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Mostrando postagens de Dezembro, 2006

O que chamamos o começo é muitas vezes o fim

[...] Não desistiremos de explorar E o fim de toda a nossa exploração Será chegarmos ao lugar de onde partimos E conhecer o lugar pela primeira vez. Através do portão desconhecido e lembrado Quando o último confim da terra por descobrir For o lugar que foi o começo; Na nascente do rio mais longo A voz oculta queda d'água E as crianças na macieira Desconhecidas, porque não procuradas Mas ouvidas, meio-ouvidas, na quietação Entre duas ondas do mar. Depressa agora, aqui, agora, sempre —Uma condição de completa simplicidade (Que não custa menos do que tudo) E tudo há-de ficar bem e Toda a espécie de coisa há-de ficar bem Quando as línguas de fogo refluírem Para o coroado nó de fogo E o fogo e a rosa forem um. T. S. Eliot, Little Gidding, in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, edição da Relógio d’Água

A arte de esquecer : Nietzsche

"Jette dans l'abîme ce qui t'alourdit! Homme, oublie! Homme, oublie! Divin est l'art d'oublier! Si tu veux voler, si tu veux être chez toi dans les hauteurs: jette dans la mer ton plus lourd fardeau! Voici la mer - - jette-toi dans la mer! Divin est l'art d'Oublier!" Nietzsche, Fragments poétiques, 1888.

Yourcenar : o tempo escultor

"Mesmo que um dia o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio o reflexo imóvel de ti. E desse modo imobilizarei a tua alma também.Tu já não me amas. Se consentes em ouvir-me durante uma hora é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar. Ligaste-me e agora desligas-me. Não te censuro, Gherardo. O amor de alguém é sempre um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los

Tempo tradicional vs tempo metafísico

Benjamin não critica o tempo e nem, tampouco, a história: o que ele critica é a repetição. A repetição como idéia burguesa de tempo. A repetição como programação, como relógio, o tempo moderno por excelência e que se opõe ao tempo tradicional – o qual pode ser compreendido, também, como o tempo do calendário. De acordo com Olgária Mattos, intérprete de Benjamin, “O tempo dos relógios é o ‘tempo homogêneo e vazio’ que é preenchido qual um recipiente, que vai acomodando, indiferente, acontecimentos que caem ‘dentro dele’. O tempo do calendário, ao contrário, não se desenrola mecanicamente, pontua a existência com ‘dias de recordação’, momentos que capturam o tempo em ‘pontos de concentração’. Nestes dias as coisas relembradas subitamente se tornam ‘atuais’, retornam à existência ‘nos momentos de recordação’. Este é o caráter diferencial do tempo histórico; não a badalada regular do relógio que nivela todas as ocorrências em um contínuo indiferente, mas a súbita pausa do colecionador; não

O anjo do tempo

O anjo, no entanto, assemelha-se a tudo de que eu tive de me separar: as pessoas e sobretudo as coisas. Nas coisas que já não tenho, ele reside. Ele torna-as transparentes e atrás delas todas, aparece-me aquele para quem são destinadas. Walter Benjamin

History is an angel being blown backwards into the future

... She said: What is history? And he said: History is an angel being blown backwards into the future He said: History is a pile of debris And the angel wants to go back and fix things To repair the things that have been broken But there is a storm blowing from Paradise And the storm keeps blowing the angel backwards into the future And this storm, this storm is called Progress vocals: Laurie Anderson

Sobre Homi Bhabha

Homi Bhabha é Professor de Literatura Inglesa e Americana e de Estudos Afro-americanos na Universidade de Harvard. Nessa instituição, dirige o Humanities Centre. Além disso, é Professor visitante de Humanísticas na University College, em Londres. Sua bibliografia é extensa, e nela se destaca The Location of Culture (Routledge 1994), obra na qual resume suas principais idéias. Além disso, é editor da coleção de ensaios Nation and Narration, também pela pretigiosa Routledge. Seu trabalho mais recente é A Measuring of Dwelling, uma teoria sobre ‘cosmopolitismo popular’, publicada pela Columbia University Press. Em 2005 foi orador na Ralph Miliband Lecture, na London School of Economics. Já em 2006 foi o convidado de honra do Colloquium on Research and Higher Education Policy, organizado pela UNESCO. Também neste ano foi o principal interventor no seminário organizado pelo Arts and Humanities Research Board (AHRB) sobre Diasporas, Migration, and Identities, em Londres.

Resumo do Seminário 2: Áreas culturais

O segundo texto trabalhado no Seminário de ontem, denominado "Áreas culturais na modernidade tardia", de autoria de Ana Pizarro, está presente na mesma coletânea referida no post anterior (pp. 21-36). O texto foi apresentado pela Ercília Wanzeler, também bolsista do projeto Tribos Urbanas. Discutimos como a noção de "área cultural" tem se tornado imporante para os Estudos Culturais. Talvez tenha faltado complementar a discussão observando que a oção de "modernidade tardia", que vem sendo amplamente utilizada pelos pesquisadores de alguns programas de pós-graduação em letras no Brasil, notadamente os da UFMG, apresenta alguns problemas. A modernidade de Minas e do Rio de Janeiro é fundamentalmente tardia, mas o gênero de modernidade observável em outras regiões brasileiras - e me parece que belém é o exemplo mais notável - não é tardia. Isso é uma longa discussão, presente no meu trabaho de mestrado (que, aliás, será publicado em março próximo). Não vou apr

Resumo do Seminário 1: Homi Bhabha

Homi Bhabha foi um dos temas do Seminário de Sociomorfologia de ontem. Discutimos o texto "Hibridismo e tradução cultural em Bhabha", de autoria de Lynn Mario Menezes de Souza, encontrado no livro "Margens da Cultura. Mestiçagem, hibridismo e outras misturas", organizado por Benjamin Abdala Junior (São paulo, Boitempo, 2004 pp. 113-134). A encarregada de apresentar o texto, Nerusa Palheta, bolsista do projeto Tribos Urbanas, fez uma explanação mapeando os principais conceitos da obra de Bhabha que, segundo o autor do artigo, permitem discutir a noção de "tradução cultural". Esses conceitos foram: processo de cisão, modo de existir, hibridismo, mímica, fetiche, processo realcional e modo de enunciação. Discutimos principalmente a idéia de fetiche em Bhabha. Fetiche cultural, ou seja, a própria dialética entre colonizador e colonizado. Nesse sentido, foi possível estabelecer alguns paralelos com a obra de Frantz Fanon, discutida na sessão anterior do Seminá

Habitus e razãoo prática

A noção de habitus evoca imediatamente a noção, também fundamental em Bourdieu, de senso prático. As noções são convergentes: “O fato de que as práticas rituais sejam o produto de um ‘senso comum’, e não de uma forma de cálculo inconsciente ou de obediência a uma regra, explica que o ritos sejam coerentes, mas desse tipo de coerência que é parcial, jamais total, que é esse tida pelas construções práticas” (“Le fait que les pratiques rituelles soient le produit d’un « sens pratique », et non d’une sorte de calcul inconscient ou de l’obéissance à une règle, explique que les rites soient cohérents, mais de cette cohérence partielle, jamais totale, qui est celle des constructions pratiques” - Fieldwork in philosophy, in Choses dites, Minuit, 1987, p.20).

Ainda sobre o habitus

“Sendo o produto da incorporação da necessidade objetiva, o habitus, necessidade transformada em virtude, produto de estratégias que, ainda que não sejam produzidas por uma ação consciente de fins explicitamente postos sobre a base de um conhecimento adequado das condições objetivas, nem de uma determinação tornada mecânica por suas causas, é algo objetiviamente ajustado à situação” (“Étant le produit de l’incorporation de la nécessité objective, l’habitus, nécessité faite vertu, produit des stratégies qui, bien qu’elles ne soient pas le produit d’une visée consciente de fins explicitement posées sur la base d’une connaissance adéquate des conditions objectives, ni d’une détermination mécanique par des causes, se trouvent être objectivement ajustées à la situation” - Fieldwork in philosophy, in Choses dites, Minuit, 1987, p.21). “A noção de habitus foi inventada (...) para dar conta do seguinte paradoxo: contudas podem ser orientadas na direção de objetivos sem que sejam conscientement

Sociologia da cultura - aula 10

Trabalho nesta aula a relação entre as noções de habitus e campo, procurando perceber como as duas noções se autoproduzem, se geram mutuamente. Em primeiro lugar definimos campo como espaço de embate dos diversos agentes: um espaço estruturado mas também estruturante. Em seguida, definimos habitus como a forma do embate, como as práticas e usos da matéria de poder evidenciada por um campo. Trabalhamos a aula inteira com o exemplo do campo cultural, mapeando seus agentes, processos, estigamas - seu habitus, enfim.

Por uma crítica da noção de habitus 2

Em conseqüência, o habitus é visto, por Bourdieu, como um “condicionamento” – no horizonte do que esta palavra tem de “condicionante” e “determinante”. Evoquemos, para comprová-lo, o que escreve o sociólogo em O Senso Prático: “Os condicionamentos associados a uma classe particular de condições de existência produzem os habitus, sistemas de disposições duráveis e transmitíveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores e organizadores de práticas e representações que podem ser objetivamente adaptadas a seu fim sem pressupor uma ação consciente de fins e o controle expresso das operações necessárias para atingi-los” (“Les conditionnements associés à une classe particulière de conditions d'existence produisent des habitus, systèmes de dispositions durables et transposables, structures structurées prédisposées à fonctionner comme structures structurantes, c'est-à-dire en tant que principes générateurs et orga

Por uma crítica da noção de habitus

Antes de tudo, em Bourdieu, o habitus é uma estrutura: “Estrutura estruturante, que organisa as práticas e a percepção das práticas, o habitus é, também, estrutura estruturada” (“Structure structurante, qui organise les pratiques et la perception des pratiques, l’habitus est aussi structure structurée” - La Distinction, Minuit, 1979, p.191). Esse princípio assinala a principal filiação sociológica do seu pensamento no marxismo, posto que, como ele mesmo diz, logo a seguir, o habitus, ao ser simultaneamente estrutura estruturante e estruturada, é “o princípio da divisão em classes lógicas que organiza a percepção do mundo social” e que é, em decorrência disso, “o produto da incorporação da divisão em clsses sociais” ("le principe de division en classes logiques qui organise la perception du monde social est lui-même le produit de l’incorporation de la division en classes sociales” - La Distinction, Minuit, 1979, p.191). Ora, perceber o habitus como uma pratica recorrente que se mol

Sociologia da cultura – aula 9

Nesta segunda aula sobre a noção de cultura na obra de Pierre Bourdieu abordamos a noção de habitus. Utilizamos três obras do autor para procurar uma compreensão do conceito: A Distinção, O Senso Prático e Coisas Ditas. A aula foi desenolvida segundo três objetivos: em primeiro lugar, compreender o conceito como fundamento da teoria bourdieusiana da cultura; em seguida, situar o conceito na dimensão antropológica e etnográfica da obra de Bourdieu, localizando a formação da noção de habitus na sua observação da sociedade Kabília; enfim, em terceiro lugar, elaborar uma percepção crítica da noção de habitus, debatendo seus fundamentos à luz de uma crítica à funcionalidade “estruturante” do pensamento do autor. Nesse sentido, procuramos esclarecer de que maneira a noção de habitus aproxima-se e afasta-se, ela própria guardando uma distância crítica notável, da tradição marxista.

Editorial do último Tribos urbanas

Reproduzo o editorial da última página do Tribos Urbanas: Tribos Urbanas chega ao fim com esta edição. Cumprimos nosso objetivo de realizar 26 páginas explorando as formas de identidade e de sociabilidade que, efêmeras, surgem em Belém. Essas “tribos” se caracterizam por seus vínculos passageiros e eventuais, mas também intensos e sensíveis. Elas resultam das dinâmicas próprias das sociedades atuais, que permitem ao indivíduo participar de comunidades diversas e que não possuem, necessariamente, uma coerência entre si. Esse é o sujeito pós-moderno, que pode ser reconhecido aqui em Belém ou em outra qualquer cidade da sociedade globalizada. Caracterizam-no sua interação social múltipla, o rompimento das máscaras tradicionais que o incluíam, antes, nos grandes sistemas de papéis sociais pré-estabelecidos e um certo dionisismo que pode ser compreendido como uma estetização da vida. De fato, o que leva um sujeito a participar de uma “tribo”, hoje em dia, é essa tendência em estetizar - e

Tribos Urbanas chega ao fim

Tribos Urbanas chega ao fim. Para quem não sabe, é o projeto que coordenei no Depto de Comunicação da UFPA, financiado pela Companhia Vale do Rio Doce. Durante dez meses publicamos páginas semanais sobre sociabilidades contemporâneas em Belém. Foram 26 páginas. O projeto funcionou com 11 bolsistas. A proposta era simples: integrar atividades de pesquisa a atividades de extensão, ou melhor, unir reflexão ao ato do jornalismo. Os bolsistas não apenas cumpriam pautas, mas recebiam textos para ler e participavam de seminários, estudando em profundidade os temas correlatos das identidades e das sociabilidades na sociedade urbana contemporânea. Em seguida, debatiam suas pautas e partiam para o campo. Dispunham de muito tempo para ler, escrever, fotografar e editar. A proposta é um jornalismo reflexivo, híbrido, liberto. Talvez, para provar que a distância entre teoria e prática não precisa existir. Adoro chegar ao fim de projetos. Tem uma frase de um filme de Godard, “Elogio do Amor”, que d

Nota pessoal

Ah, antes que me acusem de paroquismo, não sou mais cristão que a maioria; ou seja, minha cristandade não me leva a missa e do missal não conheço senão os temas filosóficos. Até que julgava que Deus falava comigo quando era pequeno, mas ele só falava em hebraico. E como eu não entendia nada, deixei de acreditar nele.

Apenas mais uma nota sobre o bom senso

Alguém lembra a divisa de Santo Agostinho? In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas. Ou seja, “na necessidade a unidade, na dúvida a liberdade, em todas as coisas a caridade”. É um pensamento cristão por excelência, mas isto à parte, temos que dizer que a palavra latina caritas significa muito mais do que cairidade ou mesmo que compaixão. Caritas evoca a idéia de abrir mão do que se tem e, de certa maneira, também daquilo que se é. O termo caritas evoca, portanto, o bom senso. A idéia de que é necessário, à generosidade, saber resignar-se de si mesmo. Na divisa de Agostinho está presente essa idéia sobre o bom senso de que estou falando aqui. Quando ele diz que há uma necessidade na unidade, está sugerindo que há uma igualdade entre as pessoas, uma igualdade essencial, presente no fato que têm, todas, digamos assim, a mesma igna matéria que ressoa, no cristianismo, como aquela história de que “vieste do pó e ao pó voltarás”. Quando diz que a liberdade está na dúvid

Ainda sobre o Bom Senso

O post da virtude já está feito, mas me permito algumas outras observações sobre a coisa, não especificamente no que se refere à política cultural, mas no que tange à dimensão do bom senso como virtude. Queria complementar o tema observando que o Bom Senso é, sobretudo, um ato reflexivo. Como disse no post anterior, ter bom senso é ter disposição em abrir mão da verdade pessoal em favor da verdade do grupo e, portanto, se dispor a ser menor em relação ao egocentrismo que, naturalmente e culturalmente, nos engendra como pessoas. Sobretudo na nossa cultura, cujo iberismo latente exige que nos vejamos sob um farol de dignidade e honra – na verdade, simplesmente vaidade. Já perceberam a diferença entre os discursos no mundo ibérico e os discursos no mundo anglo-saxônico? No mundo ibérico nós nos emproamos e sempre usamos um tom laudatório, com gestos rebuscados e ridículos, assumimos um tom de dignidade e nos mostramos honrados por termos sido convidados a nos fazer ouvir pelos demais. No

10 desejáveis virtudes para a política cultural

Segue abaixo minha contribuição para a série lançada pela Luciane . O Bom Senso O Bom Senso é a virtude que rege a relação dos homens com a verdade. Ter bom senso é superar o individualismo para entrar na razão do grupo, ou melhor, superar a razão pessoal para pensar segundo a experiência e a razão. A política cultural precisa ter bom senso. Isso significa dizer que ela tem que superar o personalismo que caracteriza as políticas culturais provincianas. Ela precisa superar o sujeito e pensar no grupo. Não num grupo, bem entendido, pois isto seria uma outra forma de personalismo, mas sim no grupo social por inteiro, na sua complexidade e necessária contradição. Ter bom senso é saber ponderar, usar a razão para se aproximar da verdade. Isso significa usar de uma sinceridade autêntica, tão autêntica que supera a verdade pessoal em favor da verdade coletiva. Lembremos da definição de La Rochefoucauld para sinceridade: uma forma de amor à verdade. Segundo ele, a sinceridade é uma “abertura

Zoos humanos 2

As imagens no post anterior são cartazes divulgando um zoológico humano no Jardim da Aclimação, Paris, década de 1930. Ao lado a referência da melhor obra que conheço sobre o tema, organizado por Nicolas Blancel et al.

10 Desejáveis virtudes para a política cultural do PT

Saiu o primeiro post da série das 10 Desejáveis Virtudes para a Política Cultural do governo Ana Júlia. Para quem não sabe, essa série é uma iniciativa da Luciane Fiúza de Melo , concluinte do curso de Comunicação da UFPA e se segue aos 10 Pecados que arrolei na semana passada. A iniciativa é louvável e admirável. Louvável porque marca a vontade de participar, de inventar, de fazer diferente. Vontade essa que anda envolvendo a cidade (e talvez o estado) ante a expectativa pelo governo Ana Júlia. Admirável porque cria vínculo, cria redes de conexão entre gente que não se conhece mas que tem muito em comum. No primeiro post, de autoria do Edyr Augusto, temos a virtude do Profissionalismo . É uma super sensata contribuição. O Edyr vai ao cerne da questão: chega de improviso e de parcialidade. Precisamos dar um passo à frente na questão cultural. Precisamos escapar do provincianismo personalista e começar a tratar a cultura com um espírito conseqüente. Edyr, receba um grande abraço, deste

Ainda Bourdieu, nota pessoal

Segui os cursos de Bourdieu no Collège de France em 2000 e 2001, a bem dizer os últimos que ministrou antes da descoberta dos males que o combaliram tão rapidamente. Não sou bourdieusiano e penso que sua obra comete o pecado que Alan Caillé, em obra famosa em defesa de Marcel Mauss, chamou de “sociologismo”. Mesmo assim, li seus livros e artigos, e acho que ele é um dos autores mais importantes do século XX. O que falta na sua sociologia, acho, é uma maior consideração pelas dinâmicas da subjetividade. Tudo bem que essa palavra ressoa em grande parte de seu pensamento, inclusive em termos centrais, como habitus, por exemplo. Porém, toda discussão sobre a subjetividade feita por Bourdieu está centrada nos aspectos não centrais do verdadeiro problema da subjetividade. E aqui, mais uma vez, precisamos diferenciar as sociologias propriamente ditas – macroanalíticas e, segundo Alan Caillé, sociologizantes ou economicistas – das microsociologias que mais nos interessam como método de observa

Ainda Bourdieu, nota pessoal

Segui os cursos de Bourdieu no Collège de France em 2000 e 2001, a bem dizer os últimos que ministrou antes da descoberta dos males que o combaliram tão rapidamente. Não sou bourdieusiano e penso que sua obra comete o pecado que Alan Caillé, em obra famosa em defesa de Marcel Mauss, chamou de “sociologismo”. Mesmo assim, li seus livros e artigos, e acho que ele é um dos autores mais importantes do século XX. O que falta na sua sociologia, acho, é uma maior consideração pelas dinâmicas da subjetividade. Tudo bem que essa palavra ressoa em grande parte de seu pensamento, inclusive em termos centrais, como habitus, por exemplo. Porém, toda discussão sobre a subjetividade feita por Bourdieu está centrada nos aspectos não centrais do verdadeiro problema da subjetividade. E aqui, mais uma vez, precisamos diferenciar as sociologias propriamente ditas – macroanalíticas e, segundo Alan Caillé, sociologizantes ou economicistas – das microsociologias que mais nos interessam como método de observa

Pierre Bourdieu – Sociologia da cultura (aula 8)

Na aula desta quarta-feira iniciamos a segunda unidade do nosso curso de Sociologia da Cultura. Assim como na primeira unidade estudamos um desdobramento da sociologia durkheimiana, por meio da obra de Serge Moscovici e da sua teoria das representações sociais, nesta unidade estudaremos um desdobramento contemporâneo da sociologia marxista, especificamente a obra de Pierre Bourdieu. Bom, esclareçamos que é difícil caracterizar Bourdieu por meio de uma filiação sociológica específica. A sua pretensão teórica, inclusive, é constituir um ponto de convergência entre as grandes famílias sociológicas. Não obstante, em nosso ver há, em seu pensamento, uma índole marxista dominante. Índole essa que se expressa na percepção macrodinâmica dos fenômenos sociais e na interpretação à dominante hegeliana. Mas deixamos o tema para um debate futuro. Nesta primeira aula vimos a trajetória do autor, sua formação e os fatos bio-bibliográficos importantes. Destacamos um elemento: as motivações pessoais pa

Zoos humanos 2

As imagens no post anterior são cartazes divulgando um zoológico humano no Jardim da Aclimação, Paris, década de 1930. Ao lado a referência da melhor obra que conheço sobre o tema, organizado por Nicolas Blancel et al.

Zoos humanos

Falar sobre Fanon evoca o tema dos "zoológicos humanos". É um tema recorrente, sempre falo disso, eu sei, mas, enfim... é um tema que tem um poder tão grande de produzir i ndignação, sensação de insólito, incredulidade, que fica sendo impossível não falar nele. Aliás, é um tema contundente para o debate sobre a identidade. Na verdade o que me interessa realmente é que o tema dos zoos humanos foram, simplesmente, varridos, banidos, da memória coletiva do Ocidente. Aos olhos de um europeu atual eles parecem um relato de ficção, ou mesmo um episódio eventual. Mas não foram. E precisam ser lembrados. Tratou-se de uma prática recorrente durante décadas e marcou a passagem de um racismo darwinista de índole científica para um racismo darwinista de índole popular. Que dizer de grandes exposições universais que, nos seus zoológicos, mantinham terrenos (na verdade jaulas) nas quais abrigavam etnias humanas? Que dizer que viveiros de achantis situados entre o viveiro dos camelos e o d

Frantz Fanon

O conceito de identidade em Frantz Fanon foi o tema do último seminário de sociomorfologia. O pensador - Fanon nasceu em 1925 numa família burguesa e negra – e, portanto “assimilada” – da Martinica. Aos 19 anos lutou na Resistência francesa, sendo ferido e, pelo conjunto dos seus atos, recebendo um menção por bravura. Retornou à Martinica e, nesse momento, conhceu Aimé Césaire, o grande poeta antilhano, influência direta sobre sua formação. Em 1946, aos 21 anos, começou a estudar medicina na Universidade de Lyon. Especializou-se em neuropsiquiatria e em neurocirurgia. Em 1952 lançou “Peau noire, masques blancs” (Pele negra, máscaras brabcas), obra que contém o essencial de seu pensamento: o respeito pelos deserdados da sociedade colonial. Em 1956 divulgou seu texto “Racisme et culture”, monumento de toda a reflexão pós-colonialista e, logo em seguida, ingressou formalmente nas fileiras da FLN – Frente de Libertação Nacional da Argélia. Estabeceu-se em Tunis, desenvolvendo um trabalho

Os 10 pecados da política cultural do PSDB

Décimo pecado: Vaidade O pecado não é venal, mas desnorteia pelo ridículo. A política cultural do PSDB sempre teve uma arrogância que, para muitos, parecia agressiva. Talvez isso fosse, apenas, a necessidade de firmar uma aparência social de pertencimento ou de proximidade a grandes idéias e a grandes intelectuais. Fazer a corte aos famosos, aos verdadeiros, aos grandes, se tornou uma prática. Não obstante, como é sabido, “cultura” não se pega por osmose, e os grandes intelectuais, os verdadeiros, como todos sabem, não costumam pecar pela vaidade. O pecado da vaidade equivale ao tom ideológico e sutil das políticas do PSDB, e precisa ser compreendido, contextualizado, para que não continue influenciando na próxima gestão. Ele está presente em projetos importantes e delicados, como as séries de CD lançadas pela Secult, dentre as quais A Música e o Pará e o álbum Belém da Saudade, ou a reforma de espaços como o Teatro Waldemar Henrique, mas não passou desapercebido o tom de auto-elogio

Os 10 pecados da política cultural do PSDB

Nono pecado: Centralização e autoritarismo A centralização do poder equivale a uma estratégia de perpetuidade do poder e, portanto, a uma determinada concepção do poder como uma substância que pode ser apropriada e manipulada. Ora, é preciso ver o poder como uma dinâmica social multivariada. O Estado nunca será o único agente do poder, por mais que o pretenda. Isso é particularmente visível no campo da cultura, caracterizado pelo senso crítico e pela prática da reflexão. Justamente por essa razão, o trabalho da Secult foi caracterizado, durante toda a gestão do PSDB, pela intelectualidade belemense, como centralizador e autoritário. A política cultural do partido se caracterizou pela arrogância no tratamento com os agentes culturais. Pela extrema dificuldade com que os agentes municipais de cultura tinham acesso aos dirigentes culturais, pelo fechamento de portas à maior parte dos artistas, pela ausência de políticas de editais e pela recusa ao diálogo franco, direto, com setores impo

Os 10 pecados da política cultural do PSDB

Oitavo pecado: Confusão de funções entre secretaria de cultura e secretaria de obras Cultura é espírito, e é também a transformação do espírito em coisa. Dessa maneira, pressupõe a obra arquitetônica e o urbanismo –sobretudo quando estão relacionados com a valorização do patrimônio histórico. Porém, a cultura tem outros compromissos, que não podem ser esquecidos ou secundarizados. A gestão cultural do PSDB gerou a impressão duradoura de um descompasso em prol das grandes obras arquitetônicas. Aparentemente, contingentes importantes da Secult, inclusive o próprio secretário, precisaram, com certa constância, estar a serviço de um planejamento de obras que caberia, normalmente, a outras secretarias. Não há o que questionar sobre a competência da equipe para essa função e ela assinala, talvez, o prestígio do próprio secretário de cultura na equipe, mas permanece a dúvida: dedicando-se a tantas tarefas que excedem a competência da função, não teria havido um deslocamento das responsabilid

Os 10 pecados da política cultural do PSDB

Sétimo pecado: Falta de articulação com as políticas de comunicação Não é possível falar em política cultural, contemporaneamente, sem falar, ao mesmo tempo, sobre política de comunicação. A cultura associada à mídia pode ser descrita como o “quinto poder”, como o elemento estruturante dos imaginários coletivos e, portanto, como uma peça estratégica na construção da visibilidade da cultura local. Trata-se de uma relação de sobrevivência: na sociedade globalizada, as dinâmicas locais precisam de canais midiáticos para sobreviver, se autoproduzir e se reproduzir. Já estamos bem além das teorias críticas da comunicação, que denunciavam a mídia como um agente meramente ideológico e deformador dos perfis sociais. Os meios de comunicação têm, na verdade, um papel dinâmico, que tanto pode ser bem usado como pode ser mal usado. Uma emissora de rádio ou de tv pode desenvolver papéis propulsores da educação, da cultura, da saúde pública, da segurança e, sobretudo, da integração estadual, elem

Os 10 pecados da política cultural do PSDB

Sexto pecado: Ideologia do descompromisso com a cultura popular Um mote perverso norteou a política cultural dos últimos doze anos: a idéia de que qualquer interferência na cultura popular resulta na transformação da cultura popular. Assim, a cultura popular precisa, a Secult sempre sugeriu, andar por conta própria. Essa estratégia sempre foi defendida alegando-se que não se deve proteger a cultura sob uma redoma de vidro, coisa que rapidamente a mataria. Isso é certamente verdade, mas entre proteger a cultura numa redoma e interferir nela há uma distância imensa. Se as duas extremidades são negativas – e com isso concordamos – não deixa de haver infinitas gradações entre elas. Gradações que assinalam a necessidade do Estado ter, sim, um compromisso com os produtores culturais mais básicos: com os cordões de pássaro, com o boi-bumbá, com o carnaval, com tecedoras, músicos populares, fabricantes de instrumentos musicais, artesãos e com uma infinitude de indivíduos que ficaram à margem