônia.

Explico: os seis livros lançados reúnem material anterior e inédito do prof. Francisco Costa, um material com potencial revolucionário, para quem estuda a Amazônia e, talvez mais além, para quem estuda o agrário, em geral. É que o Chiquito – apelido franqueado não só aos amigos, mas para todos os seus leitores – com sua obra, elabora uma matriz teórica nova, original, sobre a Amazônia.

Revolucionária porque inverte a lógica colonialista que obscurece os sistemas econômicos próprios da região – seu campesinato caboclo, se assim se pode chamá-lo – dando visibilidade a ele e, mais ainda, percebendo-o como o próprio mecanismo estrutural, capaz de, a um tempo, combater a destruição ambiental e, a outro, constituir uma proposta nova das as políticas públicas voltadas para o setor.

A obra do Chiquito é minha principal referência, junto aos meus alunos, para discutir Amazônia. Tanto nos seminários Estudo de Temas Amazônicos I e II, que ministro na graduação em Comunicação, como no curso Mídia e Cultura na Amazônia, que ministro no mestrado, venho utilizando seus textos, notadamente sua produção sobre a formação do campesinato amazônico e seu mapeamento das trajetórias sociais da região.

O seminário nos fez perceber o quanto, historicamente, há uma cultura de ignorar o setor agrário. De torná-lo invisível. Uma estratégia clara no campo conservador e liberal da sociedade mas, também, no campo de esquerda – o que é incrivelmente perverso. É que o marxismo ortodoxo acredita que o futuro irremediável do setor agrário é a sua diluição no
proletariado urbano, já que o conflito do capital se dá, na visão da ortodoxia marxista, exclusivamente e invariavelmente, entre classes dominantes e proletariado.

Chiquito não aceita essa tese e, ao procurar entender a diversidade do setor agrário, demonstra a racionalidade da empresa camponesa. Por trás dessa teorização há um projeto político: gerar uma nova techné, um novo saber, uma nova perspectiva, que poderá gerar, também, uma nova prática.

Tive também a honra de contribuir com a reflexão produzida no Seminário, apresentando uma comunicação sobre a “hermenêutica da noção de pobreza na Amazônia”. Como disse a Ana Cláudia Cardoso, é muito significativo que nós, que trabalhamos em campos que não a economia, sejamos recebidos – e tão bem recebidos – no campo econômico. Muito próprio do Dadesa e do Chiquito essa disposição em construir um saber complexo, transdisciplinar.




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