Pular para o conteúdo principal

Postagens

Sobre a pesquisa do Ibope

1. Quem já trabalhou com comunicação política sabe que a maioria desses institutos são venais, além de agirem também ideologicamente. A diferença entre eles é basicamente uma diferença de preço, ditado pelo impacto em mídia (e não pela credibilidade, o que é uma outra coisa). Isto dito, é preciso saber que há limites em relação ao que é vendido e comprado. Ou seja, é preciso agir com certa ponderabilidade. Assim, um aumento de rejeição em termos 11   pontos percentuais significa, provavelmente, um aumento real da rejeição em Haddad, digamos que de 1/3 disso (3,6 pontos percentuais) que, midiatizados, têm potencial para impactar nessa tendência já verificada, a ponto mesmo de dobrá-la (7,2 pontos percentuais). 2. Fora isso houve mudança no filtro da pesquisa, fato já tornado público, o que metodologicamente torna ilegítima a colocação desta pesquisa no histograma - ou seja, prejudica sua comparação com as pesquisas anteriores. 3. O crescimento da rejeição a Haddad é coetân...

Diários mínimos 2 – Da sincronia de fatos aleatórios à sensação de pós-história

A semana que se abre com o incêndio do Museu Nacional – e, empiricamente, da destruição de todo esforço para construir uma identidade nacional brasileira –, se encerra, às véspera do Dia da Independência, com o candidato fascista, vestindo uma camisa verde-amarela e com os dizeres “Meu partido é o Brasil” sendo alvejado com uma faca. São fatos independentes, aleatórios entre si, mas as narrativas que os envolvem sugerem alguma sincronia entre eles. A narrativa produzida pela mídia, em nossa época, bem como a narrativa mais usual da descrição do quotidiano, na sociedade midiatizada, está baseada na exploração conjuntiva da aleatoriedade dos fatos. Ou seja: tanto a mídia como a sociedade midiatizada tornam sincrônicos eventos distintos entre si. A narrativa da mídia se tornou hiper-realista e, por essa via, tudo parece dizer mais do que aparenta ser. Evidentemente porque há proveito a tirar da presunção de sincronicidade, da substituição do fato pelo vaticínio, ...

Diários mínimos 1 - Tautismos midiáticos

Vivemos uma época de significados saturados. Isso se dá , em grande parte, porque a cobertura da mídia (e, igualmente, a “cobertura” da sociedade midiatizada nas suas redes sociais) tende ao tautismo – ou seja, à versão impressionista, hiper-realista, sentimentalista e anti-objetivista dos fatos. Tautismo é um termo criado pelo teórico da comunicação Lucien Sfez a partir da fusão da palavra tautologia (a “prova” de um fato por meio da repetição sistemática de que ele realmente ocorreu, tão usual na mídia) com a palavra autismo, compreendido por Sfez como uma experiência de isolamento comunicacional. Tautismo, em síntese, é o autismo midiático, o autismo de pessoas não autistas, jogadas num mundo irracional por meio da tautologia. A semana que termina foi plena de tautismo. Do incêndio do Museu Nacional ao atentado contra Bolsonaro, o que mais se viu foi a construção de narrativas tautistas, todas elas colocando a realidade em segundo plano. Na Rede Globo, repórteres falavam de...

Roteiro de opera bufa: A justiça domingueira dos golpistas e o preso politico Lula

Domingo, 8 de julho de 2018. Rogério Favreto, desembargador de plantão no TRF-4 (Tribunal Regional Federal – 4 a Região), recebeu um pedido de habeas corpus impetrado por deputados do Partido dos Trabalhadores   demandando a imediata soltura de Lula. O desembargador concedeu provimento à petição e ordenou a imediata soltura de Lula. Seguiu-se uma correria de magistrados, juízes e delegados, em opera bufa – posto que ilegal, imprópira e incomum – visando a derrubar a decisão e manter preso o ex-presidente Lula. O normal: Habeas Corpus interposto no plantão e liminar concedida. Quem receber o HC tem cumprir a decisão. No final   do plantão o HC é redistribuído e se dá andamento à questão, julgando-a e mantendo ou cassando a liminar. Essa é a norma, essa é a lei. Quem não concordar, que recorra. Agora, o que não é normal (na verdade, o que é ab-normal e abjeto): 1. O delegado da Polícia Federal se recusar a cumprir a decisão de soltar Lula em no máximo...

Disciplinas que irei ofertar no próximo semestre

Para quem interessar, já estão abertas as matrículas para as disciplinas que vou ministrar no próximo semestre, tanto no Naea como no Ppgcom. Atenção para os prazos de matrícula (em alguns casos até 20/07), tanto para alunos regulares como para ouvintes. As disciplinas serão as seguintes: 1. Fenomenologia e Ciências Sociais No Naea / Ppgdstu às 2 as , 4 as e 6 as , de 14 às 18h, de 19 de novembro a 10 dezembro. Matrícula de alunos do Naea até 20/07. Inscrição de alunos especiais (alunos de outros PPGs ou de for a da UFPA) de 23/07 a 03/08 Ementa: A disciplina objetiva refletir sobre a contribuição da Fenomenologia para as Ciências Sociais. Partiremos de uma introdução à Fenomenologia e de uma cartografia geral das escolas e autores que com ela trabalham para compreender de que maneira a prática fenomenológica pode ser empregada pela Sociologia e pela Antropologia, principalmente, mas também pela História, Ciência Política, Direito e Teoria Literária. Nesse percurso, ...

Hoje é dia de São João Batista, Xangô na Umbanda, Senhor do Carma e da Justiça Divina.

Hoje é dia de São João Batista, Xangô na Umbanda, Senhor do Carma e da Justiça Divina. Uma amiga me mandou hoje cedo essa mensagem, acompanhada da linda interpretação de Maria Bethânia, que também compartilho. Muitos amigos têm me telefonado e enviado mensagens bonitas, nos últimos dias. Mensagens que falam sobre política, sobre justiça e sobre verdade. Hoje é domingo e tive hoje minha primeira aula de pandeiro. Aos 50 anos decidi aprender a tocar pandeiro e estou muito contente com essa decisão. Hoje é domingo e estou igualmente contente com o fato de que é domingo, dia santo e, espero, dia de pandeiro, muitos amigos e coisas do bem. Meu médico me mandou fazer pilates, mas eu decidi aprender a tocar pandeiro. E é por estar muito contente, se possível tendo a bênção de São João Batista e toda a força de Xangô, que gostaria de falar, muito brevemente, sobre política, justiça e verdade.  Vivemos em tempos muito estranhos. Tempos de subversão da política; de subversão da pol...

Políticas culturais para as cidades

Foi lançado pela Fundação Perseu Abramo o livro "Políticas culturais para as cidades", organizado por mim, pela Renata Rocha (da UFBA) e pelo Luiz Augusto Rodrigues (da UFF). O livro lida com a complexidade que é pensar esses dois campos: as políticas culturais e as cidades. Os 10 capítulos do livro tratam tanto de políticas locais setoriais quanto da observância reflexiva de políticas nacionais em suas interações federativas. Abordam impactos culturais da produção de espaços contemporâneos regidos pela lógica do empresariamento urbano que tende a gentrificar os territórios impactados por mega-eventos e/ou produzidos prioritariamente pela lógica da atratividade turística. Políticas municipais e a política nacional de cultura são objetos aqui analisados, em especial quanto a desdobramentos territoriais. Pensar as cidades e as políticas culturais que lhes impactam, e também pensar as culturas e as políticas urbanas que lhes tensionam, ora potencializando-as, ora as inib...

O desmonte do ensino superior por Temer: números e consequências

Um sintoma do golpe que está passando desapercebido é a imensa evasão no ensino superior do país. Em 2017, mais de 200 mil estudantes de 19 a 25 anos tiveram de abandonar o ensino universitário antes da conclusão. Em dados brutos, o número de estudantes nas universidades e faculdades brasileiras reduziu, de 7,7 milhões de estudantes em 2016 para 7,65 milhões em 2017, cerca de 50 mil a menos. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do Instituto Nacional de geografia e Estatística (IBGE), para os anos de 2016 e 2017. As causas imediatas disso são a redução, pelo Governo Federal, de créditos para estudantes, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e de bolsas de estudo, como o ProUni. As causas amplas estão no cenário de aumento do desemprego e da informalidade, bem como no corte de 30% dos recursos de custeio das universidades públicas, o que impacta sobre o apoio ao estudante carente, mantido por essas universidades. Poucos falaram d...

Youthquake: a palavra do ano para o dicionário Oxford

Depois que fake news foi escolhida a "pakavra do ano" pelo dicionário Oxford, em 2017, virando um debate mundial, tanto na vida quotidiana como na academia, todos estavam aguardando para ver qual seria a palavra escolhida em 2018. Na Inglaterra havia até bolsa de apostas. Pois bem, o resultado saiu: Youthquake. Que significa protagonismo da juventude.  Ou, mais especificamente, como colocado no dicionário Oxford, « a significant cultural, political, or social change arising from the actions or influence of young people ». Na verdade, a origem do termo aponta para um movimento cultural londrino, relacionado à moda, dos anos 1960. Na Wikepedia encontrei mais sobre a palavra . Ah, para constar: nos Estados Unidos os dicionários Webster, também começaram a indicar a sua "word of the year", e lá a indicada foi « feminism ». Ao que parece, uma tendência em referir protagonismos.

Temer acaba com o fundo nacional soberano. Por quê e para quem?

Assim são as coisas em tempos de governo ilegítimo: repentinamente, por medida provisória, se extingue o Fundo Soberano do Brasil (FSB). A Medida Provisória (MP) 830/2018 o faz, transferindo os recursos do Fundo (R$ 26,5 bilhões) para o Tesouro Nacional, de onde serão usados para o pagamento da dívida pública federal. Esse dinheiro deveria servir ao desenvolvimento e ao lastro financeiro do país perante a comunidade internacional. É nessa função que tem um papel decisivo. Usa-lo para pagar a dívida pública é uma medida insignificante, que só privilegia os especuladores. Mesmo porque o FSB não chega sequer a pagar 7% dessa dívida, atualmente calculada em R$ 3,6 trilhões. O FSB foi criado em dezembro de 2008, depois da quebra do banco norte-americano Lehman Bothers e no contexto da crise financeira internacional. Foi criado receber os recursos oriundos da exploração do pré-sal. Trata-se de uma estratégia de defesa da soberania nacional, adotada, nesse momento, por...

Para entender o que está em jogo: Por que a gasolina é tão cara no Brasil

  O presidente da Petrobrás, Pedro Parente, impôs uma nova política de preços, que permite o aumento diário da gasolina e do diesel, e reduziu drasticamente a carga do refino no país. Com isso, passamos a importar grande volume de combustível refinado. A estratégia de Parente aumentou o preço da gasolina para o consumidor, além de prejudicar a balança comercial e reduzir a operação nas refinarias, colocando em risco milhares de empregos no país.

Sobre Antônio Cândido

No dia 16 de maio último o país perdeu um de seus maiores intelectuais, Antônio Cândido, crítico literário e um dos grandes "intérpretes do Brasil". Reproduzo abaixo um texto, sobre ele, escrito por Roberto Schwartz, um de seus principais herdeiros intelectuais e publicado na Revista da USP em 1993. O texto perfaz um panorama sucinto e preciso da trajetória de Antônio Cândido. Antonio Candido  (de Mello e Souza) (n.1918). Figura central da crítica brasileira a partir dos anos 40. Iniciou a carreira como responsável pela seção de livros da revista  Clima,  a qual fundou com um grupo de amigos em 1941. O periódico refletia o novo espírito universitário crítico, instalado em São Paulo por influência da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, recém-criada em 1934. Nesta, uma equipe notável de professores trazidos da Europa assegurava à nova geração o contato com o padrão de pesquisa contemporânea: o autoditatismo começava a ser substituído pela formação sistem...

A falta que essa cachorra me faz…

Ontem perdi uma amiga, a Juju. Todos sabem que cachorros podem ser amigos e que cachorras podem ser amigas. Todos sabem das coisas dos sentimentos, dos afetos e das perdas. Os códigos culturais de nossos tempo permitem que a experiência do luto seja extensiva aos bichos que nos amam. E, assim, faço uso deles. Desses códigos de luto. Como sabem, sou um indivíduo mais-ou-menos sensível. A morte, ainda me afeta. Não sou um ser superior e nem acredito em anátemas e promessas, mas se tem uma coisa em que acredito é na sensibilidade produzida pelos afetos. Inclusive pelos afetos dos animais para conosco, humanos, sempre vis e imperfeitos.   O caso foi repentino e fulminante. Por alguma razão, seu corpo foi invadido por uma infecão, que se generalizou. Estou buscando firmemente os culpados pela situação, garanto. Os principais suspeitos são essas plantinhas que os cachorros comem pelas ruas quando passeiam com seus donos e as perigosas moleculas orgânicas que, sin...