09 dezembro 2016

Da crise ao conluio

Com uma rapidez extraordinária passamos da manchete “crise entre os poderes” para a manchete “conluio entre os poderes”. Simples assim: Renan tira do regime de urgência o projeto de abuso de autoridade e é mantido na presidência do Senado, podendo tocar a PEC 55 e as demais pautas daquilo que, para mim, só tem um nome: “agenda americana”. Essa desfaçatez constitui uma das maiores negociatas da história do Brasil e encerra uma das grandes questões do imaginário político nacional: no final, todos lucupletaram-se.
Não dá nem para qualificar o estado das coisas no Brasil. Às vezes acho que só me resta acreditar nas virtudes do exemplo da má experiência. O único fato que realmente me tranquiliza é o de que a ambição dessa corja de juízes, políticos e empresas de comunicação anda tão descompensada que, porfim, pode ser torna evidente, para quem ainda não compreender, o seu caráter e a sua aliança. Mas… será que a multidão inebriada e letárgica (sim, é contraditória a união dessas palavras, mas o que, no Brasil, não é contradição?) vai, finalmente, compreendê-lo?
Há duas coisas a compreender:
1) A ausência de moral e de dignidade do STF (a mesma ausência, no Senado, é coisa velha) constitui um desses fatos maiores que precisam ser publicizados por todo mundo que quer defender a democracia no Brasil. Muita gente já sabia que a justiça brasileira não vale grande coisa, mas o que aconteceu é a prova cabal e incontestável da aberta corrupção do STF - e daí, para baixo. Salvar a democracia exige desmascarar a desfaçatez do STF, do Ministério Público e dos juizados das primeiras instâncias.
2) Essa ausência de moral e de dignidade é apenas o procedimento para o que todos eles querem, no fundo: entregar o Pré-Sal às petroleiras estrangeiras, aprovar a  PEC-55-241, para achatar o gasto social e ampliar a transferência de recursos do Estado aos banqueiros, desmontar a Previdência, que arrasará o INSS e abrirá caminho para os sistemas de aposentadorias privadas, administrados pelos bancos. É preciso botar todos eles, Juízes, empresas de comunicação, PSDB, PMBD e até essa parte do PT que é conivente com tudo isso, no lugar em que realmente estão: juntos. Junto na agenda do "Partido Americano".

Não sei se a multidão inebriada e letárgica vai, finalmente, compreendê-lo, mas esse é o rumo das coisas.

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