Pular para o conteúdo principal

Duplos, triplos, preconceitos

Esta semana vi um excelente filme, no CineLíbero Luxardo. “Pelo Malo”, ou cabelo ruim, produção venezuelana dirigida por MarianaRondó.
O filme conta a história de um moleque de uns sete anos de idade, vivendo num suburbio de Caracas, obcecado por alisar seu cabelo crespo para aparecer numa foto como “cantor”. A mãe, viúva e desempregada, não compreende o que passa na cabeça do filho e suspeita que esse desejo de alisar o cabelo é um sinal de homossexualidade tangente.
- Eu não te amo.
- Eu também não te amo,
dizem-se os dois.
O preconceito cega. O menino tem o preconceito da “cor”, da “raça” e se autodenega. Sua mãe tem o preconceito da sexualidade, e, degenando o filho por causa disso, também se autodenega.
Preconceitos são cadeias de sentido. São redes, tecidos vivos, que tendem a se disseminar e a se superpor.
Denegação é o termo que encontro para discutir como se produzem as exclusões de si – talvez as mais delicadas e as mais absurdas.
Tratei um pouco disso num artigo que publiquei este mês na Revista de Antropologia da USP, observando como nós, aqui na Amazônia, temos uma longa tradição de autodenegação.
Nós nos autodenegamos do que somos enquanto indígenas, negros, nortistas. E isto além do tal complexo de vira-latas da comum nação brasileira, sempre reavivado em ano de Copa do Mundo.
O ciclo do preconceito dificilmente se rompe.  

Se renova, se autoproduz.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conjunturas I

Um amigo me pergunta se acho que Lula deve ser candidato a presidente, mesmo com a prisão. Respondo que sim, porque não tem sentido ser diferente. Lula não ser candidato seria de uma deslealdade imperdoável do PT para com ele. A pergunta, na verdade, respondo ao meu amigo, é sobre quem deve ser o vice de Lula, porque quase tão certo como Lula ser o candidato do PT, é a possibilidade de que a justiça eleitoral casse a sua candidatura, sendo lógico, nesse caso, que seu vice assuma a cabeça de chapa. E, como sabemos como o bloco golpista joga, eles provavelmente farão isso o mais tarde possível, procurando inviabilizar que o PT chegue ao segundo turno. Nesse cenário, a tendência é que o PT venha com uma chapa “puro-sangue”. Provavelmente com Haddad para vice. Eventualmente com Jacques Wagner ou Patrus Ananias e, um pouco menos provavelmente, com Celso Amorim. Meu amigo, que não é do PT, viu claros sinais de que Lula, naqueles momentos heróicos antes da prisão, te...

Solicitei meu descredenciamento do Ppgcom

Tomei ontem, junto com a professora Alda Costa, uma decisão difícil, mas necessária: solicitar nosso descredenciamento do Programa de pós-graduação em comunicação da UFPA. Há coisas que não são negociáveis, em nome do bom senso, do respeito e da ética. Para usar a expressão de Kant, tenho meus "imperativos categóricos". Não negocio com o absurdo. Reproduzo abaixo, para quem quiser ler o documento em que exponho minhas razões: Utilizamo-nos deste para informar, ao colegiado do Ppgcom, que declinamos da nossa eleição para coordená-lo. Ato contínuo, solicitamos nosso imediato descredenciamento do programa.     Se aceitamos ocupar a coordenação do programa foi para criar uma alternativa ao autoritarismo do projeto que lá está. Oferecemos nosso nome para coordená-lo com o objetivo de reverter a situação de hostilidade em relação à Faculdade de Comunicação e para estabelecer patamares de cooperação, por meio de trabalhos integrados, em grupos e projetos de pesquisa, capazes de...

A publicidade governamental do Governo Jatene, a Griffo, o jornalismo paraense...

Há alguns dias a jornalista Ana Célia Pinheiro, do blog A Perereca da Vizinha  anunciava que começaria uma guerra contra a comunicação do Governo Jatene :  Vamos agora jogar num rítmo novo, com algumas “surpresinhas” – ou vocês não gostam de surpresinhas, “coleguinhas”? “Coleguinhas” é um coloquialismo usado pelos jornalistas de Belém para se referirem, com cinismo, ao cinismo de seus colegas, dos quais não se costuma esperar senão o fogo amigo. Os posts começaram, em seguida, construindo  um perfil de Orly Bezerra , proprietário da Griffo, a agência de publicidade responsável pelo marketing do PSDB no Pará. Hoje, Ana Célia Pinheiro publicou  um post com o levantamento dos repasses de dinheiro público do Governo Jatene para a Griffo : R$ 70 milhões - e penduricalhos, como empregos a parentes. O post também questiona a idoneidade do processo licitatório que levou a Griffo a mais uma situação de dominação das contas da comunicação governamental, no Pará...