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Mostrando postagens de Março, 2007

Pos-colonialismo e hibridez cultural 3

Alguns elementos teóricos a acrescentar ao debate: em primeiro lugar, o pensamento de Jacques Derrida segundo o qual a identidade é um processo fantasmal e interminável. E também de Derrida a idéia de que a herança é uma coisa coisa construída: ou seja, a pessoa não herda, simplesmente, uma identidade, ela a reinventa. Quem recebe uma herança tria, valorza, se re-ativa por meio dela ou a nega. Outro elemento que gostariua de evocar é a noção de “literatura secundária”, desenvolvida por Franz Kafka. Tal seria a literatura feita por uma minoria étnica ou social numa língua maior. Por exemplo, a literatura argelina feita em francês. Ou a literatura hindu feita em inglês. Em terceiro e último lugar, gostaria de lançar um paradoxo que pode inspirar o debate sobre a questão: a idéia de que toda cultura é um ato de colonialismo. Falar em cultura é um ato de colonização. Dizer-se portador de uma cultura – ou, simplesmente, de cultura – mesmo na boca do mais infeliz colonizado, é um ato colonia

Pos-colonialismo e hibridez cultural 2

O que disto resulta? A sugestão de que a literatura pós-colonial possui mecanismos de autocolonização perpétua. Colonizados que julgam que a identidade dos colonizadores é um ponto pacífico são colonizados-re-colonizados e auto-colonizados. Isto é um ponto a discutir. Como se sabe, a noção de hibridez é um instrumento precisos de toda literatura e de toda “crítica” pós-colonial e pós-moderna. Porém, podemos perguntar, que hibridez é essa? Efetivamente gostaria de transpor essa problemática para duas situações contíguas: a extrema passividade do audiovisual contemporâneo no que tange à sua autocolonização própria e perpétua, à sua falta de provocação, à sua lentidão, por um lado e, por outro lado, a extrema passividade da autocrítica identitária que os intelectuais de Belém fazem de sua condição cultural, situação essa que, no meu entender, acaba sendo o aposto de uma autocolonização e de uma re-colonização passiva e perpétua. Ora, nos dois casos vamos conviver com idéias sobre hibridez

Pos-colonialismo e hibridez cultural

Malika Mokkedem, nascida em 1949 em Argel é uma escritora importante do cenário pós-colonial que, atualmente, conforma um setor central da cena literária global. Seu terceiro livro, intitulado “L’Interdite” aborda o tema da identidade pela via de uma curiosa metáfora: um transplante de rins. O receptor do órgão é um francês, a doadora uma argelina e o transplante ocorre na Argélia. A situação dá margem a uma reflexão angustiante, marcada pela construção de binômios como antiga-metrópole/colônia, colonizador/colonizado, homem/mulher, vida/morte, norte/sul, identidade/ausência-de. Em síntese, a identidade do francês é posta em questão. E aí está o interessante do livro: em toda a tradição da literatura pós-colonial, seja ela em língua francesa ou em língua inglesa, dificilmente os personagens europeus se questionam sobre sua identidade. O comum é que se confrontem com estrangeiros que, estes sim, se questionam sobre sua identidade. Os exemplos disso – e os que eu posso dar são em litera

Seminário O audiovisual contemporâneo

Participei ontem de uma mesa redonda no seminário “O audiovisual contemporâneo”, organizado pelo Núcleo de Produção Audiovisual do IAP (Instituto de Artes do Pará). A mesa teve o título de “A linguagem híbrida do audiovisual contemporâneo e sua relação com os chamados gêneros”, foi presidida pelo Januário guedes e contou com a participação, ainda, dos colegas Luis Arnaldo Campos e Valzeli Sampaio. Como lá falei, é sempre muito proveitoso estar naquele auditório e conversar sobre audiovisual. Efetivamente, venho estando presente em diferentes eventos sobre o assunto, desde 2004, e vou tendo impressão de que cada nova participação dá continuidade à primeira. O post seguinte resume minha apresentação.

Seminário O audiovisual contemporâneo

Participei ontem de uma mesa redonda no seminário “O audiovisual contemporâneo”, organizado pelo Núcleo de Produção Audiovisual do IAP (Instituto de Artes do Pará). A mesa teve o título de “A linguagem híbrida do audiovisual contemporâneo e sua relação com os chamados gêneros”, foi presidida pelo Januário guedes e contou com a participação, ainda, dos colegas Luis Arnaldo Campos e Valzeli Sampaio. Como lá falei, é sempre muito proveitoso estar naquele auditório e conversar sobre audiovisual. Efetivamente, venho estando presente em diferentes eventos sobre o assunto, desde 2004, e vou tendo impressão de que cada nova participação dá continuidade à primeira. O post seguinte resume minha apresentação.

Blanchot e Lévinas

Se 2006 foi o ano de centenário do nascimento de Emmanuel Lévinas, 2007 o é de Maurice Blanchot. Os dois filósofos – este último também escritor – foram ligados por uma amizade profunda desde que se conheceram, ainda estudantes do primário. A influência foi mútua. A fenomenologia de Lévinas encontra eco em temas estranhos, trabalhados por Blanchot ao longo de toda a sua obra: a noite e o “neutro”, a escritura, a poética de “testemunho”, e a alteridade. Lévinas, nascido em 1906 e falecido em 1995, foi o introdutor da fenomenologia e de Husserl na França, além de importante comentador da obra de Heidegger. Blanchot foi um escritor e um filósofo original: como escritor, produziu uma obra insólita, marcada por questões fenomenológicas. Como filósofo, produziu uma obra bizarra – no bom sentido – na qual se acentuam discussões sobre coisas tais como, justamente, “a noite e o neutro”. A fundo, acho que a obra de Blanchot se deixou impregnar pela ética de Lévinas, centrada no princípio da resp

Circulação de jornais no período 1999-2006

O site da WAN - World Association of Newspapers disponibiliza informação sobre tendências no uso da imprensa no mundo. Encontro nele índices curiosos sobre a diminuição média da tiragem de jornais no mundo. Países em que a tiragem média decresceu: Áustria -12.9 % Bélgica -5.5 Dinamarca -9.6 Finlândia -2.7 França -4.98 Alemanha -8.1 Grécia -8.0 Irlanda-3.8 Luxemburgo -7.12 Holanda -6.2 Portugal -16.76 Suécia -1.3 Reino Unido -3.4 Países em que a tiragem média subiu: Itália +0.1 Espanha +0.6 Mesmo em países com taxas de leitura relativamente elevadas, a tendência do último quinquênio foi no sentido da descida - caso dos países escandinavos e dos EUA.
La servante au grand cœur dont vous étiez jalouse, Et qui dort son sommeil sous une humble pelouse, Nous devrions pourtant lui porter quelques fleurs. Les morts, les pauvres morts, ont de grandes douleurs, Et quand Octobre souffle, émondeur des vieux arbres, Son vent mélancolique à l'entour de leurs marbres, Certe, ils doivent trouver les vivants bien ingrats, A dormir, comme ils font, chaudement dans leurs draps, Tandis que, dévorés de noires songeries, Sans compagnon de lit, sans bonnes causeries, Vieux squelettes gelés travaillés par le ver, Ils sentent s'égoutter les neiges de l'hiver Et le siècle couler, sans qu'amis ni famille Remplacent les lambeaux qui pendent à leur grille. Lorsque la bûche siffle et chante, si le soir, Calme, dans le fauteuil je la voyais s'asseoir, Si, par une nuit bleue et froide de décembre, Je la trouvais tapie en un coin de ma chambre, Grave, et venant du fond de son lit éternel Couver l'enfant grandi de son œil maternel, Que pour

Harmonia chinesa

Um jornal de Hong Kong, chamado South China Mornig Port noticia que o governo chinês promulgou uma relação de 20 temas que não podem ser abordados nos jornais do país. Com o objetivo de promover um “atmosfera harminiosa na nação”. Quanto aos temas, o jornal informa que eles incluem a corrupção, a campanha anti-corrupção, ações em defesa dos direitos humanos, crimes sexuais amantes de dirigentes do Partido Comunista e o estilo aristocrático dos ricos recentes do país. Além disso, proibe-se também tratar da Revolução Cultural e da Campanha das Cem Flores, esta última um evento político de 1957 visando a repressão de intelectuais e por meio da qual se enviou 500 mil pessoas aos “campos de reeducação”. “Balzac e a costureirinha chinesa”, o livro – transformado em filme – menciona um desses campos de reeducação. Mas que o jornal o mencione tudo isso é uma hipótese, e não uma certeza. Isto porque a linguagem é cifrada, ao menos para mim, que não entendo esses textos rebuscados produzidos por

Mulheres

A Universidade de Harvard, fundada em 1636, elegeu no mês passado a sua primeira reitora, Drew Gilpin Faust, 59 anos, historiadora. A dimensão histórica do fato, sem demérito, se equipara à magnitude do poder que lhe caberá: gerir a universidade mais importante do planeta, que tem 12 faculdades e um orçamento anual de 3 bilhões de dólares. E a dimensão simbólica do fato se vitaliza em função das declarações sexistas – e, portanto, polêmicas – do ex-reitor, Lawrence Summers, que, dentre outras, se saiu com uma história de que “as mulheres são menos aptas às matemáticas de que os homens”. Há alguns dias li, no El Pais digital, uma declaração interessante de Maria Teresa Fernandez de La Vega, a número 2 do governo espanhol desde 2004: Segundo ela, as mulheres possuem uma visão distinta da dos homens, e isso se dá pelo fato de que são melhor preparadas a dividir e a cohabitar, partilhar, resolver conflitos. Essa preparação resultaria da cultura da esfera privada, caracterizada pela sucessã