17 julho 2014

Acho que deves



Há mês e meio estou entreavado em operações de retorno, arrumando cá e lá as boas e as más fadas que há, ruminando lerdamente os afazeres, tirando o pó dos livros e dos móveis da casa, ainda abrindo os baús que vieram da viagem e encontrando lugar para as muitas cascalhices que, na forma de coisas, vou acumulando sem tê-las onde por. Um mês e meio para adaptar um ano e meio fora de Belém. Assistindo desinteressadamente aos jogos da Copa, vendo as gentes que passam, espiando as movimentações de ano eleitoral e exercitando minha paciência lá na UFPA. Escrevendo artigos, pongando as suas tramas, ultimando acertos e me preparando para assumir a coordenação do mestrado em comunicacão. Revendo as gentes:
- Voltaste para o ano eleitoral!
- Não, voltei porque era hora de voltar, acabei o pos-doc, tinha que voltar.
O sujeito me olhando desconfiado, com caras de
“Sei, sei!”
Um outro, sabedor dos desafios e dos confrontos lá por aqueles largos corredores da UFPA, um colega, me deseja sorte e, estatelando um abraço ruidoso, diz:
- Conta comigo!
E franze o cenho. Mais baixo que eu, me olha, sem piscar, por cima das lentes dos seus óculos e rediz:
- Conta comigo!
A dona Maria, que nos ajuda a manter asseada a universidade, logo observa, ao me ver:
- O senhor engordou, professor!
E ri-se. Ri e continua a operação delicada de limpar uma porta.
Mais à frente, uma alma silenciosa, dessas que nunca falam conosco mas que são atentas a tudo o que se passa ao redor, e que costuma produzir pessimismos, pensa (e eu leio seus pensamentos):
- Credo, como envelheceu o professor Fábio!
Me vêm à mente, não sei por quê, uns versinhos de Drummond:
“É preciso escrever um poema sobre a Bahia,
mas eu nunca fui lá!”.
Desconheço minhas razões, mas esses versinhos me vieram à mente e aqui ficaram.
Depois sumiram. E depois voltaram.
Um ex-aluno, desses que permanecem amigos, então, me perguntou:
Por que não retomas o blog? De verdade, diariamente?
Consultei a dona Maria.
“A senhora acha que devo retomar o blog?”
“Acho”.
Consultei em seguida meu colega, o professor de outra faculdade que disse que eu pode contar com ele.
“Achas que devo retomar o blog?”
E ele pôs uma mão em meu ombro, novamente me olhou, sem piscar, por sobre seus óculos e, com sua voz concentrada de barítono aposentado, disse:
“Acho!”
Então, ainda que relutantemente, eu consultei aquela funcionária com espírito pessimista:
“E tu, pelo que vales, achas também que devo retomar o blog?”
“Acho! Mas que envelheceste, envelheceste”.
Retornar é tarefa delicada. Exige disposição, coerência e saúde dos rins. Retornar a Belém, violenta como anda; retornar ao mundo que anda e continuous a andar quando andávamos fora; retornar aos antigos projetos... Retornar e desempeirar os livros e a casa... Retornar e recomeçar, quase do zero, tantas coisas deixadas... Retornar à condição coletiva de precisar-pensar-sobre-estas-coisas... Retornar ao hipax do mundo, ao ventre, a todas estas cidades invisíveis que flutuam ao redor...
E retomar o blog.
Ok, de vez em quando estive publicando alguma coisa, mas sem a constância de antes. E blog é constância. Sei que a função dos blogs mudou, neste tempos de dominância do Facebook, mas evidentemente ainda há espaço para a boa troca de ideias, para textos, para opinião...
Isto posto sigamos em frente. Retornemos. Retornemos seguindo em frente.
E quem sabe aonde?

9 comentários:

Thiane disse...

eu nunca consegui manter um blog, mas acho que o senhor fez bem em retomar o blog. :)

Anônimo disse...

Legal professor Fábio, seu blog tem conteúdo próprio e isso é sempre bem vindo. Que bom estar de volta a Belém.

Ana Paula Freitas disse...

Retoma o blog sim, Fábio. Quem bom que voltastes. Que bom que irás assumir a coordenação do mestrado. Quem bom.Que bom que envelhecestes. bjs

Bob Fields disse...

Também acho que deves!

Anônimo disse...

Opinião/informação e ironia/crítica. Coisas daqui. Que bom que voltaste.

Anônimo disse...

Opinião/informação e ironia/crítica. Coisas daqui. Que bom que voltaste.

. disse...

Eu não acho que devas.
Tenho certeza!
"Te espero" por aqui.

. disse...

Eu nao acho que devas.
Tenho certeza!
"Te espero" por aqui.

Anônimo disse...

Tens é obrigação!