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Mostrando postagens de Julho, 2009

Aliás, o pré-sal...

Aliás, o modelo de exploração do Pré-sal é onde melhor se evidencia a diferença de modelos de desenvolvimento que há entre PT e PSDB-DEM. O que tucanodemos clamam é que o pré-sal seja explorado no regime de concessões. Alegam que a concessão é a única forma de compensar os altos custos da exploração diante do risco de nada encontrar. O PT e o governo Lula, por outro lado, tentam impor a Petrobrás como parceira obrigatória de toda exploração. De um lado o modelo que se interessa pelo lucro privado, o mesmo lado que tentou e não conseguiu privatizar a Petrobrás e que tenta desmoraliza-la, agora, com uma CPI. De outro lado, o interesse público, o mesmo que propôs que os imensos lucros dados, provavelmente pelo Pré-sal, estejam comprometidos com a educação pública. O general nacionalista Horta Barbosa, em conferência no Instituto de Engenharia de São Paulo, em 1947: “Jazidas de petróleo são bens exauríveis. A sua concessão não é arrendamento, mas alienação. Quem concede a exploração da j

Estatal olheira

A idéia dos consórcios público-privado tem uma incrível variedade de formas. Uma delas, um modelo aplicado na Noruega, foi o escolhido pelo Governo Lula para a exploração do Pré-sal. Trata-se de criar uma nova estatal e impô-la como sócia do consórcio de empresas que irão explorar o pré-sal. A nova estatal vai atuar como uma “olheira” do estado brasileiro, fiscalizando, controlando os custos da extração, os gatos de custeio, os superfaturamentos etc.

Heranças à Esquerda 7

Trotsky III Reivindiquemos a herança de Trotsky porque ele foi um pensador brilhante e um exemplo de integridade política e humana. Mas também, especificamente, porque ele foi um internacionalista, que superou a mediocridade de todo nacionalismo, de toda identidade rígida, de toda comunicação unidimensional. E porque acreditou na democracia e ousou dizer que é possível construir o socialismo com democracia, por paradoxal que isso pareça a muitos. E porque acreditou que o poder é uma relação ambivalente e resulta da construção de muitos, bem como acreditou no debate entre os grupos, mesmo que rivais e na composição e construção do poder. Um tanto mais moderadamente – considerando que não foi um pacifista e sem tentar explicar o contexto histórico dos bolcheviques – reivindiquemos sua herança porque, além de tudo, foi um estrategista fabuloso. Foi León Trotsky quem inventou o exército vermelho e venceu duas guerras simultâneas, uma interna, contra os mencheviques e outra contra as po

Revanche

Como todo mundo noticiou, há duas semanas, a Google vai lançar, com base no Google Explorer, seu próprio sistema operacional, para concorrer com o Windows, da Microsoft. Pois bem, a resposta não demorou mais do que dez dias: Microsoft e Yahoo anunciaram uma parceria em torno do Bing, o novo serviço de buscas na internet, criado pela empresa de Bill Gates. O acordo inicial, que troca a manutenção do sistema básico de uma pelo cadastro de usuários da outra, deixa aberta a porta para a unificação dos dois sistemas num futuro próximo. Lembremos que, no ano passado, a Microsoft tentou comprar a Yahoo por US$ 47,5 bilhões. Porém, o verdadeiro filão a ser explorado é a publicidade na rede. Microsoft e Yahoo poderão fazer frente à Google, talvez... Isso tudo tem a ver com a gente, que chato!

Gente preocupada

Ontem à noite, num bar da Benjamin, um seleto grupo de solteiros de julho (sim, ainda existem) discutia, em tom apocalíptico, a queda de 81,5% nos lucros da Vale. Faziam prognósticos que vão muito além da economia, que cambam e empenam a política. E muito mais gente tem razão para ficar preocupada. O lucro líquido registrado foi de R$ 1,46 bilhão no segundo trimestre deste ano, e a comparação é com o mesmo período do ano passado, que teve um lucro líquido de R$ 7,9 bilhões.

Guerra do Líbano

Corrigindo os links, prejudicados por um erro de postagem, republico o post sobre a série de documentários sobre a Guerra do Líbano, de 1976 a 1990. São 15 episódios, cada um com 45 minutos. Produção da Al Jazeera. Está em árabe, mas com legenda em inglês. Para quem gosta do assunto é um prato cheio. Episódio 01 – Batismo de Fogo Episódio 02 – Os Roteiros do Conflito Episódio 03 – Explosão Episódio 04 – Morte de um País Episódio 05 – Intervenção de Damasco Episódio 06 – Fogo e Carvão Episódio 07 - Zahle e o Verão Indiano Episódio 08 - Sharon Invade Episódio 09 – Ocupação de uma Capital Árabe Episódio 10 – O Massacre Episódio 11 – A Morte de uma Superpotência Episódio 12 - Caos Episódio 13 – Damasco Regressa Episódio 14 – A Tempestade Episódio 15 – O Acordo para acabar com a Guerra

ZEE da cana vai sair 2

Aliás, foi mais ou menos esse o movimento realizado pela extração seringueira, no ciclo do látex, no Pará: a coleta da borracha ocupou a mão de obra e o capital de investimento de tal maneira que outras culturas, como a cana, o cacau e outras atividades extrativas foram anuladas. Quando acabou a borracha, ou melhor, quando perdemos o monopólio da produção, o Pará tinha um atraso econômico imenso, ao custo de ter substituído toda a sua cultura econômica tradicional. É isso que pode acontecer, além, obviamente, de um desastre ecológico imensurável, e daí a importância do ZEE, que é um ponto de partida jurídico para a regulação e para o controle.

ZEE da cana vai sair

Dentro de mais alguns dias se vai conhecer o projeto de ZEE (zoneameto econômico e ecológico) para a cultura da cana de açúcar, no Brasil. A expectativa é muito grande, porque a queda de braços entre ruralistas e o bom senso está a mil. O motivo é apaixonante: abrir ou não os biomas amazônico e do cerrado para o cultivo da cana e, assim, para a produção de etanol? Ruralistas, sob a liderança do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi e da pretensiosa senadora Kátia Abreu (DEM-TO) pretendem disponibilizar o máximo possível de terras desses biomas à cultura da cana. O bom senso, por sua vez, repudia o plantio da cana na Amazônia Legal e no Pantanal e reduz a área explorável no cerrado. Outro fato que pesa na queda de braços é a negociação do Brasil com os Estados Unidos a respeito de um acordo redução das sobretarifas impostas ao álcool brasileiro. Ao que tudo indica, essa negociação tende a ser muito exitosa para o Brasil. Se a taxação extra ao álcool brasileiro for retirada vai explo

Ave solidária

A seqüência de imagens a seguir foi feita por um fotógrafo japonês. A ave estava inerte no chão e uma outra permanecia próxima, durante mais de duas horas, pulando de galho em galho e retornando até o corpo morto da primeira ave, chamando-a com assovios, sem temer os que se aproximavam. Depois de muito tempo, essa ave começou a pular sobre a ave morta, como se quizesse reacordá-la. E, então, começou a voar até um canteiro próximo e retornar. O fotógrafo, sempre de acordo com seu relato, compreendeu que deveria pegar a ave morta e levá-la até o canteiro, e assim fez. A ave solidária levantou vôo e partiu. Não cheguemos a humanizar o episódio, mas que é incrível, é.

O Obama de Volgogrado

Um imigrante da Guiné Bissau, Joaquim Crima, 37 anos, decidiu candidatar-se a presidente da junta de Srednii Akhtubinsk, localidade que se situa no concelho de Volgogrado, Rússia. A campanha está indo de vento em pôpa com o marketing elaborado, pelo qual se denomina “o Obama de Volgogrado” . No passado, Volgogrado teve o famoso nome de Stalingrado. O guineense lá chegou na juvenbtude, lá cursou a faculdade e lá se casou. Há doze anos vive na pequena Srednii Akhtubinsk, onde temn um comércio próspero de melancias. Considera-se russo, escreve o diário Nezavissimaia Gazeta e exige ser chamado de Vassili Ivanovitch.

Prêmio de Lula orgulha o país, mas imprensa esconde

Por Ricardo Kotscho Diante da manifesta má vontade demonstrada pela imprensa neste episódio da cobertura da entrega do Prêmio da Unesco, dá para entender porque o governo Lula procura formas alternativas para se comunicar com a população fora da grande mídia O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu ontem à noite, em Paris, o prêmio Félix Houphouët-Boigny concedido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura)॥ Presidido por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, o júri premiou Lula "por sua atuação na promoção da paz e da igualdade de direitos"। Não é um premiozinho qualquer. Entre as 23 personalidades mundiais que receberam o prêmio até hoje - anteriormente nenhum deles brasileiro - , estão Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, Yitzhak Rabin, ex-premiê israelense, Yasser Arafat, ex-presidente da Autoridade Nacional Palestina, e Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos. Secretário-executivo do p

Fim da Encarta

Acabei de saber que a Microsoft sepultou a Encarta, a primeira enciclopédia feita para a net. Foi vencida pela Wikipedia, enciclopédia gratuita e colaborativa, princípio da Web 2.0 e princípio do conceito de "rede social". A Encarta foi um êxito comercial, mas não pôde competir. Tinha 42 mil artigos, contra 3 milhões de artigos da Wikipedia, só em inglês. O mercado, percebam, não é maior que a sociedade civil associada à internet livre.

Gordon Parks

Gordon Parks foi um dos melhores fotógrafos de todos os tempos. De infância pobre e violenta, mais novo de 15 filhos, foi expulso da casa da irmã mais velha, onde vivia, pelo cunhado. Tinha 16 anos. Uma seqüência de pequenos empregos o levou à fotografia. No início dos anos 1940 começou sua carreira como fotógrafo de moda e, em 1949, foi contratado pela revista Life, onde permaneceu até 1970, reinventando o fotojornalismo com uma perspectiva de cotidiano - que seria a marca dessa revista. Negro, retratou o Harlem, Malcom X e os episódios do racismo como ninguém. Morreu em Nova York em 2006 .

Herançàs à Esquerda 6

Trotsky II Oportunismo e proselitismo. Lambert se apropriou da herança de Trotsky e sabe Deus quanta gente influenciou mundo à fora. A herança de Lambert foi absorvida por François Mitterand, presidente socialista da França de 1982 a 1993 e por Lionel Jospin, primeiro-ministro socialista entre 1997 e 2002 e candidato à presidência da República nesse ano. Com isso, passou de uma esfera de influência comunista para outra, socialista, e, com ela, alcançou o poder. A simples menção do nome de Mitterand provoca calafrios nos franceses. O ex-presidente é lembrando como um grande traidor e a imagem poderosa de um estadista da renovação socialista, imagem que dominou a França por vários anos a partir de 1982, ecoa apenas na lembrança da eficácia de sua publicidade. O socialista Mitterand chegou ao poder com apoio da OCI, ou seja, dos comunistas de Lambert e de setores importantes da burguesia francesa. Autopredestinava-se a estadista e encarnava a imagem de uma França pungente e renovada. Se

Heranças à Esquerda 5

Trotsky I 2008 deixou outra herança a reivindicar: o trotskysmo. Não necessariamente aqui, no Pará da DS – Democracia Socialista, tendência petista trotskysta, à qual pertence a Governadora Ana Júlia e uma parte importante do governo – mas no movimento socialista internacionalista. O que motiva reivindicar essa herança é a morte, em 2008, de Pierre Lambert, líder pretensamente trotskysta de uma muito famosa OCI – Organização Comunista Internacionalista. Em minha opinião, eis aí alguém que morreu e não deixou saudades. A mim, pelo menos, o pensamento de Pierre Lambert soa como oportunismo e proselitismo. Sua própria herança compõe um revisionismo das idéias de Trostky superado apenas pelo pablismo, e de muitas maneiras é dele derivado. Na verdade, falar da herança de Lambert exige falar da herança do pablismo, um movimento revisionista surgido na França no começo dos anos 1950 e que gerou debates calorosos na esquerda mundial. O que quer dizer revisionista¿ Um voltar atrás nas idéias, u

Tour de France

Posts atrás falei algo sobre o Tour de France, competição de ciclismo que dura quase todo o mês de julho e que resulta no principal evento esportiovo da França - e paixão nacional. Há aqui uma excelente coleção de fotos sobre o tema. Permitam que lhes diga que acho engraçadíssima essa "paixão nacional", e não porque não seja capaz de entender o ciclismo, mas pelo cientificismo e tecnicismo da coisa.

Vaticano reabilita Oscar Wilde

O "L'Osservatore Romano", o jornal oficial do Vaticano, fez grandes elogios, recentemente, a Oscar Wilde. Considerou-o "uma das personalidades do século XIX que com mais lucidez analisou o mundo moderno nos seus aspectos perturbadores mas também nos seus aspectos mais positivos" . Estarei eu ficando doido? Estará o Vaticano se modernizando? O "The Times", onde leio essa notícia, ironiza o jornal do Vaticano dizendo que Wilde é "um herói católico tão provável como Pôncio Pilatos" , lembrando também que o padre Leonardo Sapienza, chefe de protocolo do Vaticano, reuniu algumas frases de Wilde numa coletânea de máximas que editou e publicou. Parece que se trata de um movimento pró-ativo (sic) de reabilitação. Mas... chegaremos um dia à beatificação? Lembremos que Wilde, que dizia que "a única forma de nos libertarmos de uma tentação é cedermos a ela" , converteu-se no fim da vida ao catolicismo. E que considerava essa religião como uma

Cahiers tem novo editor

E por falar em filme, os "Cahiers du Cinéma", revista sobre cinema mais influente do mundo, ganhou um novo editor. Stéphane Delorme tem 35 anos e é colaborador da revista desde 1998. Integra o conselho editorial da publicação há oito anos. Ele também é um dos cidadãos que todos os anos indicam os filmes que vão ser exibidos na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Até 1998 os Cahiers foram publicados pelas Editions de l'Etoile. Nesse ano o título foi comprado pelo grupo Le Monde, que tentou, em 1999, fazer alterações editoriais com o objetivo de tornar a revista mais vendável. Essas mudanças incluiam a publicação de textos sobre televisão e sobre tecnologia. A confusão foi enorme. Alguns redatores ensairam uma greve e os leitores fizeram um movimento que piupocou pelo mundo todo. Em fevereiro deste ano, o grupo Le Monde vendeu os Cahiers ao grupo Phaidon Press.

Bancos híbridos

P or falar em bancos públicos. O Valor Econômico lançou recentemente um caderno especial sobre o assunto. Nele, o economista Dean Baker diz que a proposição neo-liberal de que tudo deve ser privatizado já foi ultrapassada. O economista defende a idéia de que bancos públicos podem funcionar bem e se tornar um importante mecanismo de promoção do desenvolvimento. Na crise, os bancos publicos teriam, diz, um "papel anticíclico". O que não faz uma crise... Uma das coisas que ele discute é a idéia de bancos híbridos, ou seja, com capital público associado ao capital privado, atuando fortemente em determinados setores considerados estratégicos. No horizonte desse modelo estaria um estratagema para estimular a concorrência. Veja aqui .

Um banco chileno

O BancoEstado é o único banco público do Chile. Foi fundado em 1953 com a função de promover a inclusão social. Na ditadura Pinochet teve uma ação espúria mas, desde a redemocratizão, nos anos 1990, recuperou essa missão e funciona de maneira inovadora. Sua estratégia é clara: fornecer à população mais carente e às micro e pequenas empresas todo o cardápio possível de serviços bancários. O carro-chefe de seus produtos, obviamente, é a poupança. O banco possui 7 milhões de contas-poupança, o que equivale a 80% dos poupadores do país. Em 2008 obteve superávit de US$ 200 milhões. Outro produto de sucesso é a Cuenta RUT, uma moedeira eletrônica voltada para pessoas de baixa renda e disponível para mulheres a partir dos 12 anos de idade (e para os homens a partir dos 14 anos) que funciona com a carteira de identidade. Extremamente simples. 1,5 milhão de chilenos usam o serviço. O BancoEstado é especialista em micro-crédito. Entre janeiro e março de 2009 emprestou US$ 7,34 bilhões, uma parte

O projeto do Vale-Cultura

Lula enviou ontem, ao Congresso, o p rojeto de lei que cria o Vale-Cultura. Com ele, por meio de um cartão magnético, os trabalhadores poderão adquirir ingressos de cinema, teatro, museu, shows, livros, CDs e DVDs, entre outros produtos culturais. As empresas que declaram imposto de renda com base no lucro real poderão aderir ao Vale-Cultura e oferecer até R$ 50,00 por funcionário, ao mês, com direito a deduzir até 1% do imposto de renda devido. Os trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos arcarão com, no máximo, 10% do valor (R$ 5,00). Os trabalhadores que ganham mais de cinco salários mínimos poderão receber o Vale-Cultura, desde que garantido o atendimento à totalidade dos empregados que ganham abaixo desse patamar. Para esse contingente de salário mais elevado o desconto do trabalhador poderá variar de 20% a 90%. A iniciativa pode aumentar em até R$ 600 milhões/mês ou R$ 7,2 bilhões/ano o consumo cultural no país. Os números de exclusão ao consumo e ao direito cultural r

Heranças à Esquerda 4

O Cristianismo revolucionário. Entender o que chamei, no post anterior, de potencial revolucionário da Igreja significa entender a diferença entre as crenças presentes no mundo onde o cristianismo nasceu e cresceu e a mensagem inovadora trazida por ele. Entender essa diferença significa entender em que medida a doutrina cristã pregava uma revolução social. As sociedade pré-cristãs, aí incluídas a intersubjetividade presente na Grécia, no Mediterrâneo, na Palestina, no Crescente Fértil, na Ásia Menor e no Egito, tinham algo em comum no que se refere a suas práticas religiosas: a percepção de que a alma não era algo inerente a todo ser, e sim algo em estado bruto ou fugidio, que poderia, no entanto, ser aperfeiçoado, construído, merecido. A esses homens era absolutamente chocante a idéia de que todos os homens teriam alma, de que todos os homens eramn iguais perante Deus, pregação básica e, por tudo isso revolucionária, que o cristianismo trouxe. Perceba-se que quando digo revoluci

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

Leonardo Boff publicou recentemente um pequeno texto no qual, analisando a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate, publicada em 7 de julho último, chega a uma conclusão deliciosa: “Que falta faz ao Papa um pouco de marxismo!”. Em síntese, seu raciocínio é o seguinte: A Igreja admite a crise e o ciclo de crises, vê-se em meio da crise, posiciona-se em relação à crise. Porém, não é capaz de compreender a sistematicidade de toda forma de crise. Então, sua análise e sua posições ficam soltas, flutuantes. “Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permance principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central – o desenvolvimento – hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

Leonardo Boff publicou recentemente um pequeno texto no qual, analisando a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate, publicada em 7 de julho último, chega a uma conclusão deliciosa: “Que falta faz ao Papa um pouco de marxismo!”. Em síntese, seu raciocínio é o seguinte: A Igreja admite a crise e o ciclo de crises, vê-se em meio da crise, posiciona-se em relação à crise. Porém, não é capaz de compreender a sistematicidade de toda forma de crise. Então, sua análise e sua posições ficam soltas, flutuantes. “Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permance principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central – o desenvolvimento – hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é

Kitsch moon

Num momento em que todos os veículos de comunicação não deixam de exaltar os 40 anos da chegada do homem à Lua não esqueçamos, nós, de lembrarmos o papel desse feito para a conquista do kitsch.

Crises e crises

Uma das vítimas da crise econômica foi a própria teoria econômica, ou, mais precisamente, a macroeconomia. Quem diz é a última edição de The Economist. Vejam só . O texto cita Paul Krugman, nobel de economia 2008 que, polemicamente, afirmou que a macroeconomia, nos últimos 30 anos, foi na melhor das hipóteses inútil. E, na pior delas, prejudicial. Krugman também diz que é necessário que o macro inclua no seu inventário de análise o elemento “finanças”, e que o contrário também aconteça. Eis uma lição preciosa: não se governa com números se os números não são verdadeiros e nem precisos. Tem que haver uma correlação, as finanças públicas têm que compreender o Estado, o político, o real e o projeto.

Fora Sarney!

Tem uma hora que tem que parar. Depois do Jornal Nacional de ontem , ou todos tomam vergonha na cara ou só mesmo com benzina. 663 atos secretos, uma família da pesada (os Sarney), um mordomo de ficção noir (Agaciel), 219 cargos comissionados suspeitos, um partido sem vergonha alguma (PMDB) e outro beirando o constragimento absoluto (PT) e agora... isso? BIA SARNEY: Oi, pai! FERNANDO SARNEY: Diga, meu bem. BIA: Ai pai, tô adorando meu telefone. FS: Por quê? BIA: Porque ele é muito bom. FS: É o Iphone? BIA: É. Nossa, tem muitas funções, ele é ótimo FS: É isso aí, só falta falar. BIA: Hein, pai, deixa eu perguntar uma coisa. Meu irmão saiu do Senado, né. Vai sair a exoneração amanhã. Ele arranjou um emprego melhor. Até ganha menos, mas pra carreira dele é melhor. Aí ele resolveu sair, né. Aí você acha que dá pro Henrique (seu namorado) entrar na vaga dele ou não? FS:Podemos trabalhar isso, sim. BIA: A exoneração dele vai sair amanhã. FS: Não, dá, sim, mas amanhã

Banqueiros orgiásticos

Vejo-os juntos, banqueiros e economistas burgueses, uns pensando que são os outros, meio bêbados, abraçados em torno de uma farta mesa, cantarolando: « Mangeons, buvons, soyons joyeux, car demain nous mourrons! » Estarei eu lendo um conto de Gogol?

Marx irônico

Marx dizia que o ideal dos capitalista é produzir capital somente com o capital. Isto é, sem ter que passar pela rigorosa, desgastante e perigosa etapa da produção. Os economistas burgueses que leram Marx acham isso bonito. Eles não compreendem, mas era uma ironia.

Algo pior

Mas convenhamos, há algo pior do que os economistas burgueses, que se pensam banqueiros: são os banqueiros que se pensam economistas burgueses.

Economistas burgueses

Economistas o mundo os têm aos punhados. Professores de economia as faculdades de economia os têm às pancadas. A maioria deles se toma por banqueiros. Essa maioria conforma um psicotipo universalmente disseminado: o economista de índole burguesa. O que os caracteriza? A idéia de que toda crise é provocada por falta de dinheiro, e não o contrário, ou seja, toda crise é que provoca, isso sim, a falta de dinheiro. Um economista burguês confunde causa com efeito. E essência com aparência. Podemos chamar a isso de metafísica da moeda.

Lições de política: Koizumi 5

Não, há ainda um outro comentário a fazer sobre o trabalho de Koizumi. Diz respeito ao tema da privatização como aspecto das políticas neoliberais. Koizumi demonstrou o que nosso camarada José Raimundo Trindade, secretário de fazenda do governo Ana Júlia, teorizou numa oportunidade, meses atrás. Não é normal que eu concorde com o Zé, mas o fato é que ele tem tiradas interessantes e uma delas vai na direção da experiência de Koizumi. Disse Zé, e Koizumi demonstrou, que o verdadeiramente ruim não é a privatização dos serviços públicos, mas sim a patrimonialização dos mesmos. Ou seja, a transferência do serviço público a empresas privadas que, normalmente, possuiam uma relação com a estrutura de classe, com a estrutura política que estava ocupando o poder. Isso viu-se no Japão durante todos os anos 1990, quando a receita neo-liberal foi ali praticada e isso viu-se na experiência central e visceral do PSDB no Brasil e no Pará: a privatização servir de pretexto à patrimonialização do bem e

Lições de política: Koizumi 4

Um último comentário sobre Koizumi. Sua postura política é centrista e moderada e muitos dos ideais que nortearam suas reformas foram gerados por uma variação do neo-liberalismo, precisamente aquela que desponta, em Londres, e na London School of Economics, como uma tentativa da racionalização do trabalhismo inglês. Koizumi vinha dessa formação e estava afeito às experiências do trabalhismo na sua fusão relativa com o neo-liberalismo. De maneira alguma Koizumi pode ser descrito como um político de esquerda e nem, tampouco, suas reformas o foram reformas de esquerda. Mas foram reformas civilizatórias. Ou seja, o tipo de reformas que precisa ser feita quando tem-se sociedades cuja dinâmica econômica ou social espelha o absurdo. Era o caso do Japão, do Brasil e muito particularmente do nosso Pará. Reformas civilizatórias. Somente uma reforma civilizatória pode responder ao problema máximo, absoluto e total que é o problema da distribuição de renda.

Lições de política: Koizumi 3

Quais as lições de Koizumi? Soube escolher, de maneira clara, qual sua base de apoio, no caso o apoio popular. Corajosamente, optou pelo apoio popular e não pelo apoio político, ou seja, o apoio do partido, dos demais partidos da base de apoio, dos burocratas e dos grandes empresários financiadores das campanhas. Isso garantiu que pudesse implementar um vasto programa de reformas e permitiu que permanecesse no posto durante cinco anos, num país onde os primeiros-ministros não duravam sequer um ano no poder, nos últimos 30 anos. E foi com essa escolha clara da base de apoio que Koizumi pôde impletar não somente reformas importantes mas, também, convencer a população de que essas reformas, por dolorasas que fossem, eram necessárias. Lição 1: definir claramente com quem governamos. Não fazer jogo duplo. São estes os nossos aliados? Então são estes os nossos aliados. E ponto final. Governar com eles. Lição 2: não fazer reforma pela metade. O que tem que ser feito, dizia minha amiga Paola

Lições de política: Koizumi 2

Junichiro Koizumi diplomou-se pela prestigiosa Universidade Keio e estava fazendo o doutorado na London School of Economics quando seu pai, deputado no parlamento nacional japonês, a Dieta, morreu, em 1969. Concorreu nesse mesmo ano ao assento do pai, mas não teve êxito. Em 1972 conseguiu ser eleito e permaneceu no parlamento desde então. Foi ministro da justiça em 1988 e no período 1996-97. Quando assumiu, definiu o Japão como um país "viciado em dívidas". Orçamentos fora de controle levavam a um déficit público equivalente a 10% do PNB. O governo tomava dinheiro empresato na velocidade permanence de US$ 40 milhões por hora. E isso para quê? Para custear o ciclo de investimentos que referimos acima: proteção de empresas incompetentes, num meterno ciclo de proteção dos investimentos de classe. O que fez: formou um gabinete técnico, evitando as pressões políticas; diminui radicalmente o custeio do governo; diminuiu o poder da burocracia oficial, viciada nas velhas práticas de

Lições de política: Koizumi

Junichiro Koizumi foi primeiro ministro do Japão de 2001 a 2006. A base do seu poder político e, ao mesmo tempo, a sua contribuição central para a sociedade japonesa, foi sua capacidade de reestruturar, simultaneamente, o PLD - Partido Liberal Democrático - e o sistema nacional de investimentos públicos. Sua lição política: reformar é construir o poder. O raciocínio é simples: quando se reforma, realmente, algo, se tem a faculdade de reordenar as estruturas sociais de poder antes presentes. Por mais conservadoras que sejam. Mas é importante realmente reformar. E quando falo reformar não estou dizendo nem fazer um arranjo superficial e nem fazer uma mudança profunda que mantenha as coisas no mesmo lugar. E isso faz muito sentido no Japão, porque o Japão, em termos de política, é uma avacalhação. Pensem no Senado Brasileiro. Ok, talvez não seja pior, mas é uma avacalhação. O PLD, por exemplo, é uma excrescência política em forma de partido. Nada tem de liberal e nada tem de democrático,

81 suicídios por excesso de trabalho

81 pessoas cometeram suicídio, em 2007, no Japão, por excesso de trabalho. Outras 952 pessoas formalizaram uma demanda, ao Ministério do Trabalho e da Proteção Social, para que fossem reconhecidas como “deprimidas por excesso de trabalho”. Isso representa um crescimento de 16,2% em relação a 2006. 268 obtiveram o solicitado. Dentre estas, 20 delas faziam até 119 horas suplementares por mês. 142 pessoas falecidas, ademais, foram reconhecidas oficialmente como “mortas por excesso de trabalho”. A Constituição japonesa de 1945 garantia direitos trabalhistas importantes. Porém, os anos 1980, na esteira neoliberal, foram brutais para as condições de vida dos trabalhores e para a segurança social. Neoliberalismo, seguido por estagnação e por recessão levaram à votação, em 1999, de um pacote de leis favorecendo a liberalização do sistema de contratações. O patronato adorou o pacote, poise le reduzia do custom salarial em 22%. Ademais, permitia a contratação temporária. Como o que é bom para

Crise e desemprego no Japão

Outra pesquisa feita pelo Ministério do Trabalho e da Proteção Socialo Emprego do Japão informa que, em janeiro 2008, antes da crise, portanto, havia 18.564 sem-abrigo “habitando” parques e praças públicas, bem como nas margens dos rios que cortam a cidade de Tóquio. Sua idade média é de 57,5 anos, mas há diversos menores entre eles. Desse número, 31,4% se encontravam na situação de desamparo social porque perdem o emprego, 26,6% ficaram desempregados após a falência da empresa onde trabalhavam. Com a crise, o governo estima um aumento de 25% nos índices de desemprego, na cidade de Tóquio.

Lado B da imprensa

A Época desta semana está ridícula. Ela reduz as falcatruas e a sem-vergonhice do Sarney a um “problema com os filhos”, como se o que lhe coubesse fosse se envergonhar as improbidades feitas pelo filho e como se nada tivesse a ver com elas. E, pior, a capa e a reportagem principal da revista reforçam subliminarmente essa idéia com uma matéria sobre “O lado B da adoção”, a qual trata, sem veleidades, das dificuldades de relacionamentos com filhos adotados que entram na adolescência. Um tema importante, mas utilitariamente reduzido aos interesses políticos da revista. O título da matéria sobre os Sarney dá o tom que será encontrado no corpo do texto: “O perigo mora dentro de casa”. E o subtítulo também: “A investigaçãon da Polícia Federal sobre os negócios do filho Fernando Sarney volta a ameaçar o presidente do Senado, José Sarney”. Como se o filho do presidente tivesse agido por conta própria. Como se pudesse agir sozinho. Como se seu pai não fosse o presidente do Senado e ex-Presi

Outros futuros para o jornalismo 2

The Printed Blog é um jornal gratuito, como o Metro. Tem um formato parecido e é distribuído de modo parecido, nos mesmos locais e horários, nas cidades de Chicago e São Francisco. No entanto, tem uma inovadora diferença: seu conteúdo é produzido por blogueiros e por cidadãos-repórteres. Cerca de 300 produtores de conteúdo participam do projeto, cedendo material com “alguns direitos reservados”. Duas observações: 1) A proposta tem certo ar de retrocesso: parece fundir o padrão noticioso dos blogs com a “palpabilidade” do impresso, e isso, em vez de representar uma solução criativa para os impasses do jornalismo parace, melhor, representar uma solução criatva para para os impasses da indústria jornalística; 2) A proposta vilipendia a profissão de jornalista (e nisso parece, mais uma vez, estar a sewrviço dos impasses da empresa jornalística), pois os substitui por não profissionais .

Outros futuros para o jornalismo 1

Vejam Spot.us . Nesse site você ajuda a patrocinar as reportagens que considera importantes. Você escolhe o que será feito pelos jornalistas. O princípio é fazer com que a sociedade civil escolha e financie as reportagens e matérias. De forma que a empresa jornalística não exerça o poder de controlar o debate na esfera pública e, como é de praxe, defenda os próprios interesses. Teoricamente, o jornalismo assim praticado resgata sua função mítica de atender aos interesses sociais. Três observações sobre a proposta: 1) Assim praticado, o jornalismo perde a capacidade de noticiar novidades, não mais dá “furos”, não mais informa em “primeira mão”; 2) Também perde, dessa forma, a sua capacidade crítica, de emitir opinião, de editorializar e de ajudar a construir a racionalização do assunto; e 3) Não obstante, ajuda a resolver o problema da remuneração dos jornalistas no processo de weberização dos jornais.

Heranças à Esquerda 3

1968 II 1968 completou seu 41º aniversário (e eu com ele, embora dias depois, em junho). Não me parece sensato dizer que qualquer de nós, a rebelião e a pessoa, já tenhamos chegado à idade da razão. Desde o ano passado, quando, pela ocasião do 40º aniversário tanto se disse a respeito, tenho refletido sobre o movimento e sobre o tratamento dado a ele. Lendo o que se disse a respeito, a impressão que fica é a de que a palavra fundamental, a que está presente em todos os artigos e reportagens, é a mesma, justamente, que Nicolas Sarkozy utilizou, como disse em meu segundo artigo desta série: herança . E isso quer dizer muitíssimas coisas. Inclusive no que se refere ao título desta série. Há um longo costume em nos reportarmos às heranças desses anos que fizeram revoluções. Muito se fala sobre as heranças de 1789, 1846 e 1917. Há quem fale na herança de 1989. Porém, a respeito da herança de 1968, parece pairar uma sombra de dúvidas. Qual seria, precisamente, essa herança? Para uns,

Razões para ir ao Ceará

Todos sabemos que os paraenses vão ao Ceará para banhos de mar e para a compra de panos e artefatos conexos. Alguns vão também visitar parentes, já que, como também sabemos, as relações familiares entre estes dois estados são antigas e valiosas. Eu, por mim, vou porque tenho amigos. Até gosto de banhos de mar, ainda que não suporte sol forte e praia cheia de gente, mas odeio fazer compras, sobretudo de panos. Vou ao Ceará, como disse, porque tenho amigos. Marina, minha esposa, assinalou-me isso enquanto estávamos almoçando, com amigos, no “Bar do Ciço”. Disse-me que eu tinha ali o que não tenho mais em Belém: o bater papo descompromissado e descontraído, sem precisar chegar a algum lugar ou a alguma conclusão. É, de fato, sem desejar generalizar e falando apenas de minha experiência, as possibilidades de diálogo que venho tendo, em Belém, há muitos anos, são excessivamente limitadas. De um lado, espécimes de uma elite rentista e inculta, sempre preconceituosos e ignorantes, obscureci