03 março 2010

Heranças à Esquerda 25

O marxismo Ocidental 8: Antonio Gramsci 2
Gramsci nos ensina a procurar as relações de força em toda relação social. A procurar distinguir entre o que é orgânico e o que é ocasional. Ou seja, a perceber a diferença entre os movimentos heterogêneos da história.
Para fazê-lo, precisa-se perceber que num determinado cenário conjuntural de disputa pode haver muitas forças em movimento. Algumas delas são forças, por assim dizer, orgânicas – forças imbricadas no processo histórico que possibilitou aquele cenário conjuntural. Porém, há outras forças, oportunistas, que se imiscuem neste cenário. São as forças ocasionais, ou conjunturais. Algumas dessas forças ocasionais são potências dissimuladas, de longa duração na história mas que tomam forma nova a cada conjuntura. São forças antagonistas que procuram dominar o cenário conjuntural, desconstituir as forças orgânicas e triunfar. Muitas vezes, são forças que tomam uma nova forma social porque já foram superadas em outra conjuntura. Foram superadas mas dissimulam, porque, afinal, nenhuma força social vai confessar que foi superada. Melhor assumir uma nova aparência, melhor dissimular.
Tudo isso deriva de uma lei social básica, que diz que nenhuma sociedade se desorganiza espontaneamente, ou, dizendo melhor, nenhuma sociedade perece até que todas as formas de vida implícitas nas suas relações se desenvolvam.
A fundo, Gramsci nos ensina a historiar o presente, partindo da concepção de que tanto a história como a política tem por função prática a atividade de reconstituir a história, embora não a história passada, mas a atual, a história do presente, que é feita necessariamente com a soma dos fatos do passado.
Para analisar o presente, a conjuntura, a grande dificuldade é separar o orgânico do conjuntural. A princípio, todos os agentes sociais se verão como orgânicos, se historiarão, bem como aos outros, por meio de sua própria perspectiva histórica. Daí a importância da autocrítica, sem a qual nenhuma conjuntura será realista.
A interpretação da história não pode ser vista como uma “causa”. Por isso, a inteligência está em observar a correlação de forças presentes na conjuntura. Num primeiro plano, existem as forças estruturais, relacionadas à estrutura geral do corpo social e de mutação lenta, porque são protegidas por uma série de regras e estratégias de auto-reprodução. Num outro plano, o drama das forças políticas, em seu litígio, em sua disputa. Mas haveria vários outros planos de forças sociais em disputa: militar, religioso, cultural, jurídico... Todos eles imiscuídos entre si. Na verdade, importa menos o “plano” em que se localizam essas forças que o termo correlação. Correlação significa a capacidade dos agentes políticos de colocarem as forças, mesmo que as negativas, conjunturalmente, a seu serviço.
E isto, precisamente, vem a ser a famosa “luta hegemônica”: a arte de costurar a conjuntura. A arte de tornar correlatas as esferas mentais e materiais do poder. Porque a hegemonia é a combinação de liderança com força. O que é a liderança? Uma oportunidade de comando, que deriva do atributo político, moral ou intelectual de alguém. E o que é a força? Uma potência-de-fazer, que deriva do poder, imposto ou concedido.
Veja o texto anterior desta série, também sobre Gramsci, aqui.
E ainda sugiro o texto da série sobre Walter Benjamin.

Um comentário:

Anonymous disse...

Professor, façamos um exercício teórico-prático a partir da nossa realidade. Na sua opinião, quais as forças que na disputa política que travamos no País e no Estado são orgânicas ou são conjunturais e por que nos parece cada vez mais nítido que, em alguns lugares como no Pará, por exemplo, as forças históricas parecem à mercê do contigente, vide o caso PT versus PMDB no Pará. Ou os dois são partidos apenas conjunturais numa perspectiva de esquerda?