Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Novembro, 2013

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente entre nós e as palavras há hélices que andam e podem dar-nos a morte violar-nos tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo entre nós e as palavras há perfis ardentes espaços cheios de gente de costas altas flores venenosas portas por abrir e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício Ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida há palavras de morte há palavras imensas, que esperam por nós e outras, frágeis, que deixaram de esperar há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição Entre nós e as palavras, surdamente, as mãos e as paredes de Elsenor E há palavras e nocturnas palavras gemidos palavras que nos sobem ilegíveis à boca palavras diamantes palavras nunca escritas palavras impossíveis de escrever por não termos connosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e o

Lição de persistência

A common list of the failures of Abraham Lincoln (along with a few successes) is: •1831 - Lost his job  (failure) •1832 - Defeated in run for Illinois State Legislature (failure) •1833 - Failed in business  (failure) •1834 - Elected to Illinois State Legislature (success) •1835 - Sweetheart died  (failure) •1836 - Had nervous breakdown  (failure) •1838 - Defeated in run for Illinois House Speaker  (failure) •1843 - Defeated in run for nomination for U.S. Congress  (failure) •1846 - Elected to Congress (success) •1848 - Lost re-nomination  (failure) •1849 - Rejected for land officer position  (failure) •1854 - Defeated in run for U.S. Senate  (failure) •1856 - Defeated in run for nomination for Vice President  (failure) •1858 - Again defeated in run for U.S. Senate  (failure) •1860 - Elected President (success)

Borges y yo

É ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto dos relógios de areia, dos mapas, da tipografia do século XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver no outro

Lições de Zen

O aluno diz que não tem medo. O mestre não só diz que não tem medo como afirma categoricamente também que não tem medo de ter medo. A primeira afirmação provém de uma mente que está fechada sobre si própria, uma mente que se atém a preconceitos e a pontos de vista pré-definidos, uma mente a 180º.  A segunda frase tem origem numa mente livre, etérea, não restrita - uma mente a 360º, capaz de não ter preconceitos nem sequer o preconceito de que não devem existir preconceitos. Sabedorias tradicionais.

Poema destinado a haver domingo

Poema destinado a haver domingo Bastam-me as cinco pontas de uma estrela E a cor dum navio em movimento E como ave, ficar parada a vê-la E como flor, qualquer odor no vento. Basta-me a lua ter aqui deixado Um luminoso fio de cabelo Para levar o céu todo enrolado Na discreta ambição do meu novelo. Só há espigas a crescer comigo Numa seara para passear a pé Esta distância achada pelo trigo Que me dá só o pão daquilo que é. Deixem ao dia a cama de um domingo Para deitar um lírio que lhe sobre. E a tarde cor-de-rosa de um flamingo Seja o tecto da casa que me cobre Baste o que o tempo traz na sua anilha Como uma rosa traz Abril no seio. E que o mar dê o fruto duma ilha Onde o Amor por fim tenha recreio. Natália Correia Poesia Completa - Publicações Dom Quixote - 1999