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Sobre o banimento da música instrumental da Rádio Cultura

Corre rapidamente a notícia de que a Rádio Cultura baniu a música instrumental de sua programação diária, relegando-a a programas especiais. Gostaria de dizer que me uno ao coro dos descontentes com essa decisão. 

Como bem disse o Delcley Machado, a música instrumental tem uma história e uma energia forte em Belém. Tem uma tradição de qualidade e de envolvimento de públicos.
Desde os anos 1920, quando iniciou a febre dos “bailes de clube” com as diversas orquestras que atuavam na cidade - dentre as quais as dos maestros Guiães de Barros, Oliveira da Paz e Marcos Drago, dentre outros, passando pelo grande maestro Alberto Mota, já nas décadas de 1940 a 60 - Belém tem um envolvimento profundo com o instrumental.
Tudo isso produziu heranças valiosas. No final dos anos 1960 e começo dos 70, o grupo Sol do Meio Dia - com o baixo de Minni Paulo, Odorico na guitarra, Zé Macedo na percussão e o baterista Magro, se formou na juventude católica de Belém, com apoio do fabuloso padre Raul e suas jam-sessions na Casa da Juventude marcaram uma época. Essa banda teve várias formações, mas cabe referir, dentre vários outros de seus integrantes, o papel da flauta de Rose Abensur - que destemidamente substituiu os teclados, dando ao grupo um timbre inusitado e criativo.

Pouco mais tarde, o impacto do grupo Madeira Mamoré no projeto Pixinguinha, na UFPA, foi imenso. Foi fundamental na formação de uma certa resistência estética que produziu importantes coesões culturais e políticas no Pará. 

Esse fenômeno, profundamente associado à sensibilidade do instrumental, repercutiu na cultura musical da cidade e engendrou efeitos na cultura midiática local - como por exemplo, o programa Rock 76, da Rádio Liberal, que dava imenso espaço ao instrumental.

Essa cena foi renovada com o retorno de Minni Paulo a Belém em 1982 - ele estava trabalhando com Jhonny Alf em São Paulo - que deu um novo impulso ao instrumental na cidade. Como não lembrar do grupo Gema, surgido, creio, nesse momento? Como não perceber a contribuição de Kzan Gama, Dadadá, Nego Nelson e Sagica para a sensibilidade belemense? Como não reconhecer a importância do trabalho de Luiz Pardal, Paulinho Assunção, Jacinto Kahwage e de tantos outros? E, ainda mais tarde, da Amazônia Jazz Band e de tantos outros músicos, grupos e bandas da cidade?

É preciso dizer que a própria Rádio Cultura nasce, também, dessa tradição, com ela e por ela. 

Ao que parece, no entanto, a Funtelpa se descuida de suas próprias raízes e da própria cultura paraense. A decisão de banir o instrumental da sua programação quotidiana precisa ser revista. Ela não apenas é insensível e ilógica, como também é desrespeitosa.

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