Pular para o conteúdo principal

PSDB/DEM: modelo para repetir derrotas


Reproduzo artigo de Maria Inês Nassif, publicado originalmente no blog de Luis Nassif. Segue-se um comentário do blog.

PSDB/DEM: modelo para repetir derrotas
Maria Inês Nassif 
A oposição aos governos petistas caiu no conto de seu próprio discurso. Daí a grande dificuldade de sobreviver a três derrotas sucessivas em eleições para a Presidência da República. A desintegração do PSDB e do DEM, os dois partidos mais fortes da aliança antipetista nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva, e o amiudamento do PPS, que pegou carona em um projeto que pouco tinha a ver com a sua história, resultam também numa aposta em conceitos liberais como o fim da luta de classes e uma política sem divergências ideológicas.

Num quadro onde supostamente a política está homogeneizada, a polarização com o projeto de poder hoje hegemônico foi tentada com base exclusivamente no discurso moral, que tentava opor o "bem", representado não pelo partido, mas por seu candidato, e o "mal", transformado em gente com a cara de Lula. Sem vida e organicidade internas, o PSDB, legenda mais forte da aliança oposicionista, foi levado a personificar a disputa política de forma muito mais acentuada que o próprio PT, que tinha Lula e seu carisma pessoal na linha de frente. Quando um partido abre mão de sua dinâmica interna para assumir o rosto de um único integrante, mesmo que seja o seu candidato a presidente da República, corre o risco de ir para o ralo quando o candidato é derrotado. 
Apenas por isso, o PSDB já teria sua situação seriamente comprometida. Sem tradição de organicidade – e negando a utilidade de um liame ideológico ao longo de várias eleições, desde Fernando Henrique Cardoso –, dificilmente passaria incólume aos abalos de uma derrota presidencial. Mas, mais do que isso, o partido de Serra e Fernando Henrique Cardoso não dispõe de instrumentos internos para construir uma unidade que nunca teve. Uma certa uniformidade remonta a criação do partido, mas ela foi desfeita tão logo chegou ao poder, sob a pressão de uma onda ideológica liberal que tomava todo o mundo e ganhava inclusive governos relutantes, com a pressão dos organismos internacionais de crédito.

O partido não teve tempo de estabelecer ligações sólidas com a sociedade, exceto as relações de conveniência com mediadores junto à opinião pública e uma representação, que se tornou concreta, das elites econômicas, envaidecidas por levarem ao poder líderes formados nas academias. Na sua tenra idade, deu como suficientes uma base parlamentar grande, a cooptação de lideranças regionais tradicionais, com autonomia local, e uma forte centralização das decisões nacionais nas mãos de poucos líderes, conforme analisa o cientista político Celso Roma. Assim, o PSDB se consolidou sob o mandonismo regional, dos líderes locais, e o mandonismo nacional, levado a termo pelos cardeais do partido. 
O PSDB vive os rachas da seção paulista, a mais importante para a equação de poder nacional do partido, como uma extensão dessa fragilidade de origem. E o comando do bloco governista pelo PSDB, no governo FHC, e oposicionista, nos anos Lula, acabaram contaminando também os dois partidos que foram mais fiéis a ele nos últimos dezesseis anos. O PFL, depois DEM, e o PPS, antes PCB, tinham uma organicidade maior que a do partido líder, mas acabaram se diluindo na mesma massa, dirigidos pelo comando pessoal dos candidatos tucanos – o vitorioso, FHC, ou os derrotados José Serra (duas vezes) e Geraldo Alckmin (uma vez). 
Após a terceira derrota, o DEM se divide em dois e o PSDB racha em disputas internas. O mais curioso, todavia, é que o racha tucano acabará resultado numa continuidade de um modelo partidário que tem dificuldades de sobreviver na derrota. Internamente, está ocorrendo uma transferência de poder do núcleo paulista (representado por José Serra e Fernando Henrique Cardoso) para o pré-pré-candidato a presidente, senador Aécio Neves (apoiado pelo paulista Geraldo Alckmin), que muda o chefe, mas não o partido.

Serra está totalmente esvaziado; Fernando Henrique não conseguiu manter uma liderança de fato – presente e atuante – no partido, depois que deixou o poder, nem teve grande interesse nisso, exceto nos momentos em que o pragmatismo eleitoral do candidato do momento tentou esquecer os governos dele. O espaço passa a ser ocupado de forma quase absoluta pelo senador Aécio Neves, que pode assumir o comando do partido nas mesmas condições que os paulistas antes dele: capitalizando um apoio incondicional das elites por sua candidatura, contra o PT, na sociedade; e com comando pleno sobre o partido, internamente, a bem de um projeto político personalista. No final das contas, o PSDB caminha para repetir uma receita de organização que o levou ao quase nocaute nessas eleições. E que pode nocauteá-lo de vez se enfrentar mais uma derrota.
Comentário do Hupomnemata:

Ontem a noite, batendo papo com meu amigo Jaime, em torno de um chopp, sobre essa implosão do PSDB, disse-lhe que, por mais que seja evidente que tanto o PSDB como o DEM implodem pela pura falta de organicidade e de projeto, não deixo de ficar surpreso como as dezenas de milhões de votos que esses partidos receberam, em 2010, simplesmente deixem de significar um capital político para eles. Esse processo de auto-destruição que os vitimiza decorre do fato de que lhes falta organicidade. Falta-lhes organicidade porque não têm projeto coletivo. Não têm projeto coletivo porque foram tomados pelo egoísmo do interesse individual, motor político superior que viceja graças ao modelo político atual... que produz esse fenômeno de falta de pragmatismo e de verdadeira miséria política que é perder de vista as dezenas de milhões de votos que receberam em 2010.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conjunturas I

Um amigo me pergunta se acho que Lula deve ser candidato a presidente, mesmo com a prisão. Respondo que sim, porque não tem sentido ser diferente. Lula não ser candidato seria de uma deslealdade imperdoável do PT para com ele. A pergunta, na verdade, respondo ao meu amigo, é sobre quem deve ser o vice de Lula, porque quase tão certo como Lula ser o candidato do PT, é a possibilidade de que a justiça eleitoral casse a sua candidatura, sendo lógico, nesse caso, que seu vice assuma a cabeça de chapa. E, como sabemos como o bloco golpista joga, eles provavelmente farão isso o mais tarde possível, procurando inviabilizar que o PT chegue ao segundo turno. Nesse cenário, a tendência é que o PT venha com uma chapa “puro-sangue”. Provavelmente com Haddad para vice. Eventualmente com Jacques Wagner ou Patrus Ananias e, um pouco menos provavelmente, com Celso Amorim. Meu amigo, que não é do PT, viu claros sinais de que Lula, naqueles momentos heróicos antes da prisão, te...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...

A publicidade governamental do Governo Jatene, a Griffo, o jornalismo paraense...

Há alguns dias a jornalista Ana Célia Pinheiro, do blog A Perereca da Vizinha  anunciava que começaria uma guerra contra a comunicação do Governo Jatene :  Vamos agora jogar num rítmo novo, com algumas “surpresinhas” – ou vocês não gostam de surpresinhas, “coleguinhas”? “Coleguinhas” é um coloquialismo usado pelos jornalistas de Belém para se referirem, com cinismo, ao cinismo de seus colegas, dos quais não se costuma esperar senão o fogo amigo. Os posts começaram, em seguida, construindo  um perfil de Orly Bezerra , proprietário da Griffo, a agência de publicidade responsável pelo marketing do PSDB no Pará. Hoje, Ana Célia Pinheiro publicou  um post com o levantamento dos repasses de dinheiro público do Governo Jatene para a Griffo : R$ 70 milhões - e penduricalhos, como empregos a parentes. O post também questiona a idoneidade do processo licitatório que levou a Griffo a mais uma situação de dominação das contas da comunicação governamental, no Pará...