Pular para o conteúdo principal

Beneditinas 2


A primeira linha do primeiro ensaio do livro O Dorso do Tigre, para mim o livro mais emblemático do professor Benedito Nunes, é taxativa: “A filosofia já não consola”. Passou-se o tempo em que o fazia. Ela ajudou Sócrates a morrer e ajudou o mundo cristão a suportar a carga de injustiça presente na morte do Cristo. Benedito Nunes lembrou-se, com sua cultura vasta e universal, que ela também ajudou Severino Boécio, o ministro do imperador Teodorico, também ele, a morrer.
Ouvindo as palavras do padre Florêncio, muito apropriadas, aliás, e extramente sábias e felizes, durante a missa de corpo presente do professor, ocorria-me lembrar, o tempo todo, desse ensaio. De Consolatione Philosophiae, o seu nome. Um texto fabuloso do professor. E ocorria-me indagar-me, que é a si mesmo que se indaga essas coisas, se não cabia afirmar o contrario, da taxativa frase, em relação, preciamente, à partida de Benedito. Que ao menos nos console a nós, a sua filosofia, se não toda ela, na sua partida e da sua partida, se não de todas mais.
É que o padre Florêncio, na sua fala, comentou que há um sentido pascal na morte do professor, algo como o preenchimento de uma totalidade que se confirma por meio da integridade e da integralidade da sua vida.
Não sempre se ouve isso. Os sacerdotes gostam de tentar nos consolar por meio do desolamento, numa frágil promessa de pós-vida. A insistência desse hábito não comove mais as montanhas das nossas dúvidas. Mas há um diferencial quando se interpõe, à vida que parte, que já não há, a percepção de que ela foi, efetivamente, realizada; efetivamente vivida.
Um evento raro, naturalmente.  Todavia, era raro o professor Benedito. Imperativo constatá-lo. É uma pobre instância, mas ela me consola. Sua filosofia, de alguma forma, me consola da sua morte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conjunturas I

Um amigo me pergunta se acho que Lula deve ser candidato a presidente, mesmo com a prisão. Respondo que sim, porque não tem sentido ser diferente. Lula não ser candidato seria de uma deslealdade imperdoável do PT para com ele. A pergunta, na verdade, respondo ao meu amigo, é sobre quem deve ser o vice de Lula, porque quase tão certo como Lula ser o candidato do PT, é a possibilidade de que a justiça eleitoral casse a sua candidatura, sendo lógico, nesse caso, que seu vice assuma a cabeça de chapa. E, como sabemos como o bloco golpista joga, eles provavelmente farão isso o mais tarde possível, procurando inviabilizar que o PT chegue ao segundo turno. Nesse cenário, a tendência é que o PT venha com uma chapa “puro-sangue”. Provavelmente com Haddad para vice. Eventualmente com Jacques Wagner ou Patrus Ananias e, um pouco menos provavelmente, com Celso Amorim. Meu amigo, que não é do PT, viu claros sinais de que Lula, naqueles momentos heróicos antes da prisão, te...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...

A publicidade governamental do Governo Jatene, a Griffo, o jornalismo paraense...

Há alguns dias a jornalista Ana Célia Pinheiro, do blog A Perereca da Vizinha  anunciava que começaria uma guerra contra a comunicação do Governo Jatene :  Vamos agora jogar num rítmo novo, com algumas “surpresinhas” – ou vocês não gostam de surpresinhas, “coleguinhas”? “Coleguinhas” é um coloquialismo usado pelos jornalistas de Belém para se referirem, com cinismo, ao cinismo de seus colegas, dos quais não se costuma esperar senão o fogo amigo. Os posts começaram, em seguida, construindo  um perfil de Orly Bezerra , proprietário da Griffo, a agência de publicidade responsável pelo marketing do PSDB no Pará. Hoje, Ana Célia Pinheiro publicou  um post com o levantamento dos repasses de dinheiro público do Governo Jatene para a Griffo : R$ 70 milhões - e penduricalhos, como empregos a parentes. O post também questiona a idoneidade do processo licitatório que levou a Griffo a mais uma situação de dominação das contas da comunicação governamental, no Pará...