Na caixa de comentários do post Irã: Desobediência Civil alguém como que se perguntava “e que eu tenho a ver com isso?”. Não posso deixar de registrar minhas impressões a respeito: o que está acontecendo no Irã extrapola a revolta popular contra uma eleição provavelmente fraudulenta. Extrapola ainda as reinvindicações paralelas, pelo direito das mulheres, da liberdade de crença, de expressão, de comunicação. E também extrapola a demonstração popular de que se deseja, no Irã, uma reversão do regime dos mullahs. E a tanto extrapolando, extrapola também às identidades nacionais e nos coloca humanos como eles e a um passo deles. Os acontecimentos no Irã, potencializados como estão sendo pela guerrilha digital, nos convidam ao engajamento, ao ciberativismo, à cyberwar e nos fazem perceber que as revoluções do futuro, também elas, serão feitas pela internet - ou não serão feitas.
O mundo está estarrecido com com o genocídio Yanomami. As imagens chocantes atravessam o planeta e atestam o que todos já sabiam: houve genocídio. E não há como Jair Bolsonaro não ser imputado por esse crime. Dados obtidos pela plataforma SUMAÚMA mostram que, durante o governo Bolsonaro, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% no território Yanomami. Foram 570 crianças mortas, em 4 anos, por doenças que têm tratamento. E isso pode não ser tudo, porque o conjunto das terras indígenas em território brasileiro sofreu, ainda de acordo com o Suamúma, um verdadeiro apagão estatístico durante o governo de extrema direita. O legado de Bolsonaro é um dos mais aviltantes da história do Brasil. Não é de hoje que as terras Yanomami, onde vivem quase 30 mil pessoas indígenas, são agredidas pela especulação do garimpo ilegal, da pecuária ou da cultura do arroz, mas nunca se viu um apoio tão grande do Estado brasileiro a essas atividades....
Comentários
O cyberativismo, neste caso, está usando os diversos sites do tipo "rede social", como o Facebook ou o Orkut e microblogs, como o Twitter, para lançar informação (relatos do que está aacontecendo, fotos, filmes, sons). Como esses sites estão sendo monitorados pelo governo, eles estão usando táticas de despistamento (por exemplo, o software Tor). Num outro plano, eles estão usando recursos de multiplicação de acessos, para gerar sobrecarga nos provedores e, assim, derrubar as redes de comunicação oficiais. Fora outras estratégias. "Rádios de panela", ou seja, com transmissores improvisados em panelas de pressão (coisa do ativismo italiano dos anos 1980) também estão sendo usadas. E mais um monte de ferramentas, mais ou menos improvisadas. Em Shiraz um varal de roupa foi transformado numa potente antena de captação de conteúdos. A diferença entre os hackers criminosos ao qual vc se refere é grande. O que faz essa diferença é um critério político: no Irã, neste momento, a internet está sendo usada para reivindicar a liberdade. Numa instância muito profunda isso mostrar que as pessoas de um país não são iguais a um Estado e nem a algo tão abstrato como esse negócio de "nação", "país", "identidade". Mostra que gente é gente e Estado é Estado. Ajuda a desconstruir os preconceitos e a imensa burrice que é o nacionalismo, qualquer que seja, em qualquer tempo.