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Mostrando postagens com o rótulo Política Internacional França

Sobre Giscard d’Estaing

A Covid acabou de levar, também, Valéry Giscard d’Estaing, presidente da França entre 1974 e 1981. A primeira história que escrevi na vida, creio que em 1976, aos 8 anos, narrava os diálogos entre um galo, chamado Pierre Cocovan, e ele. Infelizmente perdi o manuscrito... mas guardo de memória as gargalhadas de meu tio Arcelino Esperante, que a adorou – contra as expectativas de meu avô José, que esperava que eu escrevesse um conto de capa e espada e de meu pai, que desejava que eu escrevesse uma poesia de denso lirismo.  Mas voltemos a Giscard d’Estaing. Era um sujeito curioso: liberal e reformista, conservador mas pertencente a um tempo onde a direita ainda conseguia produzir gente responsável, comprometida com a melhoria da qualidade de vida da pessoas e com a justiça social.  Além disso, foi um internacionalista, um dos agentes centrais da construção da União Europeia. Oriundo da alta burguesia e da École Nationale d’Administration, o ENA, instituto francês de excelência na...

Sobre a vitória de Macron na França

A vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais da França só oferece um motivo de comemoração: ter derrotado Marina Le Pen. Trata-se do famoso “menos pior”.  No cenário político, Macron ocupa uma posição, digamos assim, de “extremo centro”. Participou do governo socialista, é certo, mas antes foi banqueiro dos Rotschild. Propõe um plano de investimentos sociais de 50 milhões de euros, é certo; mas também um corte de 60 milhões de euros no orçamento. Deseja reformar o Código do Trabalho para dar mais garantias ao trabalhador, mas ao mesmo tempo promete extinguir 120 mil empregos públicos e cortar 10 milhões de euros no orçamento do seguro-desemprego. Querem mais? Promete investir 15 milhões de euros na transição energética para um modelo sustentável, mas não deseja abandonar o modelo nuclear (a França tem 58 reatores nucleares em atividade). Como eu dizia: Macron é o extremo centro. O seu primeiro ministro, que deve ser anunciado dentro de alguns dias, d...

Sobre Christiane Taubira

“As vezes, resistir significa ficar. E as vezes significa partir. Por fidelidade a si mesmo”. Foi com esse tweet que Christiane Taubira, ministra da justiça da França, anunciou que saia do governo, que deixava o gabinete do primeiro-ministro Manuel Vals e, portanto, o governo Hollande. Taubira era a fiadora do governo Hollande. A caução socialista de um governo que prometeu ser socialista e não saiu do centro. Somente por causa dela, moralmente falando, o governo Hollande continuava sendo de esquerda. Sou seu fã. Mais um, porque há muitos. Acompanhei seu ministério com curiosidade e até mesmo com encantamento. É raro fazer política como ela faz: com extrema sinceridade e simplicidade. E evidentemente com fidelidade, tal como ela coloca no tweet. Nascida na Guiana Francesa, aqui ao lado, foi eleita para a Assembleia Nacional francesa, pelo Partido Socialista em 1993 e, em seguida, deputada ao Parlamento Europeu. Sem que a pauta estivesse combinada com ninguém, iniciou uma c...

Sobre as eleições na França

As eleições regionais francesas, que tiveram seu segundo turno ontem, à parte terem demonstrado um expressivo crescimento dos votos na ultra-direita, o Front National (FN), também demonstraram a capacidade das forças políticas locais se unirem, numa situação de risco, para combater esse grande mal. O FN é o grande mal. É um partido facista, com posturas radicais e proposições racistas, mas que dissimula sua identidade por meio de uma máquina de comunicação. Como disse o jornal Le Monde, o mais importante do país, no dia seguinte ao primeiro turno, em seu editorial de capa, o Front National é “uma grande impostura”. Eu estava em Paris no domingo retrasado, quando ocorreu o primeiro turno dessas eleições. Na França o 2 o turno ocorre 7 dias apos o 1 o turno. Vi o avanço do FN, que venceu o 1 o turno em 6 das 13 regiões em disputa. Mas vi também, imediatamente, a mobilização dos agentes políticos para barrar esse avanço. Na região do Pas-de-Calais-Picardie, por exemplo, onde a...

Paridade entre homens e mulheres nos postos políticos avança na França

Dados do jornal Le Monde: a paridade homem/mulher na política avança na França. Nas eleições de 2007 as mulheres ocuparam 18% das cadeiras da Assembléia Nacional; nas eleições deste ano elas chegaram a 25%. São 155 deputadas num total de 620 pessoas. Sua melhor representação é no Partido Socialista, do presidente François Hollande: 103 mulheres e 176 homens, ou seja, 36,9%. Cabe lembrar, no entanto, que Hollande garantiu a paridade de 50% para mulheres e homens na composição do primeiro escalão de seu governo. No partido do ex-presidente Sarkozy, a UMP, são apenas 27 mulheres, que se somam a 158 homens, o equivalente a 14,6 %. A paridade foi alcançada apenas pelo Partido Verde: 9 homens e 9 mulheres. Já o Partido Centrista tem apenas 1 deputada, que atua junto com seus 28 deputados. >> Les groupes de l'Assemblée :  Europe  Ecologie-Les Verts ( EELV ), Gauche démocrate et républicaine (GDR), non inscrits (NI), groupe Radical, républicain, démocrate et p...

Uma França sem professores?

Enquanto prossegue a greve nas universidades federais e o debate sobre a educação, em geral, tende a ser - mais uma vez - um dos temas importantes das campanhas municipais deste ano, a França começa a enfrentar um problema grave a falta de candidatos às vagas de professores, em seu sistema de ensino básico e médio. É o que diz um editorial publicado ontem no Le Monde. Uma França sem "profs"? - pergunta o jornal, lembranmdo que o país, desde a reforma do ensino, em 1872, "foi construído, principalmente, por seus professores". Os números que motivam a indagação são os seguintes: dos 4.847 postos abertos em 2012 na educação nacional, cerca de 15% ficaram sem ser preenchidos. E foi ainda pior no ano passado, que teve uma taxa de 20% de não preenchimento. Num país que pode ser considerado um dos que mais investe em educação no planeta, num país onde a sala de aula é, talvez, a principal mitologia da identidade nacional, sacralizada pela literatura, pelo...

O debate entre a Europa restritiva de Merkel e a Europa progressista de Hollande em um foto

A questão que toda a Europa se faz: A França socialista de François Hollande vai ceder às pressões da Alemanha?

Eleições na França 37: O que as eleições na França ensinam à política brasileira?

Sugiro leitura do artigo da jornalista Juliana Medeiros no blog Substantivu Commune sobre o processo eleitoral francês. Como ela diz, é muito bom poder olhar para as experiências dos outros e aprender com elas. Alguns trechos: Pode parecer distante, mas acompanhar os debates entre candidatos na França é uma grande lição para nós brasileiros. Recomendo a quem tiver interesse, buscar os textos dos discursos (alguns disponíveis em português na internet) dos candidatos François Hollande, Jean-Luc Menlechón, Marine Le Pen e do agora derrotado Nicola Sarkozy. Com todas as demonstrações de intolerância e xenofobia dos dois últimos, a corrida eleitoral francesa é uma aula de democracia, soberania e de autonomia do seu povo. (...) Nenhum candidato na França [pode] prescindir de uma profunda formação política, do conhecimento detalhado das políticas públicas contidas em suas propostas, do domínio do discurso – não como mera ferramenta de retórica eleitoreira – mas sim de convencimento de...

Eleições na França 36: Edgar Morin e François Hollande. Trechos de uma conversa 2

Devemos acreditar na globalização ou iniciar numa desmundialização? Edgar Morin : A competição é uma coisa natural, mas a competitividade leva as empresas a substituirem trabalhadores por máquinas e a oprimi-los com novos constrangimentos. A exploração econômica contra a qual os sindicatos lutavam foi superada por uma nova alienação, ditada por padrões de produtividade e eficiência. É necessário uma política de humanização da economia desumanizada. Também é preciso retomar um controle humano, ético e político sobre a ciência. No que diz respeito à globalização pode-se, certamente, saudar seus efeitos sobre a integração econômica de países periféricos e sobre a melhorar da qualidade de vida de países subdesenvolvidos. Nesse sentido a deslocalização pode ter desempenhado um papel útil. Porém, face aos excessos de deslocalização e à desertificação do nosso setor industrial, há medidas de proteção a serem tomadas. Portanto, devemos tanto globalizar como desglobalizar. Valorizar ...

Eleições na França 35: Edgar Morin e François Hollande. Trechos de uma conversa.

Qual a sua concepção de esquerda? Edgar Morin :  Para mim, se trata de retornar a essas três idéias motrizes típicas do século XIX: libertarismo, socialismo e comunismo. Essas três idéias se distanciaram e se combateram, ao longo da história. A idéia comunista de degradou nas suas versões stalinista e maoista; a social-democracia se deixou ressecar; quanto ao libertarismo, ele continua isolado, numa franja da esquerda radical. Precisamos, hoje em dia, regenerar essas três correntes e relacioná-las, de maneira a estimular as pessoas a abrirem suas mentes para o projeto de uma sociedade melhor e para a fraternidade. E eu também acrescentaria uma quarta idéia motriz, própria do nosso tempo: a ecologia. Nosso futuro dependente do nosso esforço para proteger, de maneira relacionada, a natureza e a nossa natureza humana. François Hollande : Essas três ideias motrizes atravessaram, realmente, processos de murchamento, de ressecamento, mas elas continuam vivas. A família ...

Eleições na França 34: Os compromissos de Hollande

O programa do socialista François Hollande, contém 60 medidas para mudar para a França. Algumas das principais: Emprego - Criar 150.000 postos de trabalho e 500.000 "contrato de gerações", empregando jovens e idosos. Como estes últimos serão conseguidos? A proposta é que empresas que contratam um jovem trabalhador e mantêm um veterano empregado terão grande redução, ou mesmo isenção, do pagamento de suas contribuições sociais. Além disso, promete aumentar os encargos sociais para as empresas que abusam dos contratos precários. Poder de compra - O salário mínimo será atualizado a cada ano, de acordo com o crescimento do PIB e não mais de acordo com a inflação.  Custos públicos - Redução imediata, em 30%, do salário do próprio Presidente e ministros, fazendo-os coincidir com o salário dos dirigentes de empresas públicas.  Educação -  Contratar 60.000 profissionais da educação em cinco anos, reduzir para metade o insucesso escolar, melhorar os salári...

Eleições na França 33: Pela primeira vez numa eleição nacional, a esquerda ganha em Paris

Em azul, o oeste de Paris votou Sarkozy. O voto Hollande, em rosa, à leste.

Eleições na França 32: Como vai se montar o futuro governo socialista

O provável primeiro ministro de François Hollande será o líder socialista na Assembléia Nacional, o deputado Jean-Marc Ayrault. Seria a escolha mais óbvia, porque Ayrault, ao mesmo tempo, é uma voz de união, influente no partido e próximo a Hollande. A preferência dos franceses, porém, segundo sondagem realizada por um institutos de pesquisa, recaia sobre Martine Aubry, que disputou com Hollande a indicação do partido como candidata presidencial. Outras duas possibilidades de peso seriam Manuel Valls, líder socialista que fez crescer sua influência durante a campanha e Pierre Moscovici, antigo ministro da economia, no gabinete de Lionel Jospin, que foi o coordenador da campanha. Desses nomes, independentemente de quem será o Primeiro Ministro, o certo é que os demais exercerão um papel central no futuro governo. Além deles, outros socialistas também terão voz (e cargos). Vincent Peillon será, muito provavelmente, ministro da Educação. Jean-Yves Le Drian, ministro da De...

Eleições na França 31: Perfil do voto

Uma pesquisa do Instituto Ipsos, realizada sob encomenda do jornal Le Monde em parceria com France Télévisions, Radio France e revita Le Point, realisada ontem mesmo, dia da eleição, com 3.100 pessoas, constatou a seguinte sociologia do voto francês: Por idade: Entre os 18-24 anos: 57% Hollande e 43% Sarkozy. Entre os 25-34 anos: 62% Hollande e 38% Sarkozy.  Entre os 35-44 anos: 53% Hollande e 47% Sarkozy.  Entre os 45-59 anos: 56% Hollande e 45% Sarkozy.  Entre os +60: 41% Hollande e 59% Sarkozy.  Por profissão Artesãos e comerciantes: 30% Hollande e 70% Sarkozy. Profissionais liberais: 52% Hollande e 48% Sarkozy. Profissionais intermediários: 61% Hollande e 39% Sarkozy. Empregados: 57% Hollande e 43% Sarkozy. Operários: 58% Hollande e 42% Sarkozy. Aposentados: 43% Hollande e 57% Sarkozy. Por renda Entre os que ganham menos de 1.200 euros/mês: 59% Hollande e 41% Sarkozy. Entre os que ganham entre 1.200 e 2.000 euros/mês: 56% Hollande...

Eleições na França 30: O que significa a vitória dos socialistas do ponto de vista da comunicação política

Antes de mais nada, é preciso considerar que há 17 anos os socialistas não ocupam a presidência da república. Desde os dois mandatos (1982 e 1988, cada um com 7 anos) de François Mitterand, os socialistas foram atores políticos incisivos, centrais, na política francesa, mas não ocuparam a presidência. Houve, é certo, o momento em que, com o gabinete Lionel Jospin, durante o primeiro mandato de Jacques Chirac, comandaram o governo, mas isso não diminui a distância de 17 anos apartados do poder. Além disso, nos últimos dez anos, não houve a “co-habitação” – o fenômenos em que a presidência da República é ocupada por um partido, mas a maioria do Parlamento indica um Primeiro Ministro que é de outro partido. Outra data que pesa: François Mitterand, o primeiro presidente socialista da V República francesa, foi eleito, há 31 anos e reeleito há  24 anos. Ou seja, há 24 anos os socialistas não vencem a eleição mais importante do país. Essas datas têm peso, porque indicam que a ch...

Eleições na França 29: O debate de ontem

Assisti ao debate entre os candidatos à presidência francesa, ontem a noite. O nível de violência verbal foi elevado - na internet, a repercussão foi de que nunca um debate presidencial fôra tão agressivo.  A mídia hegemônica tentou fixar, hoje cedo, a ideia de que "Hollande tentou manter uma postura presidencial e inabalável, mas acabou por ficar nervoso". Sarkozy o chamou repetidas vezes de mentiroso e duvidou sistematicamente dos números apresentados pelo socialista, mas a postura de Hollande foi impecável e ele conseguiu manter a fleuma de estadista. Era Sarkozy, e não Hollande, que olhava a todo tempo para os debatedores, evitando o olhar fixo de Hollande sobre si, por exemplo. Apesar de seus ataques, Sarkozy guardou a defensiva. Foi pautado por Hollande. Passou a maior parte do debate "correndo atrás".  E, no momento daquela litania de Hollande, quando ele repetiu 16 vezes a frase "eu, presidente da França..." (ver o vídeo acima) , numa ...

Eleições na França 28: 3 denúncias abalam a campanha de Sarkozy

Três denúncias assombram Sarkozy nos últimos dias: a denúncia de que autorizou a venda de submarinos franceses ao Paquistão no valor de 825 milhões de euros e pagamento de cerca 75 milhões de euros, em suborno. Sarkozy era Ministro da Fazenda e é acusado de ter se beneficiado da propina.  a denúncia de que a ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Bettencourt, uma das herdeiras do império de perfumes L'Oreal, que esteve por longo tempo sequestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs) teria feito uma generosa doação de 150 mil euros para sua campanha, em 2007. a denúncia de que Muamar Kadafi também financiou a campanha presidencial de 2007, com cerca de 50 milhões de euros, o equivalente a R$ 125 mihões.

Eleições na França 27: O estado das tendências de voto

Passando as vistas sobre as tendências de voto e de transferência de voto, o estado atual das avaliações é o seguinte: 54,5% de intenção de voto para Hollande contra 45,5% para Sarkozy. Tendência de que 48% dos eleitores de Marine Le Pen, candidata do Front National, partido de ultra-direita - que recebeu 18,03% dos votos do primeiro turno - votem em Sarkozy; 31% votem em Hollande e 21% sigam as ordens da candidata e se abstenham de ir votar. Tendência de que 38% dos eleitores de François Bayrou, o candidato do MoDem, partido centrista - que recebeu 9,1% dos votos do primeiro turno - votem em Sarkozy; 32% votem em Hollande, e 30% se abstenham de ir votar. Tendência de que 83% dos eleitores de Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Gauche, partido de ultra-esquerda - que recebeu 11,1% dos votos do primeiro turno - votem em Hollande; 6% votem em Sarkozy e 11% se abstenham.  Os dados usados neste post foram obtido...

Eleições na França 26: hoje, o debate presidencial

Na foto ao lado (copiada do Le Monde), as assessorias dos dois candidatos avaliam o espaço onde será realizado, hoje a noite, o único debate presidencial do "entre-turnos", e, efetivamente, o único debate entre os potenciais vencedores, em todos os sete  meses da campanha.  O debate tem importância, mas, avaliando a experiência histórica da V República francesa, ele não tem capacidade de inverter posições na disputa presidencial. Isso nunca aconteceu. Assim, mesmo que Sarkozy se saia "melhor" que Hollande, será difícil recuperar a diferença existente.

Eleições na França 25: A guinada de Sarkozy na direção da ultra-direita

Sarkozy está em campanha pelos 6,4 milhões de votos obtidos pela extrema direita na França no primeiro turno das eleições. Seu discurso está se dirigindo abertamente aos eleitores de Marine Le Pen, a candidata do Front National, que recebeu 17,9% dos sufrágios. Hoje, 29 de abril, num comício em Toulouse, sudoesta do país, pediu a seus concidadãos "terem orgulho de serem franceses" e afirmou: "Não quero deixar a França se diluir na mundialização. Esta é a mensagem do 1o turno!" . Seu discurso está batendo forte  na imigração e em pilares da União Europeia, como a livre  circulação. O problema, para ele, é que esse discurso afasta os eleitores de centro. Um sintoma disso é o fato de o ex-candidato do Movimento Democrático (MoDem), François Bayrou, centrista,  que obteve 3,2 milhões de votos, fez uma declaração reprovando a guinada à direita de Sarkozy. As declarações de Sarkozy também foram criticadas pela imprensa progressista na França. Insat...