Esta semana participei do seminário "A integração sul-americana e os desafios políticos e sócio-ambientais da Pan-Amazônia", promovido pela Fundação Perseu Abramo (FPA), juntamente com o PT, a CUT, o Conselho Nacional de Seringueiros (CNS) e a instituição alemã Friedrich Ebert Stiftung (FES). O objetivo do seminário é subsidiar o programa de governo do PT, tanto da candidatura Dilma como das diversas candidaturas aos governos estaduais amazônicos. O evento reuniu especialistas de todos os países amazônicos em torno de temas comuns, com destaque para a integração pan-amazônica, a esse respeito, fiz a seguintes notas:
A questão da integração pan-amazônica não se faz sem a construção de uma utopia pan-amazônica. Essa utopia não existe. Sua existência é impedida pela ausência de debates, de contato e de contágio de idéias. Também a impede a obsessão com o nacionalismo dos países latino-americanos. Ao que penso, enquanto não se superar esses afetos nacionalistas não haverá integração pan-amazônica.
O produto subjetivo desse espectro nacionalista significa, em termos práticos, que a projeção dos centros nacionais geopolíticos de todos os países amazônicos se situa fora da Amazônia, o que faz com que a Amazônia, em qualquer caso nacional, seja sempre o quintal da casa.
Disto resulta uma questão central: ou a Amazônia se constitui como centro geopolítico a partir dela própria, a partir de um pensamento que ela mesma produza, ou isso não acontecerá jamais, porque não se pode esperar uma solução vinda dos demais centros geopolíticos nacionais. Dizendo de outra forma: ou os quintais se unem para serem percebidos como centro, ou não ou serão de outra forma.
Uma dinâmica geopolítica não depende de escolhas nacionalistas. Uma coisa não tem nada a haver com outra, ainda que assim aponte o senso comum. Porém, justamente em função do senso comum é que o nacionalismo acaba atrapalhando qualquer projeto pan-amazônico, porque produz uma lógica institucional que é falsa, do ponto de vista da fronteira.
Quem protagoniza a fronteira são os povos da fronteira, e não os estados nacionais, ainda que, institucionalmente, caiba a estes a gestão das fronteiras. Porém, a integração, qualquer integração, se dá na fronteira. A história da América Latina avança, sempre, nas suas fronteiras.
Em síntese: ou os agentes da fronteira se mobilizam por si mesmos ou não há integração.
Esses agentes seriam os seguintes:
- Os partidos de esquerda
- As universidades e instituições de pesquisa
- Os agentes culturais
- Os agentes da troca, do comércio interno e, sobretudo, da economia solidária
Bom, até agora falamos sobre uma integração intangível e imaterial, o que é fundamental e, a meu ver, o mais importante e urgente. Significa a utopia a constrir que mencionei acima.
Não obstante, precisamos falar também sobre a integração física. Não necessariamente para defender e justificar a abertura de estradas e hidrovias que unam o oceano Atlântico ao Pacífico, mas sim para colocar o debate no seu lugar justo.
Explicamos com uma pergunta: Para quem necessitamos de integração? Para os grandes monopólios da indústria ou para as populações amazônicas? Ou seja, queremos corredores bi-oceânicos para a saída massiva de produtos, segundo o interesse de escoamento do agronegócio brasileiro ou queremos uma integração para reduzir a pobreza das populações amazônica?
Minha resposta é pela segunda hipótese. Devemos desejar a integração pan-amazônica para construir cooperações sociais, científicas, técnicas, culturais, comerciais e industriais, necessariamente solidários, porque é essa a lição histórica dos povos da floresta.
A outra lógica responde aos interesses dos grandes monopólios brasileiros e ela, reconhecidamente, não é capaz de compreender as dinâmicas reais das populações amazônicas.
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