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Outra estátua que se vai (tarde)

Foto de Catlyn Ochs, publicada no The New York Times Outra estátua se vai, nesse importante processo de renarração da história, iniciada quando, no começo de junho, manifestantes  derrubaram a estátua de um mercador de escravos, Edward Colston, em Bristol, UK. Desta vez é a estátua de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos, instalada no hall de entrada do Museu de História Natural de Nova York. Na sequência dos questionamentos e protestos iniciados com o Black Lives Matter, várias estátuas representando os heróis da história hegemônica - uma história quase exclusivamente branca e masculina - já foram derrubados.  No caso do Museu de História Natural a decisão veio do próprio Museu, que percebeu que a estátua "descreve explicitamente negros e indígenas como seres inferiores e subjugados". A decisão recebeu apoio do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que declarou que "É a decisão certa e o momento certo para remover esta estátua problemática. Cabe dizer q...

O PT em dia de decisão: apoiar o PSOL ou o Podemos? A hora da identidade, da pertinência, da duração e do compromisso.

O PT decide, hoje, com quem comporá chapa para a prefeitura de Belém: sendo o vice de Edmilson Rodrigues , ex-prefeito petista de Belém, hoje no PSOL, ou sendo o vice de Úrsula Vidal, que passou por inúmeros partidos e que hoje integra o Podemos, um partido cuja função política é a de hostilizar e incentivar o ódio ao PT. Apesar de tudo - tanto do óbvio como das evidências - o partido está dividido e o debate tem sido intenso. Suponho que a militância não tenha dúvidas, embora os delegados e alguns dirigentes do PT, à custa de prelibações individualistas, construirem seus argumentos. Por isso gostaria de contribuir com esse debate, muito breve e objetivamente. A primeira coisa que quero dizer é que, com todo respeito pelas pessoas que são Edmilson e Úrsula – e conheço e admiro a ambos, a nível pessoal – não se trata de escolher pessoas, mas de escolher entre perspectivas estratégicas para o PT. Trata-se de afirmar e, sobretudo – dado o contexto da campanha de ódio ao PT – confirma...

Notas de conjuntura 3 de junho de 2020

Algumas notas de conjuntura política, feitas de um lugar de fala antifas, indignado com o anti-governo que está aí, desconfiado da ideia de “pactuação nacional” e esperando uma esquerda mais tática: 1 – Consolidou-se a convicção, no campo conservador brasileiro, aí incluídos o STF, o TSE, importante parte do empresariado e da mídia de que Bolsonaro é perigoso, incompetente, incorrigível e uma ameaça tanto para a economia e para a saúde pública como para o sistema político e para a segurança interna. Esses atores estão se movimentando na direção de uma cassação da chapa Bolsonaro/Mourão, com base nas apurações do inquérito das fake news . Esse processo coloca a direita liberal na vanguarda da luta política brasileira e pretende reduzir as forças políticas de esquerda a uma condição de “força auxiliar” na luta contra Bolsonaro. É preciso recuperar o protagonismo na luta política, e isso se faz por meio de dois movimentos : a) impondo uma agenda básica da esquerda a qualquer movimento...

Rebelião no dia das mães

Cresci com a interdição de referir o dia das mães. Era uma norma doméstica, imposta pela sabedoria de meu pai, sempre implicante contra o que considerava como “afetos vulgares do capitalismo”. “Escolher um único dia para homenagear uma mãe é um símbolo maior da decadência ocidental”, repetia meu pai, muito incomodado e retórico, completando o raciocínio de maneira indignada: “Reduzir uma mãe a um dia, a um presente, é a pior maneira de ofendê-las! Significa reduzir a pouquíssimo a pessoa mais importante da vida de cada um. Significa reduzir as mães a uma condição simbólica apenas efemérica!” Efetivamente, ninguém dava muita bola para as revoluções de meu pai, mas nem que fosse para termos paz, fingíamos concordar com ele, e toda a família conseguia comemorar o dia das mães sem que ele percebesse, exatamente, o que estava acontecendo. Ah, meu pai... Suas controversas, críticas e cataclismáticas opiniões sempre foram mal-compreendidas. Mesmo por mim, tão interessado na alheia hermenêutic...

Um blog para refletir sobre a pandemia a partir de nossa experiência de pesquisa

Car@s, nosso grupo de pesquisa, o SISA (Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas) – Ppgcom-Ilc / Ppgdstu-NAEA – fez um blog para refletir sobre a pandemia a partir de nossa experiência de pesquisa. Talvez seja tempo de “converter” nossas pesquisas, inclusive nas ciências sociais, para pensar essa nossa experiência comum, afinal estamos no mundo da vida, escrevemos nela, por meio dela e com o cuidado dela. Convido tod@s a darem uma olhada no Cadernos do SISA, gentilmente hospedado na plataforma científica francesa hypotheses: https://sisa.hypotheses.org/ As questões que começamos a construir são as seguintes: Quais as práticas de sociabilidade possíveis em tempos de pandemia? De que maneira a experiência da pandemia e, especificamente do confinamento, transformarão as formas da sociabilidade em nossas sociedades? Como se produzem e reorganizam as sensibilidades diante dos enfrentamentos produzidos pela pandemia? Como a pandemia transforma o mundo da vida, o quotidia...

Expulsar Bolsonaro é lutar pela vida, pela inteligência e pelo direito à solidariedade

O principal signo de que alguém é ignorante, burro, idiota e imbecil é o binarismo. A prática de reduzir o mundo a equações do tipo “ou... ou...” constitui a quintessência do sofismo e, ao mesmo tempo, da asnice pura. Essas coisas do tipo branco ou preto, doente ou saudável, nacional ou estrangeiro, mulher ou homem, dentro ou fora, falso ou verdadeiro, ciência ou ficção e até mesmo esquerda ou direita nunca deram conta de expressar a riqueza, a diversidade e a complexidade da vida social. Por que estou dizendo isso? Só para dizer que o bolsonarismo é, fundamentalmente, binarista. Essa conversa que tende a opor saúde pública a economia é ridícula e não deixa de ser impressionante como tem gente ainda cai nesse papinho. De jornalistas a economistas, de gente “séria” a gente “doida”. O fato é que o bolsonarismo produz falsos dilemas. Para fazê-lo, quando na falta de um polo opositor, inventa inimigos quiméricos: do marxismo ocidental ao deus-mercado. Politizar binariamente essa epi...

Enredo patológico

A política brasileira tem sido a novela das oito destes tempos de confinamento. Bolsonaro e Moro se esfaquearam numa primeira manifestação de forças de cada lado. Para os próximos capítulos esperamos revelações de podres dos dois lados e muita baixaria. E isso com gravações, segredos e, claro, denúncias vazias. Espero duas coisas desse enredo: que as revelações de Moro ofereçam munição para a queda de Bolsonaro e que as revelações de Bolsonaro firam profundamente a imagem pública de Moro. E da esquerda, o que eu espero?  Só uma coisa: Que saiba não perder, para o Moro, o protagonismo do “Fora Bolsonaro”. Sim, porque a Globo e a direita conservadora vão trabalhar para isso, com apoio de gente graúda que já assinalou, hoje mesmo, que pode deixar o barco de Bolsonaro, como o PGR Augusto Aaras e o ministro Luís Roberto Barroso, do STF. E isso, inclusive, criando elementos para uma cassação da chapa eleita por fraude eleitoral, o que leva imediatamente a novas eleições. Por que...

É preciso começar o ‘Fora, Bolsonaro'

Finalmente o PT decidiu apoiar o Fora Bolsonaro. Mas finalmente mesmo! Muitos estavam ficando com a sensação de que o PT estava cansado de fazer política. Ou melhor, que os dirigentes do partido haviam ficado cansados de fazer política. A justificativa de que o momento era de combater à pandemia, aprovada em resolução do Diretório Nacional do partido no último dia 9, foi aparentemente revertida, hoje, 23, com a deixa de Lula no Twitter, dizendo que “É preciso começar o ‘Fora, Bolsonaro’” É difícil entender a prudência do PT. Há argumentos a seu favor, é verdade, mas creio que eles não se justificam realmente. Dentre o que se ouviu, posso anotar as percepções de que “lutar contra a pandemia tem que ser prioridade”, “a luta contra Bolsonaro não contaria com apoio das massas”, “o momento não é agora, é preciso aguardar uma correlação de forças mais favorável”, “confrontar Bolsonaro é fazer o jogo dele de dicotomização e de vitimização”, “não há um projeto claro nem de retirada e nem de...

Diários Confinados 3 – Sobre peste, quarentenas, estigmas e tabus

Hoje eu ia ler o « Decamerão » – leitura apropriada para nosso isolamento – mas acabei encontrando o « Stigmata », de Erving Goffman, e me distraí. Incomodado com um trecho, parti em busca de «  Purity and Danger  »,   de  Mary Douglas, e acabei encontrando o Levítico. Não li nada direito. Continuei confinado, de quarentena, pesando nas ordens que Deus deu ao sacerdote Aarão, irmão mais velho de Moisés: as ordens de separar o impuro do puro.  Nestes tempos nos quais as marcas das impurezas virais são tão dissimuladas, bem sabemos que nada, nem os estigmas estudados por Erving Goffman, nem os tabus estudados por Mary Douglas, têm o poder de separar o impuro do puro. E, por via das dúvidas, restamos todos impuros – de quarentena. Pelo menos restamos acreditando, ao menos isso, que basta lavar muito bem as mãos e usar uma máscara, quando se a tem, porque as ordens que Jeová deu a Aarão (Levítico, 13, na Vulgata), convenhamos, são ...

Diários Confinados 2 – O que o governo Bolsonaro devia fazer e não faz?

A taxa de mortalidade por Covid 19, na Alemanha, apresenta dados interessantes: 0,3%, contra 3,6% na França e 8?5% na Itália. Por que essa diferença? São três países europeus e vizinhos, economias desenvolvidas e estados com condições técnicas bem mais elevadas eu a grande maioria dos países do mundo. O que explica, então a diferença? O que explica a “exceção” alemã? Venho lendo os jornais e os documentos públicos sobre o coronavirus desses países –  quer dizer, não da Alemanha, porque não tenho alemão para isso – tentando entender a diferença. Atenção: não sou profissional da área da saúde, então o que anoto aqui são apenas dados de leitura e observações, e não considerações científicas. E o que percebo são algumas variáveis interessantes: 1°) a média de idade das pessoas contagiadas é mais jovem na Alemanha de que em outros países: 47 anos na Alemanha; 2°) a decisão política imediata do estado alemão de testar, massivamente, a população – hoje num ritmo de 160 mil tes...

Diários confinados 1: Simétricas aparências

  A imagem da organizada fila de supermercado (imagem 1), na cidade italiana de Prato, faz pensar no Golconda, o quadro de Magritte, pintado em 1953 (imagem 2). O respeito às regras de distanciamento pessoal, que passaram a ser necessárias em todo o mundo em função da epidemia, parecem encontrar uma representação profética no quadro de Magritte.  A chuva de homens retratada no quadro pode ser lida como uma alegoria da representação. Os homenzinhos pintados podem parecer iguais - afinal se vestem da mesma maneira e têm semelhanças físicas, mas eles não são iguais. Olhem para os rostos e perceberão. Representações enganam, mentem.  Tal como, aliás, a riqueza dos diamantes produzidos durante séculos na cidade de Golkonda, na Índia, que dá nome ao quadro. Essa pintura parece ser uma alegoria crítica do individualismo, do isolamento, mas Magritte não deixou explicações - afinal, era um surrealista... Livre de imposições interpretativas e confinado em casa ne...

Novo corte de bolsas pode paralisar pesquisa científica

Estou indignado com o novo corte de bolsas de estudo feito pela Capes. O mesmo governo que corta bolsas, corta o Bolsa Família, estimula demissões e cortes salariais, transfere bilhões aos planos de saúde, companhias aéreas, bancos e empresários. Isso acontece justamente num momento em que a pesquisa científica se torna vital na luta contra a epidemia do coronavírus. Mais um exemplo da incapacidade desse governo continuar governando, em meio a uma situação de crise nacional.  Só o departamento de Pneumologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul teve um corte de 80% de suas bolsas. Pneumonologia! É preciso exigir a revogação imediata da portaria 34/2020 da CAPES. Pesquisa se faz com bolsas e investimento!  Para quem não sabe, antes dessa portaria os programas de pós-graduação poderiam perder, este ano, no máximo 10% das bolsas que possuíam. O novo corte eleva essa porcentagem para 50% nos programas nota 3, 40% naqueles de nota 4, 35% nos de nota 5, 30% nos de nota 6...

Mascarados fazendo necropolítica

O pior não é a evidente incompetência do governo Bolsonaro. O pior não é a sua inoperabilidade. O pior de tudo é a lógica de tudo o que ele faz: a lógica da morte, a necropolítica. Conscientemente ou tacitamente, esse governo trabalha para exterminar o inimigo. Ou tudo aquilo que identifica como inimigo: adversários, os pobres, a educação, a ciência, o Nordeste, a Amazônia... necropolítica.   Ao que estamos vendo, para além de não ter ideia alguma sobre o que deva ser governar o Brasil em meio à crise do novo corona vírus, essa gente está percebendo o vírus, consciente ou tacitamente, como uma oportunidade. Uma oportunidade de extermínio, de morte, de aniquilação de tudo o que identifica como inimigo.  Só isso explica a inação, a apatia, o descaso e o descompromisso com uma ação política mais contundente e efetiva de combate à epidemia.  A entrevista coletiva de ontem comprova o que estou dizendo aqui: mascarados com uma atitude irresponsável e canalha de construir...