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Uma crônica (netnográfica) do bolsonarismo no 7 de setembro

O que faz uma pessoa sair às ruas para apoiar Bolsonaro? Dou uma olhada no meu Instagram e encontro algumas respostas. Imagens, frases e hashtags de pessoas que conheço, que foram à manifestação bolsonarista do 7 de setembro, traduzem disposições e disponibilidades que me ajudam a responder essa questão. Ou, ao menos, a cotejar algumas hipóteses. 

Meio de brincadeira, mas falando muito sério (meio cronicando, mas também etnografando), vou vendo as imagens e identificando, inventariando, alguns tipos humanos bolsonaristas que encontro nas fotos: 

“O eterno herdeiro” – Já na quarentena (de idade) ou mesmo na cinquentena, sabe que vai herdar a empresa do pai, ou seu patrimônio rentista, tanto faz. Bate ponto nessa empresa, finge que trabalha. Felizmente a empresa tem gestores, que fazem o trabalho real. Inseguro de sua posição tardia, precisa dar sinais do que entende como sendo “uma opinião madura e responsável” para se fazer respeitar pela própria família e por seu pai. E é com esse espírito que foi à manifestação bolsonarista: para provar que é capaz de gerir o patrimônio familiar. 

“A lindona” – Desde sempre precisou ser amada. Certo, como todos nós, mas, diferentemente, precisou ser amada sem ser obrigada a reciprocidades. Na verdade queria fãs, se possível muitos. E continua no mesmo processo. Aos 45 anos foi para a manifestação bolsonarista com amigas de juventude, todas vestindo uma camiseta verde-amarela com um nó na barriga. Não na linguagem figurada. Suas razões para ser bolsonarista derivam dessa eterna necessidade: ser amada, ser admirada. Ela foi à manifestação para ser percebida... 

“O estúpido raiz” – Desde jovem foi estúpido. Desde a infância, talvez. Desde sua condição pré-incarnatória, se isso existe. A estupidez é como a medula óssea do seu carma. Por incrível que parece, acredita que ser bolsonarista soa inteligente. Por isso, exibe seu bolsonarismo sem se dar conta de nenhum contexto. Foi à manifestação sem se dar conta de nenhum contexto. Existe sem se dar conta de nenhum contexto. Para ele, ser bolsonarista serve para mergulhar num mundo (por incrível que pareça) sem hostilidade. 

“O moderador” – É o contrário do estúpido e tem consciência disso. Tem um pouco de cultura (um pouco), mas é uma cultura centrada na ideia de “cult”: viu “filmes de arte”, leu uns livros e assina revistas. Considera que isso é suficiente para torná-lo “acima da média”. E tem razão. Estudou e tornou-se profissional liberal, geralmente advogado, médico ou engenheiro. Sente muita vergonha de ser bolsonarista, mas está refém de sua clientela. E por isso busca relativizar suas opiniões. Mas quando não se faz entender, o jeito é apelar e repetir os bordões de sempre. Ele é bolsonarista para manter viva a sua agenda de contatos. 

“A pantera” – Considera que ser bolsonarista é uma condição de classe. Passou a vida afirmando seu pertencimento a isso – seja lá o que signifique. Defende valores conservadores, é católica e faz tez de puritana. Mas conta, como ninguém, uma piada de “sacanagem” (como ela mesma diz; e só para descontrair, sempre justifica). Para ela, os círculos bolsonaristas são uma rede social, uma oportunidade a mais para conhecer ou reencontrar gente “parecida”. Ir à manifestação deles é uma condescendência, mas não deixa de ser como ir a uma festa. 

“O escalator” – Rapaz de classe média baixa que conseguiu se inserir em círculos mais “altos” e precisa agradar seus companheiros. Grita bastante e posa de entusiasmado. Dissimula a própria subserviência ostentando gastos acima de seus ganhos. Diz-se bolsonarista para soar como um “semelhante” desses círculos que admira. Para ele, ser bolsonarista é como um marcador de identidade – da identidade do grupo ao que deseja pertencer... 

“O ingênuo” – Ser bolsonarista, para ele, não é projeto: nem ideológico e nem utilitário. Mas se deixa levar por um ímpeto interior indecifrável. Um chamado meio sobrenatural, uma voz das suas selvas íntimas. Na manifestação bolsonarista, encontra um ambiente estimulante e, paradoxalmente, uma certa paz interior. Torna-se autoreflexivo (um pouco) e se sente parte de uma massa homogênea, da qual gosta muito de fazer parte. 

“A cristã sádica” – Sempre teve uma pulsão de violência, uma raiva, um ódio do mundo, mas nunca teve grandes oportunidades de extravasar esses sentimentos. Talvez, um pouco, nos seus filhos, coitados, que sempre apanharam muito. Foi para a manifestação bolsonarista como se fosse um dever. Cumprir deveres é a sua forma de sublimar seu sadismo. Como sempre exigiu muito de si mesma, saber-se cumpridora de “deveres” equivale a se autoglorificar sadicamente.

“A espírita superior” – Como a cristã sádica, é sádica... Mas é espírita. E faz, de si, a ideia de que é um ser “superior”. Espiritualmente, bem entendido. O que produz uma certa inversão de prioridades e uma temporalidade peculiar. Ando acreditando, desde o Golpe de 2016, que a religiosidade espírita possui certo sadismo interior, certo elogio da comiseração alheia que se traduz por termos positivistas como “evolução”. Há um sadismo em ver os outros “evoluírem” – ou seja, sofrerem. Como muitos e muitos espíritas apoiaram o Golpe e seguem apoiando Bolsonaro, muitos foram a manifestação e publicaram fotos. A espírita superior estava entre eles, ansiando para ver (ou infringir?) a “evolução espiritual” dos brasileiros. 

O que há de comum entre eles? É só uma suposição, que decorre de como percebo essas pessoas: nenhum deles apoia Bolsonaro porque acredita, realmente, nas proposições de Bolsonaro. Fingem que sim e, é claro, fazem parte de um universo ideológico que produz tanto as pautas neoliberais como o próprio fascismo bolsonarista. Porém, para nenhum deles apoiar Bolsonaro é uma escolha motivada por afinidade política. 

O substrato ideológico é a base, certo, mas fica evidente que a ação de apoiar Bolsonaro produz, para eles, outro padrão de benefícios: vantagens e oportunidades sociais, profissionais, utilitárias, psicológicas, afetivas. Apoiar Bolsonaro, para eles, produz vínculo, sociação, sociabilidade, posicionamento no jogo social. 

Minhas práticas etnográficas pandêmicas (digitais) apenas atualizam velhas observações, projetando no presente o passado. Ou seja, o que era e como se era continua-se sendo. Eu inclusive, que nunca fui escravo da ignorância ou das conveniências da ignorância (espero). Conheço esses tipos humanos. Nenhum deles é só uma pessoa: são padrões, são (justamente) tipos. Tipos das elites paraenses. Quem sabe um dia escrevo mais, fazendo mesmo uma etnografia desse pessoal. 

Fábio Fonseca de Castro

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