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Palestras sobre os Amigos, n. 55: Marise e o dever-ser de se conhecer a si mesmo

Senhoras e Senhores, A língua francesa se me presta para a filosofia e é por meio dela que algumas perguntas me vêm, sonolentas, quando nem mesmo estou esperando. Uma dessas perguntas me veio, certa vez, imediatamente após uma conversação, sempre instigante, sempre plena de potenciais filosóficos, com minha amiga Marise R. M. E foi a seguinte: Est-ce un devoir que d'être soi-même? A qual traduziria assim: Temos o dever, de fato, de sermos quem somos? Imperioso é não confundir essa questão com o Γνῶθι σεαυτόν, Gnothi seauton – Conhece-te a ti mesmo, também sabido como nosce te ipsum, em latim – tão cara ao mundo antigo, pois não se trata de conhecer quem verdadeiramente quem se é, se é que se é verdadeiramente alguma coisa, ou mesmo alguém, mas sim de se ter o dever de ser quem se é, após tê-lo descoberto. Todas as vezes que converso com a querida Marise minha mente fervilha de ideias, mas sobretudo de perguntas, em geral desprovidas de coetâneas respostas. Na verdade, i...

Palestras sobre os Amigos, n. 52: Biá e a recusa de Ulysses

Há 20 anos atrás eu usava presentear meus amigos, no Natal, com "palestras", que escrevia a respeito deles. Era presente de coração, feito com uma das (raras) coisas que sei fazer razoavelmente: escrever. Agora, em 2019, decidi retomar o velho costume, acreditando que, nestes tempos em que tudo ameaça a boa-fé, a sinceridade e a amizade, precisamos declarar, cada vez mais, nossa devoção à amizade e nossa alegria de viver-juntos, de estar, de estar-no-mundo-com-os-outros. São textos de agradecimento, aos meus amigos, por serem que são e por estarem ali. Segue, então, a série Palestras sobre os Amigos. Neste episódio, a Palestra número 52, sobre a Biá: Biá e a recusa de Ulysses Senhores a senhores, A clássica figura de minha vizinha e amiga Maria Beatriz M. F., a Biá, constitui, em meu imaginário, a exegese perfeita da recusa de Ulysses, tema estrutural dos estudos clássicos. Por tal “recusa de Ulysses” se entende a maneira como Ulysses recusou-se, determinado, a v...

The Londonian Diaries 18: Caminhando por Islington, red quarters

Escrevi ontem sobre as eleições britânicas. Acrescento uma observação curiosa: o líder trabalhista  Jeremy Corbyn foi reeleito, pelo distrito londrino de Islington, historicamente o núcleo geográfico do trabalhismo inglês, onde (é esta a observação curiosa) Boris Johnson morou durante algum tempo. Isto dito, recupero uma pequena anotação das minhas "The  Londonian Chronicles" , as notas que tomei durante o tempo em que morei por essa cidade e em Cambridge. The  Londonian Diaries  18:  Caminhando por Islignton, red quarters Hoje visitei Islington, um dos 32 boroughs de Londres e um dos corações da cidade. O bairro tem, atualmente,  uma população de cerca de 215 mil pessoas e uma histórica reputação esquerdista.  É  pequeno e estreito, mas abriga duas constituencies -  ou seja, distritos eleitorais do Parlamento Britânico:  Isli ng ton Norte, cadeira ocupada pelo próprio lí der trabahista Jeremy Corbin e Isli ng ton Sul, ca...

Sobre as eleições no UK

Hoje acordei com meu whatsapp em polvorosa: umas mil mensagens em torno das eleições no UK e da fragorosa derrota trabalhista. Dúvidas, explicações, ponderações e críticas. Explico: faço parte de um grupo de zap de brasileiros democratas que moram na Inglaterra. De dois, aliás. Como morei lá por 6 meses, em 2017-18, fiz alguns amigos e conheci muita gente nesses meios, formados por imigrantes progressistas, sejam pesquisadores ou trabalhadores, conscientes e críticos do fascínio conservadorista no Brasil, de todas as áreas e de todos os campos. Pois bem. O assunto do dia foi esse: a maior derrota do trabalhismo inglês desde 1935 (em pleno crescimento do fascismo na Europa, com sintomas muito semelhantes aos que vemos, atualmente, na sociedade global). Note-se, que os contornos dessa tragédia trabalhista incluem a perda do distrito de Wrexham, onde os trabalhistas não perdiam há 84 anos. O que isso demonstra? Na superfície, que os britânicos querem mesmo o Brexit e está acabado....

Roteiro acadêmico em Paris... seis dias, três eventos

Estarei em Paris de 26/11 a 03/12, participando de três eventos científicos: um seminário, uma palestra e um banca de doutorado. Se alguém estiver por lá e se interessar pelos temas é só chegar.

Debate sobre a história econômica da Amazônia amanhã, no Naea

2a rodada de discussões em torno do livro do querido professor Francisco de Assis Costa, A Brief Economic History of Amazon, lançado pela Universidade de Cambridge. Amanhã, às 15h, no auditório do Naea. Todxs bem-vindos.

Lula foi solto. O que fazer agora?

Ver Lula sendo liberado da sua prisão injusta e desonesta me fez perceber que, de alguma forma, todos nós também estávamos, ao menos um pouco, presos junto com ele. E que, junto com Lula, também fomos, ao menos um pouco, libertados. Por isso, senti imensa alegria em ir ontem a noite ao mercado de São Brás e estar junto, por algumas horas, com pessoas muito queridas. Pessoas que, aliás, ficaram mais queridas de repente – na partilha dessa sensação de liberdade. Colegas, amigos antigos, companheiros de política, alunos e ex-alunos e mesmo desconhecidos. Estar junto é uma condição da política, necessária nos momentos de luta e permitida e desejada nos momentos de alivívio, superação e vitória. Porém, é preciso lembrar que Lula, de fato, ainda não está Livre. Ele foi solto. Mas ainda não está realmente Livre. E todos nós, igualmente, estamos soltos, mas não, ainda, Livres. É certo que há pessoas, instituições e fatos ainda menos Livres do que nós. As pessoas presas pela ign...

Sub-celebridades ex-bolsonaristas

O jornalista Moisés Mendes , de PoA, descreveu, com felicidade, a nova praga nacional: a sub-celebridade ex-bolsonarista: Lobão, Janaína Paschoal, delegado Valdir, Reinaldo Azevedo, Fagner, Alexandre Frota, Joice Hasselmann... Só espero que essa tendência alcance também os ex-bolsonaristas que não ousam dizer o nome: aqueles tios, primos e amigos de infância – para não falar os incontáveis evangélicos re-penitentes – que embarcaram na onda anti-petista e foram tomados pelas ilusões moristas-bolsonaristas.

Pacote de maldades contra o serviço público

O “Plano mais Brasil”, pacote de maldades neoliberais apresentado ontem por Bolsonaro e seu comparsa Paulo Guedes constitui uma tentativa de dinamitar o serviço público brasileiro. O pacote se divide em 3 propostas de emendas constitucionais que incluem, dentre inúmeras estratégias de desestabilização do serviço público, um plano de redução temporária de 25% da jornada de trabalho, com consequente corte no salário dos trabalhadores, O impacto de uma medida como essa pode catapultar a economia brasileira para trás, produzindo um efeito devastador sobre a renda familiar, com impacto na saúde pública e na formação/qualificação de mão de obra futura, um processo de crescente endividamento das famílias, insegurança alimentar, crise geral do comércio e, consequentemente, da produção industrial. Podendo atingir os cerca de 600 mil servidores ativos da União, com ressonância, eventualmente, sobre a massa de aposentados e sobre os servidores públicos estaduais e municipais, Note-s...

Mensagens ao establishment

Como disse Helena Chagas , a imagem mais simbólica do dia em que o governo entregou seu novo pacote econômico ao Legislativo não foi a da entrega, ao Senado, do pacote de maldades contra o serviço público de Bolsonaro, mas a da ex-líder do Governo, Joice Hasselmann, chorando na tribuna da Câmara, chamando o presidente, seus filhos e seu “governo” de “bandidos” e “criminosos”. A performance da deputada demonstra que a base parlamentar do governo praticamente está anulada. Porém, Bolsonaro e Guedes, com imenso apoio da mídia, entregaram, mesmo assim, o seu pacote anti-servidor público. Por que o fizerem? Penso que para mandar mensagens para o establishment: mensagens de que, mesmo sem base parlamentar e com a perda de apoio social, continuam sendo a melhor opção para os interesses do grande capital. Num governo de nulidades, joga-se o ônus e o bônus do novo pacote de maldades para o Congresso. A ele de aprovar o que quiser, inclusive colhendo os louros políticos de suas ev...

Como fazer política em cinco minutos

Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, foi ao Congresso americano no último dia 23 de outbro para apresentar seu projeto de criptomoeda, o “Libra”. Praticamente nenhum deputado foi ouvi-lo. A sala vazia... Ou quase. Lá estava a deputada democrata por Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez – estrela política e midiática ascendente da política norte-americana (sugiro que vejam o documentário “Virando a mesa do poder”, a respeito dela e de outras campanhas de candidatas democratas nas últimas eleições norte-americanas, disponível na Netflix). Só que Ocasio-Cortez não estava lá para saber da moeda digital de Zuckerberg. Estava lá para aproveitar os 5 minutos que teria direito, como deputada, a questionar o visitante e crivá-lo de perguntas sobre seu envolvimento no caso da Cambridge Analytica. Seguiram-se 5 minutos de arguição intensa, que deixaram Zuckerberg desnorteado. 5 minutos de política intensa, febril, de alta densidade. “Para que possamos tomar decisões sobre o Libra”, co...

Um logo inclusivo e republicano?

Os organizadores dos Jogos Olímpicos de Paris 2014 revelaram, na 2ª-feira passada, 21 de outubro, o logo do evento. Aliás, dos eventos, pois pela primeira vez os JO e o Jogos Paraolímpicos terão um mesmo logo. Por todo lado se fala dele – menos, é claro, onde as pessoas têm coisas muito importantes a tratar, como no Chile, na Bolívia, no Líbano e na faixa de 10 km além da fronteira turca, entrando pela Síria. Não estou aqui para dizer o que acho do logo – mesmo porque eu não acho nada e nem me sinto responsável por emitir opinião sobre os JO, além do que também eu tenho certos assuntos importantes a tratar – mas acho muito interessante a efervescência, o debate, em torno desse logo. Leio que o ícone foi criado pela agência Royalties-Ecobranding e, teoricamente, representa uma medalha de ouro sobre a qual ondula uma chama branca – dois símbolos olímpicos maiores – que se confundem com um rosto humano: o de uma mulher, alegadamente Marianne, a revolucionária de 1789, alegoria da r...

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Γύρισα! Indo por aí lembrei que tinha este caderno de notas - dentre outros. E daí pensei: why not?

Crônica de domingo 2: Natal de 75

1. Vou logo dizendo que não houve, neste Natal, grandes aventuras. Longe da Quicê, estávamos seguros, pacíficos e tranquilos. A Quicê – embora sob protestos – fora liberada de nos acompanhar ao Rio de Janeiro, onde deveríamos passar Natal, ano-novo, dia de Reis e o verão sulista, e isto constituía um destacado elemento de alívio aos sentidos de minha mãe.  Os dois últimos Natais foram excessivos para quem queria apenas paz e fraternidade – como minha mãe, coitada. No Natal de 1973 a Quicê, minha babá, fora vestida de Papai Noel e fora atacada pelo dobermann da casa, o Quinquin, ou Rolf do Capimtuba – de seu nome completo – que para além de destruir a Quicê destruiu, também, todos os presentes que ela carregava no seu saco de Papai Noel ( não conhecem a história? Vejam-na aqui ). E, no Natal seguinte, em 1974, a Quicê provocou o incêndio da grande árvore de Natal americana que meu pai trouxera da Zona Franca de Manaus, quase morrendo eletrocutada ( Vejam aqui esse relato )....