Pular para o conteúdo principal

Postagens

O que chamamos o começo é muitas vezes o fim

[...] Não desistiremos de explorar E o fim de toda a nossa exploração Será chegarmos ao lugar de onde partimos E conhecer o lugar pela primeira vez. Através do portão desconhecido e lembrado Quando o último confim da terra por descobrir For o lugar que foi o começo; Na nascente do rio mais longo A voz oculta queda d'água E as crianças na macieira Desconhecidas, porque não procuradas Mas ouvidas, meio-ouvidas, na quietação Entre duas ondas do mar. Depressa agora, aqui, agora, sempre —Uma condição de completa simplicidade (Que não custa menos do que tudo) E tudo há-de ficar bem e Toda a espécie de coisa há-de ficar bem Quando as línguas de fogo refluírem Para o coroado nó de fogo E o fogo e a rosa forem um. T. S. Eliot, Little Gidding, in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, edição da Relógio d’Água

A arte de esquecer : Nietzsche

"Jette dans l'abîme ce qui t'alourdit! Homme, oublie! Homme, oublie! Divin est l'art d'oublier! Si tu veux voler, si tu veux être chez toi dans les hauteurs: jette dans la mer ton plus lourd fardeau! Voici la mer - - jette-toi dans la mer! Divin est l'art d'Oublier!" Nietzsche, Fragments poétiques, 1888.

Yourcenar : o tempo escultor

"Mesmo que um dia o teu espelho te não mostre mais que um retrato deformado onde não ouses reconhecer-te, existirá sempre noutro sítio o reflexo imóvel de ti. E desse modo imobilizarei a tua alma também.Tu já não me amas. Se consentes em ouvir-me durante uma hora é porque somos sempre indulgentes com aqueles que vamos deixar. Ligaste-me e agora desligas-me. Não te censuro, Gherardo. O amor de alguém é sempre um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los...

Tempo tradicional vs tempo metafísico

Benjamin não critica o tempo e nem, tampouco, a história: o que ele critica é a repetição. A repetição como idéia burguesa de tempo. A repetição como programação, como relógio, o tempo moderno por excelência e que se opõe ao tempo tradicional – o qual pode ser compreendido, também, como o tempo do calendário. De acordo com Olgária Mattos, intérprete de Benjamin, “O tempo dos relógios é o ‘tempo homogêneo e vazio’ que é preenchido qual um recipiente, que vai acomodando, indiferente, acontecimentos que caem ‘dentro dele’. O tempo do calendário, ao contrário, não se desenrola mecanicamente, pontua a existência com ‘dias de recordação’, momentos que capturam o tempo em ‘pontos de concentração’. Nestes dias as coisas relembradas subitamente se tornam ‘atuais’, retornam à existência ‘nos momentos de recordação’. Este é o caráter diferencial do tempo histórico; não a badalada regular do relógio que nivela todas as ocorrências em um contínuo indiferente, mas a súbita pausa do colecionador; não...

O anjo do tempo

O anjo, no entanto, assemelha-se a tudo de que eu tive de me separar: as pessoas e sobretudo as coisas. Nas coisas que já não tenho, ele reside. Ele torna-as transparentes e atrás delas todas, aparece-me aquele para quem são destinadas. Walter Benjamin

History is an angel being blown backwards into the future

... She said: What is history? And he said: History is an angel being blown backwards into the future He said: History is a pile of debris And the angel wants to go back and fix things To repair the things that have been broken But there is a storm blowing from Paradise And the storm keeps blowing the angel backwards into the future And this storm, this storm is called Progress vocals: Laurie Anderson

Sobre Homi Bhabha

Homi Bhabha é Professor de Literatura Inglesa e Americana e de Estudos Afro-americanos na Universidade de Harvard. Nessa instituição, dirige o Humanities Centre. Além disso, é Professor visitante de Humanísticas na University College, em Londres. Sua bibliografia é extensa, e nela se destaca The Location of Culture (Routledge 1994), obra na qual resume suas principais idéias. Além disso, é editor da coleção de ensaios Nation and Narration, também pela pretigiosa Routledge. Seu trabalho mais recente é A Measuring of Dwelling, uma teoria sobre ‘cosmopolitismo popular’, publicada pela Columbia University Press. Em 2005 foi orador na Ralph Miliband Lecture, na London School of Economics. Já em 2006 foi o convidado de honra do Colloquium on Research and Higher Education Policy, organizado pela UNESCO. Também neste ano foi o principal interventor no seminário organizado pelo Arts and Humanities Research Board (AHRB) sobre Diasporas, Migration, and Identities, em Londres.

Resumo do Seminário 2: Áreas culturais

O segundo texto trabalhado no Seminário de ontem, denominado "Áreas culturais na modernidade tardia", de autoria de Ana Pizarro, está presente na mesma coletânea referida no post anterior (pp. 21-36). O texto foi apresentado pela Ercília Wanzeler, também bolsista do projeto Tribos Urbanas. Discutimos como a noção de "área cultural" tem se tornado imporante para os Estudos Culturais. Talvez tenha faltado complementar a discussão observando que a oção de "modernidade tardia", que vem sendo amplamente utilizada pelos pesquisadores de alguns programas de pós-graduação em letras no Brasil, notadamente os da UFMG, apresenta alguns problemas. A modernidade de Minas e do Rio de Janeiro é fundamentalmente tardia, mas o gênero de modernidade observável em outras regiões brasileiras - e me parece que belém é o exemplo mais notável - não é tardia. Isso é uma longa discussão, presente no meu trabaho de mestrado (que, aliás, será publicado em março próximo). Não vou apr...

Resumo do Seminário 1: Homi Bhabha

Homi Bhabha foi um dos temas do Seminário de Sociomorfologia de ontem. Discutimos o texto "Hibridismo e tradução cultural em Bhabha", de autoria de Lynn Mario Menezes de Souza, encontrado no livro "Margens da Cultura. Mestiçagem, hibridismo e outras misturas", organizado por Benjamin Abdala Junior (São paulo, Boitempo, 2004 pp. 113-134). A encarregada de apresentar o texto, Nerusa Palheta, bolsista do projeto Tribos Urbanas, fez uma explanação mapeando os principais conceitos da obra de Bhabha que, segundo o autor do artigo, permitem discutir a noção de "tradução cultural". Esses conceitos foram: processo de cisão, modo de existir, hibridismo, mímica, fetiche, processo realcional e modo de enunciação. Discutimos principalmente a idéia de fetiche em Bhabha. Fetiche cultural, ou seja, a própria dialética entre colonizador e colonizado. Nesse sentido, foi possível estabelecer alguns paralelos com a obra de Frantz Fanon, discutida na sessão anterior do Seminár...

Habitus e razãoo prática

A noção de habitus evoca imediatamente a noção, também fundamental em Bourdieu, de senso prático. As noções são convergentes: “O fato de que as práticas rituais sejam o produto de um ‘senso comum’, e não de uma forma de cálculo inconsciente ou de obediência a uma regra, explica que o ritos sejam coerentes, mas desse tipo de coerência que é parcial, jamais total, que é esse tida pelas construções práticas” (“Le fait que les pratiques rituelles soient le produit d’un « sens pratique », et non d’une sorte de calcul inconscient ou de l’obéissance à une règle, explique que les rites soient cohérents, mais de cette cohérence partielle, jamais totale, qui est celle des constructions pratiques” - Fieldwork in philosophy, in Choses dites, Minuit, 1987, p.20).

Ainda sobre o habitus

“Sendo o produto da incorporação da necessidade objetiva, o habitus, necessidade transformada em virtude, produto de estratégias que, ainda que não sejam produzidas por uma ação consciente de fins explicitamente postos sobre a base de um conhecimento adequado das condições objetivas, nem de uma determinação tornada mecânica por suas causas, é algo objetiviamente ajustado à situação” (“Étant le produit de l’incorporation de la nécessité objective, l’habitus, nécessité faite vertu, produit des stratégies qui, bien qu’elles ne soient pas le produit d’une visée consciente de fins explicitement posées sur la base d’une connaissance adéquate des conditions objectives, ni d’une détermination mécanique par des causes, se trouvent être objectivement ajustées à la situation” - Fieldwork in philosophy, in Choses dites, Minuit, 1987, p.21). “A noção de habitus foi inventada (...) para dar conta do seguinte paradoxo: contudas podem ser orientadas na direção de objetivos sem que sejam conscientement...

Sociologia da cultura - aula 10

Trabalho nesta aula a relação entre as noções de habitus e campo, procurando perceber como as duas noções se autoproduzem, se geram mutuamente. Em primeiro lugar definimos campo como espaço de embate dos diversos agentes: um espaço estruturado mas também estruturante. Em seguida, definimos habitus como a forma do embate, como as práticas e usos da matéria de poder evidenciada por um campo. Trabalhamos a aula inteira com o exemplo do campo cultural, mapeando seus agentes, processos, estigamas - seu habitus, enfim.

Por uma crítica da noção de habitus 2

Em conseqüência, o habitus é visto, por Bourdieu, como um “condicionamento” – no horizonte do que esta palavra tem de “condicionante” e “determinante”. Evoquemos, para comprová-lo, o que escreve o sociólogo em O Senso Prático: “Os condicionamentos associados a uma classe particular de condições de existência produzem os habitus, sistemas de disposições duráveis e transmitíveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores e organizadores de práticas e representações que podem ser objetivamente adaptadas a seu fim sem pressupor uma ação consciente de fins e o controle expresso das operações necessárias para atingi-los” (“Les conditionnements associés à une classe particulière de conditions d'existence produisent des habitus, systèmes de dispositions durables et transposables, structures structurées prédisposées à fonctionner comme structures structurantes, c'est-à-dire en tant que principes générateurs et orga...

Por uma crítica da noção de habitus

Antes de tudo, em Bourdieu, o habitus é uma estrutura: “Estrutura estruturante, que organisa as práticas e a percepção das práticas, o habitus é, também, estrutura estruturada” (“Structure structurante, qui organise les pratiques et la perception des pratiques, l’habitus est aussi structure structurée” - La Distinction, Minuit, 1979, p.191). Esse princípio assinala a principal filiação sociológica do seu pensamento no marxismo, posto que, como ele mesmo diz, logo a seguir, o habitus, ao ser simultaneamente estrutura estruturante e estruturada, é “o princípio da divisão em classes lógicas que organiza a percepção do mundo social” e que é, em decorrência disso, “o produto da incorporação da divisão em clsses sociais” ("le principe de division en classes logiques qui organise la perception du monde social est lui-même le produit de l’incorporation de la division en classes sociales” - La Distinction, Minuit, 1979, p.191). Ora, perceber o habitus como uma pratica recorrente que se mol...

Sociologia da cultura – aula 9

Nesta segunda aula sobre a noção de cultura na obra de Pierre Bourdieu abordamos a noção de habitus. Utilizamos três obras do autor para procurar uma compreensão do conceito: A Distinção, O Senso Prático e Coisas Ditas. A aula foi desenolvida segundo três objetivos: em primeiro lugar, compreender o conceito como fundamento da teoria bourdieusiana da cultura; em seguida, situar o conceito na dimensão antropológica e etnográfica da obra de Bourdieu, localizando a formação da noção de habitus na sua observação da sociedade Kabília; enfim, em terceiro lugar, elaborar uma percepção crítica da noção de habitus, debatendo seus fundamentos à luz de uma crítica à funcionalidade “estruturante” do pensamento do autor. Nesse sentido, procuramos esclarecer de que maneira a noção de habitus aproxima-se e afasta-se, ela própria guardando uma distância crítica notável, da tradição marxista.

Editorial do último Tribos urbanas

Reproduzo o editorial da última página do Tribos Urbanas: Tribos Urbanas chega ao fim com esta edição. Cumprimos nosso objetivo de realizar 26 páginas explorando as formas de identidade e de sociabilidade que, efêmeras, surgem em Belém. Essas “tribos” se caracterizam por seus vínculos passageiros e eventuais, mas também intensos e sensíveis. Elas resultam das dinâmicas próprias das sociedades atuais, que permitem ao indivíduo participar de comunidades diversas e que não possuem, necessariamente, uma coerência entre si. Esse é o sujeito pós-moderno, que pode ser reconhecido aqui em Belém ou em outra qualquer cidade da sociedade globalizada. Caracterizam-no sua interação social múltipla, o rompimento das máscaras tradicionais que o incluíam, antes, nos grandes sistemas de papéis sociais pré-estabelecidos e um certo dionisismo que pode ser compreendido como uma estetização da vida. De fato, o que leva um sujeito a participar de uma “tribo”, hoje em dia, é essa tendência em estetizar - e e...

Tribos Urbanas chega ao fim

Tribos Urbanas chega ao fim. Para quem não sabe, é o projeto que coordenei no Depto de Comunicação da UFPA, financiado pela Companhia Vale do Rio Doce. Durante dez meses publicamos páginas semanais sobre sociabilidades contemporâneas em Belém. Foram 26 páginas. O projeto funcionou com 11 bolsistas. A proposta era simples: integrar atividades de pesquisa a atividades de extensão, ou melhor, unir reflexão ao ato do jornalismo. Os bolsistas não apenas cumpriam pautas, mas recebiam textos para ler e participavam de seminários, estudando em profundidade os temas correlatos das identidades e das sociabilidades na sociedade urbana contemporânea. Em seguida, debatiam suas pautas e partiam para o campo. Dispunham de muito tempo para ler, escrever, fotografar e editar. A proposta é um jornalismo reflexivo, híbrido, liberto. Talvez, para provar que a distância entre teoria e prática não precisa existir. Adoro chegar ao fim de projetos. Tem uma frase de um filme de Godard, “Elogio do Amor”, que di...

Nota pessoal

Ah, antes que me acusem de paroquismo, não sou mais cristão que a maioria; ou seja, minha cristandade não me leva a missa e do missal não conheço senão os temas filosóficos. Até que julgava que Deus falava comigo quando era pequeno, mas ele só falava em hebraico. E como eu não entendia nada, deixei de acreditar nele.