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O WikiLeaks está para a democracia como o Napster esteve para a indústria musical

Reproduzo artigo do joprnalista português Paulo Querido, publicado originalmente em seu blog:
O WikiLeaks está para a democracia como o Napster esteve para a indústria musical 
Paulo Querido
É possível que os Estados vençam a primeira batalha paralisando o Wikileaks durante algum tempo enquanto Assange se torna num herói das manchetes e das massas. 

Os advogados da indústria musical também calaram o Napster enquanto a Time dava a capa ao seu fundador, Shawn Fanning. 
Mas a lição do file sharing é clara. Uma vez desencadeado, este tipo de forças digitais não se trava com leis alienígenas e processos analógicos. 
A resposta é sempre a mesma, desde que há Internet. A única forma de parar alguma coisa nela é desligá-la. 
Assim, a gestão pública (e também a privada) vai mudar. Vamos (continuar a) viver tempos estranhos, incríveis, desconcertantes e até intelectualmente esgotantes. Mas muito interessantes. Não tenho a certeza que sejam para melhor, falando em democracia. Os ficcionistas do século passado que se dedicaram a sondar o futuro das possibilidades evolutivas da democracia não tiraram propriamente bons retratos da “democracia eletrónica”. Ao comprimir o tempo, o “voto eletrónico” não passará de uma ditadura das massas em tempo real. Com efeitos difíceis de prever. 
Podemos teorizar em torno da impossibilidade de gerir Grandes Coisas (um país, uma corporação multinacional, uma empresa grande) sem a almofada do secretismo que implica ter uma estratégia. 
Podemos sonhar — como os anarquistas, por esta altura a arfar de entusiasmo, e eu próprio assim estaria caso tivesse 20 anos — com a substituição da hierarquia vertical e de cadeia de comando pela organização horizontal e reticular. 
Podemos, mais realisticamente — como muito social-democrata em cura de oposição — ignorar o borbulhar dos “assuntos da semana” e o “trendismo” que virou moda e agradecer a benesse do expectável aumento de transparência na gestão pública por força dos wikileaks que aí vêm. 
É, talvez, a atitude mais sensata. Mudar, incorporando. É o que tem salvo o capitalismo e aguentado uma certa forma de atuar ao mais alto nível político. É inteligente. Porque é aceitar mudar para sobreviver. 
Mas nem sempre somos sensatos.

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